Polônia critica evento sobre Holocausto em Israel | Notícias internacionais e análises | DW | 09.01.2020
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Mundo

Polônia critica evento sobre Holocausto em Israel

Presidente polonês rejeita ida a Jerusalém por não poder discursar em festa de 75 anos de libertação de Auschwitz. Anúncio ocorre em meio a tensão com Putin, que culpou Varsóvia pelo início na Segunda Guerra Mundial.

Presidente polonês, Andrzej Duda, discursando

Presidente polonês, Andrzej Duda: "Impossibilidade de falar numa ocasião como essa contraria os interesses da Polônia"

O presidente da Polônia, Andrzej Duda, rejeitou na terça-feira (07/01) o convite para participar de um evento em Israel sobre o aniversário de 75 anos da libertação do campo de concentração em Auschwitz, após saber que não poderá falar na cerimônia em diversos chefes de Estado discursarão.

"Não me parece correto que os presidentes de Rússia, Alemanha e França ou os líderes do Reino Unido e dos Estados Unidos possam falar numa ocasião como a cerimônia em memória das vítimas do Holocausto, e o presidente polonês, não", lamentou Duda, em discurso televisionado.

"A impossibilidade de falar numa ocasião como essa contraria os interesses da Polônia", acrescentou, lembrando que, dos 6 milhões de vítimas judaicas do Holocausto, 3 milhões eram polonesas. Ele justificou sua queixa afirmando ser "representante do país com o maior número de cidadãos assassinados em Auschwitz", e que quer falar "sobre a verdade".

A cerimônia ocorrerá em 23 de janeiro no Yad Vashem, memorial do Holocausto de Jerusalém. No dia 27 – data da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho – a Polônia organizará um evento comemorativo no antigo campo, localizado na cidade de Oswiecim. A solenidade deverá contar com a participação de delegações de todo o mundo. O presidente russo, entretanto, não foi convidado.

A recusa de Duda em participar da cerimônia em Jerusalém ocorre dias depois de Putin sugerir que a Polônia mantinha uma aliança com a Alemanha de Hitler antes do início da Segunda Guerra Mundial. "Há palavras que são completamente contrárias à verdade histórica e escondem apenas uma tentativa de nos prejudicar como país e falsificar os eventos que ocorreram na Segunda Guerra Mundial", disse Duda em resposta às alegações de Putin.

No fim de dezembro, Vladimir Putin relativizou o tratado de não agressão soviético-alemão, chamado Pacto Molotov–Ribbentrop, em que Alemanha nazista e a União Soviética dividiram a Polônia e outros países entre si. Putin afirmou que a Polônia foi corresponsável pela guerra, que sua liderança política era antissemita, que Jozef Lipski, embaixador polonês na Alemanha entre 1933 e 1939, era simpatizante do regime nazista, e insultou-o de "porco antissemita". Segundo Varsóvia, as acusações são uma "distorção da verdade histórica" e uma tentativa de "humilhar o povo polonês".

Tela de TV mostra Vladimir Putin

Em dezembro, Putin acusou a Polônia de aliança com Hitler e de ser responsável pelo início da Segunda Guerra

Em entrevista à DW, o historiador britânico Roger Moorhouse criticou a Rússia por tentar glorificar sua história. "Todo país tem uma visão seletiva de sua história, mas esta é uma tentativa de falsificá-la ativamente", sentenciou. Há alguns meses, a revista liberal polonesa Kultura Lliberalna afirmou que a Polônia e Israel basicamente têm ideias semelhantes sobre política histórica. "Ambos os países estão competindo entre si para tornar seus sofrimentos únicos."

Em março de 2018, a chamada "Lei do Holocausto" entrou em vigor na Polônia, estipulando penas de até três anos de prisão para aqueles que afirmarem que a Polônia foi corresponsável pelos crimes cometidos pelos alemães durante o regime nazista.

A lei causou indignação em Israel. No 73º aniversário da libertação de Auschwitz, a embaixadora de Israel na Polônia disse que a lei tornava impossível se dizer a verdade sobre o Holocausto. Ela referia-se, assim, a algo que muitos não querem ouvir: que também na Polônia houve casos de colaboração com os nazistas, e que alguns deles estão documentados, como o da cidade polonesa de Jedwabne, onde ocorreu um massacre de judeus em julho de 1941.

Mesmo assim, os nomes poloneses são os mais numerosos entre os "justos entre os povos" que constam do memorial israelense Yad Vashem. Poucos povos ajudaram tanto os judeus durante a Segunda Guerra Mundial quanto os poloneses, mesmo sob a ameaça de pagar com a própria morte e a de toda sua família.

Por fim, a "Lei do Holocausto" foi atenuada, mas o tema antissemitismo não foi esquecido. Em 2019, o ministro do Exterior de Israel, Israel Katz, irritou a muitos com a frase: "Os poloneses mamam o antissemitismo com o leite materno." O Ministério do Exterior de Israel é coorganizador do evento de 23 de janeiro em Yad Vashem. Alguns acreditam que esse detalhe também contribuiu para o cancelamento de Duda.

Segundo o ministro do Exterior da Polônia, Jacek Czaputowicz, um outro representante da Polônia viajará para Jerusalém, embora o nome ainda não tenha sido divulgado. "Ele vai ouvir e talvez usar a palavra", declarou à emissora privada Polsat.

Czaputowicz também chamou a atenção para uma conexão "óbvia" entre os organizadores israelenses do evento e a Rússia: "O governo de Israel está interessado em boas relações com a Rússia". O país seria importante na Síria e, portanto, numa região vital para a segurança israelense.

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