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Sob pressão de Trump, mídia americana dá guinada à direita

Scott Roxborough
19 de setembro de 2025

Após a suspensão de talk show de Jimmy Kimmel, Casa Branca deve seguir interferindo no panorama midiático dos EUA, que se alinha cada vez mais a ideais conservadores. Hollywood também está na mira.

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O apresentador americano Jimmy Kimmel aparece de smoking, abanando para o público.
Programa de Jimmy Kimmel foi suspenso após ele fazer comentários sobre o suspeito de matar Charlie KirkFoto: Aude Guerrucci/REUTERS

A morte de Robert Redford na terça-feira (16/09) não caracterizou apenas a perda de uma lenda do cinema. Ela encerrou um capítulo de uma Hollywood que antes se considerava a consciência progressista dos Estados Unidos.

Redford, que interpretou, por exemplo, o jornalista Bob Woodward no filme Todos os Homens do Presidente – retrato do escândalo de Watergate nos anos 70 –, e fora das telas era um ativista climático e de direitos indígenas, personificava uma visão liberal da indústria do entretenimento dos EUA, que defendia vozes independentes e narrativas com consciência social.

A semana em que ele morreu, porém, revelou ainda mais sinais de uma guinada à direita no setor de entretenimento dos EUA, com o pêndulo do poder cultural se inclinando para mais longe da Hollywood de Redford e mais próximo dos EUA de Donald Trump.

Isso ficou claro na reação da mídia americana ao assassinato do ativista de ultradireita Charlie Kirk. Na quarta-feira, a rede nacional ABC, controlada pela Disney, anunciou que tiraria do ar "por tempo indeterminado" o popular apresentador de talk show  Jimmy Kimmel, após Brendan Carr, chefe da Comissão Federal de Comunicações, o órgão regulador de radiodifusão no país, ameaçar tomar medidas contra a rede.

O pretexto de Carr para ameaçar a ABC foram comentários de Kimmel que foram interpretados como uma sugestão que o assassino de Kirk poderia ter sido um republicano apoiador de Trump.

Essa suspensão ocorre poucas semanas depois que a rede rival, a CBS, anunciou que cancelaria o programa The Late Show With Stephen Colbert no final da temporada, alegando motivos financeiros.

Charlie Kirk fala em púlpito com inscrição Trump 2020, com bandeiras dos EUA ao fundo.
Charlie Kirk durante campanha para Trump na eleição de 2020Foto: RS/MPI/Capital Pictures/picture alliance

Magnata da Paramount alinha-se a Trump

O cancelamento do programa de Colbert gerou questionamentos e acusações que insinuam que isso teria ocorrido por motivos políticos. Em julho, a CBS, subsidiária da Paramount, discretamente pagou 16 milhões de dólares (cerca de R$ 85 milhões) a Trump para encerrar uma ação judicial relacionada a uma entrevista com Kamala Harris no programa "60 Minutes" em 2024 – Trump alegou, sem muitas evidências, que o programa alterou a entrevista para fazer Harris parecer melhor.

A rede cancelou o programa de Colbert depois que o apresentador criticou o pagamento como um "grande suborno". Colbert ainda recebeu um Emmy no domingo passado, mas estará fora do ar a partir de maio de 2026.

Nesta semana, também houve mais especulações de que David Ellison – filho do bilionário Larry Ellison, cofundador e presidente da empresa de softwares Oracle, o segundo homem mais rico do mundo e aliado de longa data de Trump – dará continuidade à aquisição da Paramount, no valor de 8 bilhões de dólares, já mirando uma outra joia de Hollywood: a Warner Bros. Discovery.

Esse movimento uniria as participações da Paramount, incluindo a CBS e as franquias "Missão Impossível" e "Star Trek", com os ativos da Warner: DC Studios ("Superman", "Batman"), juntamente com a CNN e a HBO.

Em outros tempos, o acordo teria despertado grandes alarmes antitruste – a fim de evitar a formação de monopólios. Mas, sob Trump, os reguladores mudaram o foco. Agora, as autoridades enfatizam a "neutralidade" política em detrimento das preocupações com a concorrência, e a CNN deve enfrentar um escrutínio particular.

Ellison já demonstrou disposição para se alinhar à agenda de Trump. Ele nomeou Kenneth Weinstein, chefe de um think tank conservador e assessor do presidente, como ombudsman da CBS News. Ele tem mantido conversações com Bari Weiss, fundadora da Free Press, uma empresa de mídia contrária à chamada "cultura woke", sobre uma possível função na CBS.

O apresentador americano Stephen Colbert aparece sorrindo para a câmera. Ele veste terno escuro, camisa branca e gravata vermelha, além de óculos. Ao fundo, está o símbolo do canal de televisão CBS.
Programa de TV de Stephen Colbert deve sair do ar até maio de 2026Foto: Andy Kropa/Invision/AP/picture alliance

Série de processos por difamação

A Paramount não é a única, aparentemente, a capitular diante de poderosos atores da direita. A ABC News concordou em pagar 15 milhões de dólares para resolver um processo por difamação envolvendo comentários críticos a Trump feitos pelo apresentador George Stephanopoulos.

O Wall Street Journal e o New York Times ainda enfrentam processos semelhantes de bilhões de dólares movidos por Trump.

