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Um dia de vergonha para a Alemanha

Ines Pohl
Ines Pohl
5 de fevereiro de 2020

Pela primeira vez os votos da populista de direita AfD decidem a eleição de um governador alemão. Quebra de tabu mostra como fraqueja a resistência contra o avanço da ultradireita, opina a editora-chefe da DW, Ines Pohl.

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Thomas Kemmerich, governador da Turíngia
Liberal-democrático Thomas Kemmerich foi eleito governador da Turíngia graças a votos da ultradireitaFoto: Imago Images/K. Hessland

Exatamente uma semana atrás, em 29 de janeiro de 2020, o Parlamento da Alemanha recordou as vítimas do Holocausto numa cerimônia solene. A ocasião eram os 75 anos desde a libertação do campo de extermínio de Auschwitz.

Num discurso pungente em Berlim, o presidente de Israel, Reuven Rivlin, exortou os alemães a jamais esquecerem e a lutarem obstinadamente contra o antissemitismo, racismo e xenofobia. Os alemães e seus partidos, frisou, teriam um dever especial de agir com consciência histórica em relação aos valores libertários e democráticos.

"A Alemanha não pode fracassar", foram suas palavras.

E exatamente uma semana mais tarde, nesta quarta-feira (05/02), ocorre isto: com a ajuda dos votos da populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), o liberal-democrático Thomas Kemmerich é eleito governador do estado da Turíngia.

Uma eleição que abala o país, que é mais do que o atestado de que os políticos estaduais democratas-cristãos e liberais que fizeram essa escolha não compreenderam sua responsabilidade histórica. Uma eleição que coloca os partidos democráticos diante de uma prova de fogo, a qual poderá resultar até mesmo em eleições antecipadas para o Parlamento federal.

Pois na próxima semana se constatará se realmente se sustentam as palavras dos políticos de ponta alemães, de jamais formar maiorias com a AfD. Ou se no fim das contas as seduções do poder não são realmente mais fortes.

É fato que a presidente da União Democrata Cristã (CDU), Annegret Kramp-Karrenbauer, instou incisivamente a facção turíngia de seu partido a jamais fazer aliança com a AfD. Mas o que significa essa óbvia fraqueza?

O que fará a, também democrata-cristã, chanceler federal Angela Merkel, quando mandatários de seu partido procurarem se associar justamente ao líder da AfD na Turíngia, Bernd Höcke, que considera os alemães malucos por terem "plantado um monumento da vergonha" em sua capital? O que fará o parceiro da CDU na coalizão federal, o Partido Social-Democrata (SPD)?

Esse inesquecível dia deve abalar a Alemanha até o fundo da alma. E as forças democráticas têm que mostrar agora quão sólido é seu posicionamento; o que estão prontas a arriscar para impedir que este acontecimento – até agora isolado – se transforme numa nova normalidade.

Há poucos dias, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, afirmou, no memorial do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, que "o nacional-socialismo não caiu do céu".

Neste dia no início de fevereiro, na Alemanha, ficou claro que muitos alemães se esqueceram de sua história. E que as palavras de Reuven Rivlin – "A Alemanha não pode fracassar" – dizem respeito a todos nós. E que ninguém mais tem o direito de acreditar que a história jamais se repita.

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Ines Pohl
Ines Pohl Chefe da sucursal da DW em Washington.@inespohl
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