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Foto do rio com largas margens secas. Ao fundo, a catedral de Colônia.
Rio Reno na altura de Colônia, na AlemanhaFoto: Henning Kaiser/dpa/picture alliance

Seca na Europa afeta rios, bosques, agricultura e logística

13 de agosto de 2022

Nível de água baixo prejudica o transporte fluvial, e agricultores de diversos países veem colheitas em dificuldades. Na França, restrição ao uso de água forçou o desligamento de usinas nucleares.

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A Europa enfrenta neste ano um verão seco e de altas temperaturas, com efeitos múltiplos em incêndios florestais, cadeias logísticas, produção industrial e na agricultura.

Uma manifestação visível da seca são as margens de alguns rios europeus, que se alargaram e expuseram rochas, detritos e até artefatos explosivos da Segunda Guerra Mundial que costumam ficar submersos. O baixo nível da água afeta o transporte fluvial, com repercussões na economia como um todo, já impactada pela guerra na Ucrânia.

Reno com pouca água

Esse drama fica claro no rio Reno, que conecta os Alpes ao Mar do Norte é o segundo rio mais longo da Europa, depois do Danúbio.

O Reno é uma artéria logística na Alemanha, e o nível baixo da água já obriga as barcaças que o percorrem a adotarem uma capacidade de carga reduzida. Algumas empresas anunciaram que interromperão o transporte fluvial a partir da próxima semana no Alto e Médio Reno, da fronteira com a Suíça até Bonn.

O ponto de referência mais importante do Médio Reno é o medidor Kaub, a cerca de 50 quilômetros rio abaixo da cidade de Mainz. Nesta sexta-feira, ele estava em 37 centímetros, quando a média para este dia do ano, nos últimos cinco anos, é de cerca de dois metros – a medida é registrada a partir de um mesmo ponto de referência, e não do ponto mais fundo do leito do rio.

As barcaças podem navegar ali, com carga parcial, com uma indicação mínima de 30 a 35 centímetros. Para carga completa, elas precisam em geral de 1,5 metro naquele ponto.

O mínimo nível já registrado foi em outubro de 2019, de 25 centímetros. Em geral, o ponto mais baixo não ocorre em julho e agosto, que costumam ser meses chuvosos na região, mas em outubro – o que sinaliza más perspectivas para os próximos meses se não voltar a chover.

Problemas logísticos

O Instituto Federal de Hidrologia alemão (BfG) informou na quinta-feira que o nível da água do Reno deve continuar caindo pelo menos até o início da próxima semana. E a companha de logística fluvial Contargo anunciou que irá suspender na próxima semana a maioria de suas operações nos Alto e Médio Reno.

"Nossas barcaças não terão condições de navegar sem riscos, e por motivo de segurança precisaremos interromper a maioria de nossa navegação no Alto e Médio Reno", afirmou a empresa em um comunicado.

O Reno é utilizado por diversas indústrias alemãs para o transporte de carga, especialmente para matérias-primas como petróleo, produtos químicos básicos, coque e carvão, cuja demanda aumentou para termelétricas recém-reativadas diante da crise de energia do gás russo.

Navio de carga no Reno
Rio Reno é uma artéria logística na AlemanhaFoto: Roberto Pfeil/dpa/picture alliance

Os ministérios do Transporte e da Economia da Alemanha estão tentando desviar as cargas fluviais para as ferrovias, que no entanto já estão sobrecarregadas. O governo considera intervir para priorizar o transporte de bens essenciais.

O gargalo também pode afetar o escoamento da próxima safra na Alemanha. A associação do agronegócio Raiffeisen afirmou que silos de armazenamento no sul do país já estão cheios, e que os grãos não estão sendo transportados dali em quantidade suficiente. Para substituir uma barcaça com grãos, são necessários até 40 caminhões. E o setor de transporte rodoviário tem escassez de motoristas.

Um estudo da consultoria britânica Capital Economics divulgado na quinta-feira estimou que o baixo nível da água aumenta a chance de recessão na Alemanha e tem potencial de reduzir em 0,2 ponto percentual o PIB do terceiro e do quarto trimestres do país.

