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Reino Unido segue mergulhado em incerteza econômica

Michael Martin | Alexandre Schossler
31 de janeiro de 2020

Após três anos e meio de negociações, britânicos finalmente deixam a União Europeia. Mas posições iniciais antagônicas nos debates para futuro acordo de comércio indicam que período de incertezas ainda está longe do fim.

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Duas pessoas andam sob um guarda-chuva com a bandeira britânica, próximo à Ponte de Londres
Incertezas pairam sobre a economia britânica no início da fase pós-BrexitFoto: picture-alliance/NurPhoto/B. Zawrzel

O Reino Unido deixará a União Europeia (UE) na noite (meia-noite em Bruxelas, 23h em Londres) desta sexta-feira (31/01), depois de quase 50 anos de afiliação e três anos e meio de negociações e incertezas políticas e econômicas. É verdade que o país não estará mais representado nas instituições europeias, mas, à parte disso, num primeiro momento quase tudo fica igual.

"Ninguém vai perceber alguma diferença", afirma o professor de economia e políticas públicas Jonathan Portes, do Kings College de Londres, já que o dia 1º de fevereiro marca o início de um período de transição que vai durar até o fim do ano, no qual o Reino Unido continuará seguindo as regras da UE e contribuindo com os cofres de Bruxelas.

Assim, o país também permanece no mercado comum europeu e na união aduaneira, e os direitos de viagem e de trabalho e as questões de previdência social continuam iguais. Os negócios também seguem como antes.

A economia britânica, porém, já foi duramente afetada desde que a população decidiu deixar a UE, no referendo realizado em junho de 2016. Estimativas publicadas no início de janeiro pela agência Bloomberg Economics mostram que o país ficou 130 bilhões de libras mais pobre. Esse valor deverá chegar a 200 bilhões de libras até o fim do ano.

Nesta quinta-feira, o Bank of England (banco central britânico) revisou para baixo suas projeções de crescimento. Em 2020, é esperada uma expansão de apenas 0,8%, e não mais de 1,2%, como em novembro passado. Já em 2021, o crescimento deverá ser de 1,4% e não mais de 1,7%.

As incertezas causadas pelo Brexit levaram empresas a adiarem investimentos no Reino Unido, a queda da libra elevou a inflação, o que por sua vez reduziu o consumo interno, e o mercado de ações teve um desempenho pior do que o dos EUA ou da China.

Alguns empresários esperam ser beneficiados por um forte aumento nos investimentos públicos, mas muitos economistas acreditam que o impulso pós-Brexit terá vida curta.

Neste sábado começa o período de transição de 11 meses, no qual a União Europeia e o Reino Unido poderão definir em mais detalhes sua futura relação comercial. Londres já afirmou que busca um acordo de livre-comércio nos modelos do existente entre a UE e o Canadá. Bruxelas argumenta que, em tão pouco tempo, apenas um acordo básico será possível.

As negociações de fato só começam em março, e diplomatas europeus afirmam que o período de transição terá necessariamente que ser ampliado, pois negociações do gênero costumam durar anos e não meses. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, rejeita com veemência estender as negociações para depois de 2020.

"Pelo aspecto político, a pressão do tempo é secundária", afirma Portes. "A questão que realmente importa é: há mesmo espaço para um acordo?" Por um lado, a UE insiste em regras iguais em concorrência e subsídios, enquanto o Reino Unido insiste que não quer se alinhar às regras da União Europeia. "Mesmo se o tempo fosse infinito, se os dois lados mantiverem suas atuais posições, a escolha será entre ter um acordo muito limitado ou não ter nenhum."

Assim, muitos analistas já falam que um novo cenário de saída abrupta, sem acordo, poderá existir no fim de 2020, e a relação comercial entre o Reino Unido e a União Europeia passará a ser pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). "Isso aumentaria os custos e reduziria o volume de comércio entre a UE e o Reino Unido", alerta o economista Alexander Sandkamp, do instituto econômico alemão IfW.

Uma das prioridades nas negociações deste ano é o reconhecimento, por Bruxelas, de que as regulações britânicas dos serviços financeiros são equivalentes às regras existentes na União Europeia. Essa equivalência é fundamental para que a City of London, o segundo maior centro financeiro do mundo, mantenha acesso ao enorme mercado financeiro da UE.

O grupo lobista TheCityUK, que representa a indústria e o setor financeiro britânicos, argumenta que o processo de equivalência da UE é muito difuso e político. Um dos diretores do grupo, Gary Campkin, declarou à DW que os negociadores britânicos tentarão impor equivalências baseadas no resultado, ou seja, "mesmo que as regras sejam diferentes, se o resultado final for o mesmo, isso significa que você alcançou o que queria."

Vários bancos internacionais sediados em Londres deslocaram algumas de suas operações para Frankfurt, Paris, Luxemburgo e Dublin para assegurar o direito de continuar operando na União Europeia. Temores de que centenas de postos de trabalho seriam deslocados de Londres para outros lugares não se concretizaram, mas a consultoria Ernst & Young calcula que 7 mil empregos deixaram o Reino Unido.

"A grande debandada que alguns previram não ocorreu", diz Campkin. "Isso porque o ecossistema de serviços profissionais relacionados ao mercado financeiro que existe em Londres, e que forma a base do centro financeiro internacional, não é algo que as pessoas desejem levar para outro lugar e também não é fácil de ser replicado em outro lugar."

A economia britânica é fortemente dependente dos serviços financeiros, que respondem por 11% do Produto Interno Bruto (PIB), são o setor que mais paga impostos e também responsáveis pelo serviço mais exportado pelo país. O setor financeiro é claramente o calcanhar de Aquiles do Reino Unido nas negociações com a UE, e Bruxelas pode condicionar o acesso ao mercado financeiro da UE a contrapartidas, como o direito de pesca nas águas britânicas.

Pescadores franceses já pressionam o governo em Paris para que possam continuar pescando em águas britânicas. Essa é uma das exigências que podem complicar as negociações para um acordo comercial entre Londres e Bruxelas. Nas palavras do ministro francês da Agricultura, Didier Guillaume, à agência de notícias Reuters, será "muito grave" se os barcos franceses forem banidos das águas britânicas. "Poderá haver represálias", ameaçou.

"A questão é: os reguladores da UE vão pressionar um pouco mais?", indaga Portes. "Bruxelas pode insistir que os bancos apresentem mais evidências de que deslocaram suas operações para dentro da jurisdição europeia, ou pode simplesmente decidir que Londres mantenha seu atual papel financeiro, mas fora da UE."

Ao mesmo tempo em que estiver negociando com a UE, o Reino Unido poderá negociar com outros parceiros comerciais. A prioridade absoluta será um acordo comercial com os Estados Unidos. "É possível que um acordo seja alcançado rapidamente, pois o presidente Donald Trump não teria nenhum problema em fechar um acordo comercial em meio a sua campanha pela reeleição", comenta Sandkamp.

Mas a maioria dos analistas concorda que é necessário mais pragmatismo e menos populismo, caso os negociadores britânicos pretendam alcançar acordos significativos tanto com Bruxelas como com Washington em tão pouco tempo.

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