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Estátua coberta em Londres
Estátuas de escravagistas estão indo abaixo em todo o Reino Unido Foto: Reuters/J. Sibley
História

Reino Unido encara sua história da escravidão

Jo Bryan Harper ca
17 de junho de 2020

Economia britânica lucrou muito com o tráfico de escravos, mas esse capítulo foi esquecido nos currículos escolares do país, dizem historiadores. Protestos impulsionam acerto de contas com passado colonial.

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Com estátuas indo abaixo ou ameaçando ser derrubadas em todo o Reino Unido, após os protestos iniciados pelo movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) nos EUA, aumentou o interesse sobre a história do comércio de escravos e seus impactos. O Reino Unido, que participou ativamente no tráfico negreiro nos séculos 17 e 18, tem um papel fundamental nesse que é um dos mais profundos erros históricos.

De acordo com o historiador David Richardson, navios britânicos levaram ao menos 3,4 milhões de africanos capturados para as Américas dos cerca de 12 milhões de africanos escravizados transportados por comerciantes europeus.

"A revolução industrial e a contribuição da escravidão para a economia britânica estiveram profundamente entrelaçadas, dificultando a identificação exata do impacto de longo prazo do comércio de escravos", afirmou à DW o historiador Richard Toye, coautor do livro a ser lançado em breve The Churchill Myths (Os mitos de Churchill, em tradução livre).

Nesse "comércio triangular", navios partiam do Reino Unido carregados de mercadorias, que eram trocadas nas costas da África Ocidental por escravos capturados por governantes locais. Após cruzar o Atlântico, esses africanos escravizados eram obrigados a trabalhar em plantações. Nas Américas, os navios eram então carregados com produtos do trabalho escravo – culturas de exportação e mercadorias como açúcar e rum – para serem vendidas no Reino Unido.

As plantações de açúcar foram fundamentais para criar as colônias mais rentáveis do Reino Unido. Até o final do século 18, Bristol, Glasgow e Liverpool se tornaram os principais portos de movimentação de cargas trazidas dos territórios coloniais.

"A economia escravocrata britânica era imensa e extremamente complexa. Embora não seja possível fornecer uma cifra exata de quanto dinheiro britânico esteve vinculado aos lucros da escravidão, é claro que a economia se beneficiou enormemente da exploração do trabalho escravo africano no Caribe", disse à DW Ryan Hanley, historiador da Universidade de Exeter.

O comércio de escravos também foi peça-chave no desenvolvimento de uma economia mais ampla. "As barras de cobre que alguns comerciantes britânicos trocavam por africanos escravizados, por exemplo, eram produzidas no sul de Gales, assim como as roupas de lã baratas usadas como uniformes para os escravizados nas Índias Ocidentais", exemplificou Hanley.

"Obviamente, a escravidão e o colonialismo estiveram intimamente ligados ao desenvolvimento de grande parte da infraestrutura financeira que permitiu ao Reino Unido emergir como a potência econômica e imperial global do século 19", acrescentou o historiador.

O comércio deu um grande estímulo ao setor de seguros. A necessidade de grandes quantidades de crédito para os comerciantes de escravos também foi significativa no estabelecimento de vários dos maiores bancos do país. O Lloyd's de Londres, o Barclay's e o Banco da Inglaterra têm relação com a consolidação ou expansão da escravidão praticada pelos britânicos, observou Hanley.

Edward Colston, cuja estátua foi derrubada em Bristol, deixou uma grande contribuição para a Sociedade dos Mercadores Empreendedores, uma organização que foi fundamental para o desenvolvimento da empresa ferroviária Great Western Railway durante o período vitoriano. "De fato, grande parte do financiamento das ferrovias, símbolo amado do progresso industrial vitoriano, tem sido associado aos pagamentos de indenização concedidos a proprietários de escravos", disse Hanley.

Alguns historiadores, no entanto, questionam quanto do comércio de escravos permeou a economia cotidiana do Reino Unido. "Geralmente, as pessoas se alimentavam, se vestiam e se abrigavam sem usar nenhum produto fabricado pelo trabalho escravo", apontou David Eltis, historiador da Universidade Emory, que administra o site slavevoyages.org – um memorial digital sobre esse capítulo histórico com vasta documentação da época. "Açúcar, café e rum englobam uma parcela trivial das dietas britânicas".

O historiador vê com ceticismo os vínculos com a industrialização e observa que os maiores comerciantes de escravos e o maior império de escravos das Américas foi composto por portugueses e brasileiros. "O Reino Unido se industrializou, Portugal não, pelo menos até muito mais tarde. Como a escravidão e o comércio de escravos tiveram algo a ver com o desenvolvimento do Ocidente? Alemanha, Itália e outros países não tinham vínculos com a África e as Américas, e mesmo assim conseguiram se desenvolver", pontuou Eltis.

Abolição e indenização

Somente com a Lei de Abolição da Escravidão de 1833, a instituição foi finalmente abolida no Império Britânico. Os proprietários de escravos nas Índias Ocidentais Britânicas receberam uma indenização de 20 milhões de libras, quantia estimada atualmente em cerca de 20 bilhões de libras (132 bilhões de reais).

Na época, isso representava aproximadamente 40% do orçamento público do país. Esse foi o maior pagamento patrocinado pelo Estado na história britânica antes da crise bancária de 2008. Entre os indenizados, de acordo com pesquisadores da Universidade College London (UCL), estiveram ancestrais do ex-primeiro-ministro David Cameron e a Igreja da Inglaterra.

"Após a abolição, um grande erro foi cometido quando se decidiu compensar os ex-proprietários de escravos em vez daqueles que haviam sido escravizados", destacou Toye.

Para Catherine Hall, chefe de um projeto de pesquisa sobre escravidão na Universidade de Londres, a escravidão foi esquecida na história britânica convencional. "O que tem sido lembrado é a abolição, e não o tráfico de escravos, e um número extraordinário de pessoas não sabem sobre o passado colonial do Reino Unido em relação à escravidão", disse num programa de rádio da emissora BBC.

Opinião semelhante tem o historiador David Olusoga. Segundo ele, por décadas, o sistema educacional do país, rejeitou "apelos e pedidos" feitos por duas gerações de negros britânicos para que a história dos negros se tornasse uma parte essencial do currículo nacional. "Como resultado, isso se tornou um ponto cego nacional, uma lacuna em nosso conhecimento coletivo que afeta a todos nós ‒ pretos e brancos", escreveu no jornal The Guardian.

Hanley disse que, atualmente, o Reino Unido está fazendo um acerto de contas com seu passado colonial e os efeitos desta história no presente. "Para muitas pessoas, esse processo será doloroso. Contar a verdade histórica geralmente o é", acrescentou. 

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