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Por que a guerra na Ucrânia pode ser benéfica para o Brasil

Alexander Busch
Alexander Busch
6 de abril de 2022

País é um dos poucos que se beneficiará com mudanças geopolíticas resultantes da invasão russa. Produtos de exportação e economia fechada são o diferencial brasileiro. Quão bom é isso para a população é outra questão.

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Plantação de soja
Preços das commodities produzidas no Brasil vem aumentando desde o início deste anoFoto: Weimer Carvalho/dpa/picture alliance

Ao observar os desenvolvimentos econômicos após a invasão russa na Ucrânia, surpreendentemente se constata que poucos países se beneficiaram tanto das mudanças ocorridas desde então nos fluxos comerciais quanto o Brasil – e essa tendência deve se manter.

Isso pode ser percebido na valorização surpreendente do real: o dólar caiu 20% em relação à moeda brasileira desde a virada do ano. O real também ganhou paralelamente com o crescente risco de uma guerra na Europa. O mesmo se aplica a Bovespa, cujo índice subiu 17% desde o início de 2022.

Há diversos motivos para esse desenvolvimento inesperado:

A indústria da exportação brasileira se beneficia com o aumento dos preços das matérias-primas e energia: os principais produtos agrícolas brasileiros ou derivados – soja, milho, carne, mas também suco de laranja, por exemplo – , que já estavam num patamar alto, se valorizaram ainda mais desde o início do ano. O mesmo ocorreu com o minério de ferro e quase todos os minérios e metais que o Brasil também exporta. Além disso, o Brasil é em grande parte autarca na sua produção de petróleo.

Embora os preços de energia e alimentos também estejam aumentando no Brasil. Com a falta de fertilizantes no mercado mundial, o nível do preço dos produtos agrícolas aumentará em mundo todo e também no Brasil.

O abastecimento, porém, não está ameaçado, como no caso de uma interrupção no fornecimento de gás russo para a indústria europeia, e principalmente alemã. Também não é esperada uma escassez de alimentos, como possivelmente em breve ocorrerá em países do Oriente Médio que dependem dos grãos importados da Rússia e Ucrânia. Com o aumento da taxa de juros, o Banco Central brasileiro também reagiu mais rápido à pressão inflacionária do Banco Central Europeu ou o Fed, nos Estados Unidos.

O Brasil também se beneficia com administradores de fundos que estão mudando seus investimentos. Eles estão tirando seu capital de empresas, setores e regiões que foram afetadas negativamente pela guerra ou em cumprimento das sanções aplicadas pelo Ocidente contra corporações russas. As entradas de capital no Brasil cresceram em ritmo recorde nos três primeiros meses.

As consequências negativas da guerra serão sentidas em menor grau no Brasil. O Brasil é uma das economias mais fechadas do mundo. O consumo local é decisivo para o crescimento econômico, e não o comércio exterior. Além disso, na última década, o Brasil se desacoplou cada vez mais das cadeias de valor internacionais.

Antes da guerra na Ucrânia, a pandemia já havia fortalecido o isolamento brasileiro na economia mundial. Para o cientista político Oliver Stuenkel, da FGV em São Paulo, isso leva o Brasil a "lidar melhor com o choque de desglobalização atualmente em curso". Ao contrário da Alemanha que, como campeã mundial da exportação, depende extremamente de uma economia global em bom funcionamento.

O peso geopolítico e importância do Brasil em um mundo cada vez mais polarizado pode ainda aumentar: cada uma das potências – Estados Unidos, China, Rússia e União Europeia – vão tentar conquistar o Brasil como parceiro. Na história de sua política externa, o Brasil geralmente foi hábil em utilizar as diferentes ofertas para parceira em seu interesse, sem se vincular muito a uma das potências ou entrar em conflito com alguma delas. O desastre diplomático do governo de Jair Bolsonaro é uma exceção.

A questão é, porém, se esse crescente afastamento do mundo é bom para os brasileiros. Um isolamento – econômico, técnico, científico, assim como cultural e intelectual – deve, na verdade, ser muito mais prejudicial ao Brasil.

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Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.