Rede ferroviária holandesa vai indenizar vítimas do Holocausto | Notícias internacionais e análises | DW | 26.06.2019
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Europa

Rede ferroviária holandesa vai indenizar vítimas do Holocausto

Milhares de judeus foram deportados para campos de concentração nazistas em trens da empresa NS, que lucrou com o transporte. Sete décadas depois, companhia classifica período de "página negra" de sua história. 

Holocaust-Wiedergutmachungen der Niederlande (picture-alliance/AP Photo/P. Dejong)

Cerimônia em memória das vítimas do Holocausto que foram deportadas para o campo de Westerbork, na Holanda

A companhia ferroviária da Holanda anunciou nesta quarta-feira (26/06) que vai destinar dezenas de milhões de euros para indenizar vítimas do Holocausto.

Pela proposta, os sobreviventes do Holocausto receberão 15 mil euros. A companhia estima que serão contemplados nessa categoria cerca de 500 judeus e ciganos que foram transportados para os campos de extermínio nazistas, mas sobreviveram.

Parentes e viúvos dos que morreram podem esperar receber entre 5 mil e 7,5 mil euros, segundo a empresa Nederlandse Spoorwegen (NS), que estima ainda que entre 5 mil e 6 mil se qualificam para uma indenização individual.

 A empresa também afirmou que "vai reservar várias dezenas de milhões de euros" para essas indenizações nos próximos anos.

A NS já havia anunciado em novembro de 2018 que compensaria os parentes de deportados e estabeleceria uma comissão para determinar os valores.

A empresa, que qualifica esse período de sua história de "página negra", pediu desculpas oficialmente em 2005 por seus atos cometidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Um ex-prefeito de Amsterdã, Job Cohen, supervisionou um comitê criado em janeiro para descobrir como organizar os pagamentos. Ele disse que foi uma tarefa muito difícil: "Uma quantia de dinheiro para compensar o sofrimento não pode ser declarada", disse ele.

Estima-se que 100 mil judeus holandeses – ou 70% do número total de judeus que viviam na Holanda antes da Segunda Guerra Mundial – tenham sido deportados nos trens da companhia para Westerbork, no norte do país. De lá, os nazistas transferiram as vítimas para campos no leste da Europa.

Uma das vítimas notórias que passaram por essa rota foi a adolescente Anne Frank, que acabaria por morrer no campo de concentração de Bergen-Belsen. Apenas 5 mil judeus holandeses deportados sobreviveram.

Com as indenizações, a NS segue um exemplo similar da companha ferroviária da França, a SNCF, que realizou pagamentos semelhantes em 2014 para vítimas do Holocausto.

Já a companhia ferroviária nacional da Alemanha, a Deutsche Bahn (DB), admitiu em 2008 o papel central que a sua antecessora, a Reichsbahn, desempenhou durante a Segunda Guerra Mundial e que seus trilhos eram parte integrante do plano de extermínio nazista. "Sem a Reichsbahn, o assassinato industrial de milhões de pessoas não teria sido possível", disse a historiadora Susanne Kill na época.

Uma exposição itinerante "Trem da Memória" foi organizada em 2008, detalhando a forma como adultos e crianças tiveram que pagar suas passagens para os campos de extermínio, o que rendeu à companhia ferroviária o equivalente a 445 milhões de euros em valores atualizados.

A DB tem resistido a ações individuais e coletivas que buscaram compensação ao longo dos anos. Em 2012, a empresa chegou a contratar um escritório de advocacia e uma agência de relações públicas de Nova York para monitorar as iniciativas legislativas dos Estados Unidos que poderiam servir como base para ações judiciais.

O presidente da holandesa NS, Roger van Boxtel, discutiu os planos de sua companhia com o holandês Salo Muller, de 83 anos, cujos pais foram deportados em trens da companhia para Westerbork e mais tarde assassinados em Auschwitz.

As autoridades da companhia holandesa nunca fizeram tentativas de bloquear o transporte. Além disso, receberam 2,5 milhões de florins holandeses pelas viagens.

De acordo com o jornal holandês Algemeen Dagblad (AD), o grupo Central de Consulta Judaica (CJO) elogiou a iniciativa da NS como uma "confissão de culpa, e isso é bom". Mas a CJO também pediu um gesto da NS para as 100 mil pessoas que não sobreviveram.

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