1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
Foto: Reuters

Solução do vazamento radioativo em Fukushima parece mais distante

Martin Fritz (cn)
14 de agosto de 2013

A companhia japonesa Tepco diz ter conseguido controlar a radioatividade em Fukushima, palco de acidente nuclear após tsunami em 2011. Mas vazamento de água radioativa continua contaminando o Pacífico.

https://www.dw.com/pt-br/solu%C3%A7%C3%A3o-para-%C3%A1gua-radioativa-em-fukushima-parece-cada-vez-mais-distante/a-17020350

A Tokyo Electric Power Company, conhecida como Tepco, é responsável pela restauração do complexo de usinas atômicas Fukushima Daiichi e pela reparação dos danos causados pelo acidente nuclear de dois anos atrás, consequência de um sismo seguido de um tsunami no litoral do Japão. Formalmente, a Tepco é uma empresa privada. Parte dela pertence ao Estado.

Apesar de possuir poder para interferir na administração da companhia, o governo japonês se recusa a fazê-lo. Essa posição de afastamento tem saído cara.

O próprio governo admitiu que, há dois anos, há vazamentos de água radioativa do lençol freático da região da usina atômica para o Oceano Pacífico. Estima-se que, diariamente, vazem no mar cerca de 300 mil litros desse líquido. Em uma semana, essa quantidade poderia preencher uma piscina olímpica, de 2,5 milhões de litros.

O Instituto para Ciências Industriais da Universidade de Tóquio pesquisou as consequências desse vazamento no solo marinho. "Nós encontramos mais de 20 locais, onde a poluição por radiação de césio era dez vezes maior do que nos arredores. Essas áreas têm até 100 metros de diâmetro", conta o coordenador da pesquisa Thornton Blair.

Ordens contraditórias

Depois do acidente nuclear em março de 2011, a maior produtora de energia atômica do país recebeu do governo japonês duas missões contraditórias. Por um lado, a Tepco deveria assumir sozinha todas as consequências decorrentes do acidente, pois a companhia não havia se preparado de maneira correta para possíveis tsunamis.

Fukushima Kazuhiko Shimokobe
Presidente da Tepco, Kazuhiko Shimokobe, exige a ajuda do EstadoFoto: K.KAMOSHIDA/AFP/GettyImages

Por outro lado, a empresa deveria voltar a ter lucros o mais rápido possível através da implementação de medidas de economia e de reestruturação. Dessa maneira, a Tepco pagaria de volta os empréstimos estatais, ou seja, as injeções diretas de capital e os adiantamentos dos fundos de compensação.

Mas, na realidade, a Tepco jamais poderá saldar os custos do acidente nuclear sozinha. No início de 2013, o presidente do conselho administrativo da empresa, Kazuhiko Shimokobe, alertou para uma possível falência, caso o Estado não assumisse alguns gastos.

O valor do desmantelamento dos reatores danificados foi calculado em um trilhão de ienes, o equivalente a cerca de 23 bilhões de reais. Até o momento, a Tepco já gastou 300 bilhões de ienes e calcula que a reforma custará cinco vezes mais. A empresa precisa, até março de 2014, de mais 24 bilhões de reais, somente de capital, para poder pagar suas dívidas antigas.

Reconhecimento atrasado

Esses números indicam que a Tepco não tem dinheiro para os consertos necessários em Fukushima. Mas apenas após os vazamentos radioativos o governo japonês foi obrigado a reconhecer que não pode mais deixar a companhia sozinha.

Japan Unfall Atomkraftwerk Fukushima Meereswasser Verseuchung Schutzwall
Muro de proteção está sendo construído na usinaFoto: Reuters

O primeiro-ministro, Shinzo Abe, pediu que o ministro da Indústria apoie a empresa na luta contra os vazamentos. Pela primeira vez, o dinheiro de impostos será utilizado para conter as consequências do acidente nuclear. O valor inicial em discussão é de 40 bilhões de ienes, o equivalente a 937 milhões de reais.

Com esse dinheiro, a Tepco pretende construir uma parede de resfriamento subterrânea para evitar o acumulo de água nos porões dos reatores. Para resfriar a parede, canos refrigeradores serão instalados perpendicularmente ao solo.

O novo sistema será construído em torno de quatro reatores, com uma extensão de 1,4 quilômetros e até 30 metros de profundidade. A técnica é aplicada na construção de túneis, mas nunca foi testada dessa forma.

Devido ao grande consumo de energia e aos custos de manutenção, o muro de proteção é uma alternativa cara em longo prazo. Segundo um porta-voz do Ministério da Indústria, a Tepco não possui a quantia necessária para esse investimento, por isso o Estado precisa ajudar financeiramente a empresa.

Sem saída para o vazamento

A intervenção do governo gerou novas dúvidas sobre a competência da Tepco para realizar os trabalhos de limpeza e desmantelamento da usina nuclear danificada. No início de 2013, críticos apontaram um colapso no sistema de refrigeração dos reatores. A parte elétrica da usina ainda era provisória. O curto-circuito foi causado por uma ratazana.

Fukushima Masayuki Ono Tepco
Vazamento está fora do nosso controle, afirma OnoFoto: Y.TSUNO/AFP/Getty Images

Assim, o vazamento de água do subsolo também pode indicar a incapacidade da Tepco: só a construção de uma barreira subterrânea conseguiu elevar o nível do lençol freático. "Esse vazamento está fora do nosso controle", afirmou o diretor da Tepco, Masayuki Ono.

A quantidade de água contaminada aumenta tão rapidamente que no fim só restará uma solução, escoá-la para o Pacífico. "A situação está longe das possibilidades da Tepco", afirma o ex-construtor de usinas nucleares e crítico da energia atômica Masashi Goto.

Segundo Goto, a Tepco não se recusa a fazer o necessário, mas não existe uma solução perfeita. O novo presidente do Departamento de Regulação Nuclear do país, Shunichi Tanaka, já demonstrou que já será compreensivo caso a água seja menos contaminada que o permitido.