Os cinco principais desafios de Boris Johnson | Notícias internacionais e análises | DW | 24.07.2019
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Reino Unido

Os cinco principais desafios de Boris Johnson

Novo premiê do Reino Unido está diante de tarefas que vão das difíceis negociações sobre o Brexit à missão de unir um país dividido. Sua maneira de lidar com crises internacionais também será observada de perto.

Boris Johnson

Boris Johnson toma posse nesta quarta-feira

O novo líder do Partido Conservador britânico, Boris Johnson, tomou posse nesta quarta-feira (24/07) como primeiro-ministro do Reino Unido, substituindo Theresa May. Conhecido como bufão da política, o novo chefe de governo está diante de grandes e difíceis tarefas:

Governabilidade

O mandato de Johnson como primeiro-ministro pode ser interrompido muito rapidamente. O Partido Trabalhista da oposição pode apresentar um voto de desconfiança no Parlamento de 650 assentos logo no seu segundo dia no cargo.

No entanto, é mais provável que o líder dos trabalhistas, Jeremy Corbyn, espere até depois do recesso de verão para fazer essa manobra. Os conservadores não têm a maioria absoluta necessária para que Johnson sobreviva a uma moção de desconfiança e dependem do apoio dos dez deputados do Partido Unionista Democrático, que até agora apoiaram o governo de Theresa May.

Mesmo que receba tal apoio, Johnson deve ficar numa difícil posição. Vários ministros conservadores advertiram o novo premiê de que renunciariam se ele seguisse sua agenda de um Brexit sem acordo, entre eles, o ministro da Economia, Philip Hammond, e o da Justiça, David Gauke.

Após a suspensão do deputado conservador que representa Dover, Charlie Elphicke, que foi acusado de assédio sexual, a maioria dos conservadores no Parlamento foi reduzida a dois. Esse número pode cair ainda mais se perderem uma eleição local em Brecon e Radnorshire, em 1º de agosto.

Brexit

Johnson quer descartar partes do acordo que May não conseguiu que fosse aprovado pelo Parlamento em três votações. O premiê quer montar um novo pacto. O primeiro problema é o tempo.

O recesso de verão e as mudanças de liderança em Londres e Bruxelas deixam não mais que algumas semanas, em setembro e outubro, para conversas formais antes do prazo de 31 de outubro para que o Reino Unido saia da União Europeia (UE).

A outra mosca na sopa é a própria União Europeia. Os demais 27 Estados-membros disseram repetidamente que não renegociarão a parte legalmente vinculativa do pacto, o chamado Acordo de Saída, que estabelece a futura relação entre o Reino Unido e a UE.

A alternativa de Johnson é persuadir o Parlamento a ratificar "as melhores partes" do acordo de May – temas como os direitos dos cidadãos da UE e extensões de vários pactos de cooperação diplomática e de segurança.

O elefante na sala é, como sempre, o chamado backstop – o mecanismo planejado para evitar uma fronteira dura entre a Irlanda, membro da UE, e a Irlanda do Norte, parte do Reino Unido, no caso de um Brexit sem acordo.

Johnson quer dispensar essa cláusula, enquanto a UE diz que ela tem que permanecer. O novo primeiro-ministro britânico também quer adotar uma política de "ambiguidade construtiva" em relação ao pagamento pelo Reino Unido de sua conta de saída da UE, estimada em 39 bilhões de libras (cerca de 180 bilhões de reais).

Johnson afirma que o Reino Unido está totalmente preparado para deixar a UE sem um acordo, apesar dos alertas de que uma separação caótica prejudicaria de forma desproporcionalmente maior a economia britânica do que a mais ampla e diversificada economia da UE. Analistas dizem que o divórcio sem acordo pode resultar numa longa recessão no Reino Unido.

Irã e China

Levando em conta o histórico de Johnson como ministro do Exterior, sua forma de abordar crises e desafios internacionais será observada de perto.

Os Estados Unidos e os países europeus estão em desacordo sobre como lidar com o programa nuclear iraniano. O Reino Unido faz parte atualmente do chamado E3, com Alemanha e França, países europeus que continuam sendo signatários do acordo que os EUA abandonaram.

Uma preocupação mais imediata é o atual impasse com o Irã sobre a apreensão de um navio-tanque de bandeira britânica no Golfo Pérsico, em retaliação à captura de um petroleiro iraniano na costa de Gibraltar.

Os aliados europeus observarão atentamente se Johnson vai procurar um maior alinhamento com os EUA, afastando-se da UE em relação à questão do Irã.

A política britânica em relação à China parece igualmente complicada. O governo chinês advertiu Londres de que a exclusão da Huawei, gigante de telecomunicações chinesa, da rede 5G do país poderia ser contraproducente em termos de futuros laços comerciais e de investimento que o Reino Unido espera estabelecer fora da UE.

Donald Trump

Dada a propensão de ambos os líderes a se precipitarem em suas reações, eles podem vir a formar uma aliança interessante. Embora a "relação especial" entre os EUA e o Reino Unido tenha perdido parte de seu brilho, Washington continua sendo o aliado militar mais próximo de Londres.

Mas talvez o mais importante a curto e médio prazo é se o Reino Unido poderá garantir um acordo de livre-comércio com os EUA para compensar a perda de seu maior parceiro comercial, a UE.

No entanto, o tom dos futuros laços transatlânticos pode ter sido definido pela discussão sobre os memorandos vazados do embaixador britânico nos EUA que supostamente descreveram Donald Trump e seu governo como ineptos.

Trump reagiu furiosamente, deixando a ex-primeira-ministra May pisando em ovos para conter a situação. Embora a subsequente renúncia do embaixador Kim Darroch possa ter diminuído as fissuras, isso também deixou um sabor amargo.

Uma visão para o Reino Unido?

Uma vez que, ou mesmo se, a poeira inicial abaixar – e ele conseguir permanecer no cargo tempo suficiente –, Johnson está diante da enorme tarefa de colocar de volta aos trilhos um país profundamente dividido e abalado, tanto internamente quanto no cenário internacional.

Muito dependerá de quão grave será o impacto econômico do Brexit, independentemente de qual permuta seja necessária. De certa forma, abordar as consequências econômicas e políticas pode ser mais fácil do que encontrar um remédio para a psique danificada do país.

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