O rio Danúbio também enfrenta baixos níveis de água, e o rio Tille secou completamente no sudoeste da França, na altura da vila de Lux, deixando milhares de peixes mortos. O rio Po, o mais longo da Itália, que fornece irrigação a cerca de um terço da produção agrícola do país, também sofre com a pior seca do norte italiano em 70 anos.

Risco para colheitas

O presidente da Associação Alemã de Agricultores, Joachim Rukwied, advertiu na sexta-feira que, se a seca continuar, as colheitas deste ano podem ser severamente afetadas.

Rukwied afirmou que "se não chover bastante e logo, tememos que os rendimentos da colheita possam ser reduzidos em até 30% ou 40%". Ele disse que a colheita de grãos estava de acordo com o planejado, mas as de batatas e beterrabas estavam em risco. Ele acrescentou que os agricultores já enfrentam outros problemas como alta do preço dos fertilizantes, da energia e de rações, em parte devido à guerra na Ucrânia.

Além disso, Rukwied apontou que a seca pode afetar também os estoques de pastagem para alimentar o gado no inverno, já que os campos estão em sua maioria secos no momento.

Plantação com girassóis secos
Na Andaluzia, na Espanha, os efeitos da seca também aparecem nas plantações de girassolFoto: Aventurier Patrick/ABACA/picture alliance

Na Espanha, a seca também tem afetado as plantações. Algumas fazendas de abacateiros estão removendo parte das árvores para que possa sobrar mais água para as demais. Milhões de oliveiras e girassóis estão secando na região de Andaluzia, enquanto laranjeiras e limoeiros enfrentam o mesmo em Valência.

Incêndios florestais

O Serviço de Monitoramento Atmosférico Copernicus, da União Europeia, informou nesta sexta-feira que 2022 bateu o recorde de incêndios florestais no sudoeste da Europa, com diversos casos em Portugal, Espanha e França.

Na França, um grande incêndio nos departamentos de Gironde e Landes queimou pelo menos 74 km² de floresta desde terça-feira. Cerca de 1.100 bombeiros franceses foram mobilizados para combater as chamas. Eles tiveram o apoio de mais 360 bombeiros de outros países, como Alemanha, Polônia e Romênia, enquanto Grécia e Itália enviaram aeronaves capazes de atuar contra incêndios. Dez mil pessoas tiveram que ser realocadas por segurança.

Bombeiro combate chamas em floresta
Incêndio no sudoeste da França queimou pelo menos 74 km² de floresta nesta semanaFoto: SDIS 33/AP/dpa/picture alliance

Na noite de quinta para sexta-feira, o incêndio parecia ter parado de crescer, mas os bombeiros seguem em alerta pois a baixa umidade e a alta temperatura podem facilitar que as chamas se espalham. Nesta sexta-feira, a França teve temperaturas máximas projetadas de 38 a 41 graus.

A França registrou nos últimos três meses seu maior nível de emissão de gás carbônico a partir de incêndios florestais desde o início dos registros, em 2003. O mesmo ocorreu na Espanha em julho.

Outros problemas

A seca na Inglaterra levou à proibição do uso de mangueiras para regar jardins, lavar veículos, encher piscinas ou limpar casas, válida em diversas partes do país, e o Rio Tâmisa enfrenta também níveis muito baixos de água

O serviço meteorológico nacional do Reino Unido declarou no mês de julho como o mais seco da Inglaterra desde 1935, com uma precipitação média de 23,1 milímetros, e algumas regiões experimentaram seu mês de julho mais seco desde o início dos registros.

No rio Weser, no noroeste da Alemanha, os passeios turísticos de barco foram cancelados devido ao baixo nível da água, e no lago Constance, na fronteira com a Suíça e a Áustria, barcos de passeio também estão ancorados devido ao baixo nível da água, que não se via desde 2003.

A França também foi forçada a adotar medidas para reduzir o consumo de água, que afetaram inclusive a geração de energia nuclear. Diversas usinas nucleares na França dependem da água de rios para o resfriamento de reatores, e algumas tiveram que interromper o funcionamento por esse motivo, levando o país a ter que importar eletricidade de seus vizinhos.

bl (DW, ots)