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“Pega no laço”: violência contra mulher indígena no Brasil

18 de abril de 2026

História que costuma ser propagada principalmente nas regiões Sul e Sudeste e compartilhada por gerações nasce como forma de criar um mito da origem do povo brasileiro.

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Brasilien Brasília 2023 | III. Marsch der indigenen Frauen für ihre Rechte
Mulheres do povo indígena Kayapó realizam uma dança ritual durante a Marcha das Mulheres Indígenas, em defesa dos direitos das mulheres, dos povos indígenas e do meio ambiente, em Brasília, em 12 de setembro de 2023.Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency/IMAGO

Não é incomum ouvir brasileiros que possuem linhagem indígena compartilharem a história de que uma ancestral distante "foi pega no laço”. Esse é um mito que ilustra como mulheres indígenas foram ao longo de séculos submetidas a relacionamentos forçados geralmente com homens brancos.

“‘Minha avó foi pega no laço’ é uma resposta da história de colonização que aconteceu e ainda acontece nesse lugar chamado Brasil, que os povos indígenas chamam de Abya Yala ou Pindorama”, conta Mirna Kambeba Omágua Yetê Anaquiri, doutora em arte e cultura visual pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), pertencente ao povo Kambeba Omágua do Amazonas. 

Apesar de que a palavra "mito” acabou sendo ressignificada no imaginário popular como um sinônimo de mentira, Suelen Siqueira Julio, especialista em história do Brasil Colonial e das relações de gênero, com ênfase em história indígena, conta que o termo se refere a uma narrativa para explicar a origem de algo. 

Ela afirma que esse mito se propagou principalmente nas regiões Sul e Sudeste. "O imaginário é do gaúcho em áreas de fronteira em contato com indígenas. É aquele cara que tem um laço boleadeira que, para caçar, joga-o e laça a pata de um animal”.

No Norte e no Nordeste há outras variantes, como a de que foi pega a "dente de cachorro” ou "casco de cavalo". Todas as narrativas trazem a mesma ideia de captura brutal de mulheres indígenas.

Symbolbild Brasilien | Gaucho mit Lasso
Homem em cima de um cavalo segura m laço. A Imagem simboliza por muitas gerações a violência sofrida por mulheres indígenasFoto: alfribeiro/Depositphotos/IMAGO

Suelen problematiza, porém, a forma trivial como esse mito é muitas vezes compartilhado. "É uma história que precisa ser contada com multiplicidade, precisa ser contada com crítica. Isso não é uma história da Disney, muitas mulheres foram, sim, pegas à força.”

Por essa razão, Mirna Anaquiri afirma que se incomoda quando a abordam e contam essa história na tentativa de estabelecer alguma conexão por compartilharem a mesma ascendência. Esse tipo de relato, segundo ela, mostra como as pessoas ainda veem os povos originários. “Desejo profundamente que outras mulheres indígenas, assim como eu, sejam relacionadas com outras questões, além de um ato de extrema violência.”

As evidências no DNA brasileiro

O artigo Admixture's impact on Brazilian population evolution and health (O impacto da miscigenação na evolução e na saúde da população brasileira, em tradução livre), publicado em 2025 na revista Science, detalhou a pesquisa que realizou o sequenciamento completo e em larga escala do genoma nacional. Foram analisados 2,7 mil brasileiros de todas as regiões do Brasil.

Em termos da estrutura genética da população, os resultados evidenciaram que a linhagem paterna, expressa no cromossomo Y, presente apenas nos homens, é predominantemente (71%) europeia. Já a linhagem materna, registrada no DNA das mitocôndrias, que é transmitida apenas da mãe para os filhos, carrega 42% de ancestralidade africana e 35% indígena.

Esses dados genéticos comprovam o que já havia sido documentado historicamente, sobre como homens brancos se apoderaram de mulheres negras e indígenas.

Suelen Siqueira Julio lembra, porém, que apesar de essa realidade ter sido predominante, é um erro generalizar, como se todo início de família e toda relação entre mulheres indígenas tivessem sido de forma compulsória.

‘Brasil Colônia' na contemporaneidade

Apesar de remeter aos anos de Brasil Colônia, afirmar que hoje as mulheres indígenas estão protegidas de violência também pode ser um equívoco. Um levantamento da Gênero e Número revelou que os registros de violência contra elas aumentaram 258% entre 2014 e 2023. A média nacional é de 207% entre as brasileiras de todas as raças no mesmo período.

Os dados extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) do Ministério da Saúde mostram que os registros de violência sexual –que englobam casos de assédio, estupro, pornografia infantil e exploração sexual– subiram 297% entre as mulheres indígenas. Já entre as brasileiras em geral, o aumento chegou a 188%.

Brasilien Brasília 2025 | Marsch der indigenen Frauen auf der Esplanada dos Ministérios
Marcha das Mulheres Indígenas, realizada em defesa dos direitos das mulheres, dos povos indígenas e do meio ambiente, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em 7 de agosto de 2025.Foto: Wagner Araújo/Fotoarena/IMAGO

Anaquiri cita o caso de duas mulheres Pataxó, que moravam na Aldeia Xandó, na região de Corumbau, no extremo sul da Bahia, que foram encontradas mortas na terça-feira (14/4), em Porto Seguro, para enfatizar que a violência contra mulheres indígenas ainda persiste.

A artista afirma que a sociedade brasileira não deveria se calar diante dessa realidade vivenciada pelos povos originários e ainda sugere criar novos contos sobre mulheres indígenas. “Se muitas foram pegas no laço, a gente tem desatado esse nó. Se essa história foi silenciada, eu vou erguer minha voz e vou criar outras narrativas além dessas de violências e de desgraça.”

Suelen comenta que essa violência contra mulheres indígenas também pode ser associada à apropriação ilegal de áreas demarcadas. "Os dados são muito alarmantes e as invasões de terra permanecem. Não são casos de 1600. E essas invasões são acompanhadas de estupro”.

Além disso, a especialista conta que essas mulheres, assim como o povo indígena no geral, estão expostas à vulnerabilidade social em contextos aldeados e não aldeados. “A favela é um espaço também de pessoas indígenas que migram para cidades como o Rio de Janeiro. Elas não vão morar no Leblon, elas vão morar nas favelas e nas periferias junto com a população negra.”