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Presidentes Volodimir Zelenski e Donald Trump
Breve encontro entre Zelenski e Trump em setembro, na Assembleia Geral da ONU, pode ter sido o últimoFoto: picture-alliance/AP Images/E. Vucci

Processo contra Trump deixa Ucrânia em posição difícil

Roman Goncharenko
21 de novembro de 2019

Em meio a inquérito nos EUA, presidente Zelenski se vê num dilema: se confirmar pressão de Washington, perde a boa vontade de Trump. Se desmentir, arrisca fechar a porta para uma futura Casa Branca sob Joe Biden.

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Volodimir Zelenski queria alcançar fama internacional. Seu sonho se tornou realidade – mas não da forma que ele imaginava. Como ator, ele sonhava ser célebre no mundo inteiro, disse numa entrevista, no início de outubro. Mas "isso, eu não queria", comentou o presidente da Ucrânia sobre seu papel como figura-chave nos pré-inquéritos para um possível processo de impeachment contra seu homólogo americano, Donald Trump.

Meio ano após ser eleito, o bem-sucedido humorista de TV, de 41 anos, e com ele, toda a Ucrânia, está na mira da política dos Estados Unidos e da mídia, e a tendência é crescente. O detonador foi o relatório anônimo de um whistleblower dos meios de segurança americanos sobre um telefonema entre Trump e Zelenski, em 25 de julho.

Os democratas do Congresso dos EUA acusam seu presidente de abuso do cargo, por ter sugerido investigações contra o ex-vice-presidente Joe Biden, possível adversário de Trump nas eleições de 2020. Antes do telefonema, o presidente sustara centenas de milhões de dólares destinados à ajuda militar para a Ucrânia. Trump e Zelenski negam ter havido pressão de Washington sobre Kiev.

Caso se inicie o processo de impeachment, políticos ucranianos também deverão ser convidados a depor em Washington. Nunca, na história recente, a antiga república soviética recebeu tanta atenção, nem mesmo durante a anexação da Crimeia, em 2014. Mas, se na época o país tinha que se esforçar, por todo o mundo, para obter atenção, desta vez é o contrário.

Zelenski praticamente não se pronuncia em público sobre os desdobramentos na capital americana. A Ucrânia está "cansada" da celeuma em torno da controversa participação do filho de Biden na empresa privada de gás Burisma, declarou o presidente nesta terça-feira (19/11) à emissora americana de TV CNN: o país já tem "suficientes problemas próprios".

Segundo o colunista da DW em Kiev Serhiy Rudenko, Zelenski se encontra num dilema. "Se ele admitir que houve pressão de Washington, perde a boa vontade do atual presidente dos EUA. Se desmentir, arrisca assim fechar a porta para a futura Casa Branca, caso Joe Biden assuma."

Volodymyr Yermolenko, da organização midiática Internews Ukraine, vê a situação de forma semelhante: "Creio que a estratégia de Kiev consiste em evitar tomar partido", comentou à DW. A Ucrânia não pode se permitir perder o apoio americano, pois assim ficaria, de fato, sozinha diante da Rússia.

No entanto, Kiev não permaneceu inteiramente neutro, e anunciou que o caso Burisma voltou a ser examinado pela Procuradoria-Geral do país. Também a suposta ingerência ucraniana no pleito presidencial americano de 2016 poderá ser investigada, declarou Zelenski, frisando que Washington não apresentou quaisquer provas de tal interferência.

Presidentes Volodimir Zelenski e Donald Trump
Breve encontro entre Zelenski e Trump em setembro, na Assembleia Geral da ONU, pode ter sido o últimoFoto: picture-alliance/AP Images/E. Vucci

Ucrânia "tóxica"

Os efeitos negativos do escândalo já se fazem sentir na própria Ucrânia. "O pior que pode nos acontecer é nos transformarmos na bola desse jogo", observou o ministro ucraniano do Exterior, Vadym Prystaiko, numa entrevista à emissora BBC, em meados de novembro. Contudo, isso "já é um fato, infelizmente", e Kiev tenta escapar desse papel.

Washington já liberou a verba para ajuda militar que havia sido bloqueada e continuará apoiando Kiev, declarou o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo. Mas as relações diplomáticas estão abaladas. Há meses, ambos os países não mantêm diplomatas regulares em suas capitais. Após a renúncia do encarregado especial dos EUA para a Ucrânia, Kurt Volker, no contexto do escândalo, continua desocupado esse posto de extrema importância para Kiev.

"Após os acontecimentos dos últimos meses, os diplomatas ucranianos se tornaram tóxicos para Washington", explica o ucraniano Kostyantyn Yelisieiev, diplomata e ex-vice-chefe da Casa Civil sob o antecessor de Zelenski, Petro Poroshenko.

Outros observadores de Kiev vão ainda mais longe em sua análise, afirmando que, do ponto de vista dos EUA, todo o país é agora "tóxico". "A Ucrânia, em geral, e todos os programas de assistência são meticulosamente examinados", escreve em seu blog Alyona Hetmanchuk, diretora do think tank New Europe Center, sediado em Kiev.

Diante desse quadro, é improvável que os EUA participem de negociações com a Rússia para resolver a questão do leste da Ucrânia, como pretende Zelenski. Igualmente questionável é se o presidente aceitará o convite de Trump para uma visita oficial a Washington, em meio às ameaças de um processo de impeachment.

Também é difícil imaginar que Trump viaje para Kiev. Se assim for, até segunda ordem, o breve encontro entre os dois líderes em setembro, à margem da Assembleia Geral da ONU, terá também sido o último.

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