Há também uma razão comercial por trás da decisão da ABC de retirar Kimmel do ar. A Nexstar, proprietária de dezenas de afiliadas da ABC, está em busca de uma megafusão que a tornaria a maior proprietária de emissoras dos EUA.

Como a fusão ainda requer aprovação do governo, a Nexstar se antecipou e decidiu encerrar o talk show. Há algumas semanas, o CEO da empresa também elogiou o governo Trump quando anunciou uma fusão com a rival Tegna por 6,2 bilhões de dólares.

Os críticos alertam que o efeito dessas ações tem sido assustador, com redes, estúdios e plataformas de streaming cada vez mais cautelosos com programações que podem despertar a ira presidencial.

A comunicadora Bari Weiss, da empresa conservadora de mídia Free Press, aparece de óculos, brincos grandes de argola, gesticulando, enquanto fala.
Bari WeissFoto: Leigh Vogel/Getty Images

Gigantes midiáticos renunciam a valores "woke"

Recentemente, a Disney renunciou aos chamados valores "woke", com o CEO da empresa, Bob Iger, declarando que sua missão é "entreter" e não promover "qualquer tipo de agenda".

Nos meses seguintes à eleição de Trump, os maiores estúdios silenciosamente reduziram seus programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI). A Disney reformulou suas iniciativas culturais, enquanto a Amazon e a Paramount eliminaram metas de contratação e treinamento antes vinculadas ao DEI.

As mudanças seguem a ordem executiva de Trump, que desmantelou os programas federais de DEI e sinalizou um escrutínio regulatório para as empresas que os mantiverem.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aparece sentado em uma mesa, com as mãos sobrepostas, com olhar sério. Ele veste terno escuro, camisa branca e gravata amarela.
Trump, durante episódio do reality show que o deixou famoso, The ApprenticeFoto: Ali Goldstein/NBC/Everett Collection/IMAGO

Produção de conteúdo conservador

A mudança na programação é igualmente perceptível. A Amazon está investindo a espantosa quantia de 40 milhões de dólares em dois documentários sobre Melania Trump, um deles dirigido por Brett Ratner, diretor e produtor cancelado pelo movimento #MeToo. A plataforma de streaming também está reprisando as sete primeiras temporadas de The Apprentice", reality show estrelado por Trump que o deixou famoso nos EUA.

A guinada conservadora de Hollywood já estava em andamento antes da segunda presidência de Trump. A série Yellowstone, de Taylor Sheridan, e suas derivadas – programas melodramáticos do horário nobre que abraçam uma visão de mundo mais comum do interior dos EUA do que dos centros urbanos das duas costas – tornaram-se franquias bilionárias, apesar de terem sido ignoradas pelo Emmy.

O mais recente trabalho de Sheridan, Landman, exibe trabalhadores do setor petrolífero no centro de sua narrativa, com personagens que se opõem à energia limpa e à burocracia governamental.

Também tem ocorrido um renascimento de filmes e séries de TV com temática cristã. Destaque para a Angel Studios, uma produtora "afeita à fé", sediada em Utah. O filme O Som da Liberdade, estrelado por Jim Caviezel, ator de "A Paixão de Cristo", arrecadou 250 milhões de dólares em todo o mundo. O Rei dos Reis, um filme de animação sobre a vida de Jesus, arrecadou outros 77 milhões de dólares.

Na semana passada, a Angel Studios abriu suas ações, avaliadas em 1,3 bilhão de dólares. Seus próximos projetos incluem Zero A. D., um thriller bíblico épico, e Young Washington, um olhar patriótico sobre os anos iniciais de vida do primeiro presidente americano.

Cinema indígena conquista Hollywood

Ideologia e economia

Essa reorientação não se resume apenas a questões ideológicas, mas sim econômicas. As bilheterias dos cinemas continuam abaixo do nível pré-pandemia. O streaming acabou com os DVDs, que eram uma grande fonte de renda para os estúdios. Há também a queda nas assinaturas de TV a cabo.

Desesperada por lucros, Hollywood busca apostas seguras e de baixo custo. Filmes e séries com temática religiosa e conservadora, muitas vezes produzidos com baixo orçamento e sem estrelas de primeira linha, podem atrair um público fiel e gerar margens de lucro mais altas. Os anunciantes também preferem conteúdos que evitem temas que levem à polarização.

O risco, no entanto, é de que Hollywood esteja trocando um tipo de conformidade por outro. Esse "grande unwokening", ou "repúdio à cultura woke", como a revista progressista New Republic e outros veículos abordam a questão, pode não refletir tanto a demanda do público quanto o desespero da indústria.

Assim como o surgimento da narrativa progressista no final da década de 2010 coincidiu com a expansão do streaming e a busca por assinantes mais jovens, a guinada à direita de hoje ocorre em um momento em que os estúdios se esforçam para cortar custos e estabilizar seus balanços patrimoniais.

Robert Redford incorporou a ideia de que Hollywood poderia desafiar o poder estatal. Hoje, a indústria do entretenimento parece menos interessada em desafiar do que em sobreviver – e a sobrevivência, por enquanto, parece estar alinhada com a ideologia "Make America Great Again" de Trump.

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