Opinião: Não é o fim da diplomacia no Afeganistão | Notícias internacionais e análises | DW | 09.09.2019
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Opinião

Opinião: Não é o fim da diplomacia no Afeganistão

Muitos afegãos são vítimas de ataques talibãs, mas bastou a morte de um soldado americano para Trump suspender diálogos com o grupo. Contudo, nem os EUA nem o Talibã estão interessados no fracasso de um acordo de paz.

Membros de delegações afegãs durante o segundo dia de negociações intra-afegãs, em Doha, em 8 de julho

Membros de delegações afegãs durante o segundo dia de negociações intra-afegãs em Doha, em 8 de julho deste ano

Se as vítimas dos ataques do Talibã na semana passada tivessem se restringido a dezenas de afegãos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria apertado pessoalmente as mãos da liderança talibã no domingo (08/09) e possivelmente assinado um acordo entre os EUA e o Talibã. Mas com a notícia de que havia um soldado americano entre os mortos, Trump cancelou a planejada reunião.

Pesar a importância das vítimas de acordo com sua nacionalidade é cínico, mas é exatamente essa a lógica que o presidente dos Estados Unidos segue em suas mensagens no Twitter. Trump sabe perfeitamente que um aperto de mão com aqueles que acabaram de matar um americano seria um veneno para sua campanha à reeleição.

Como em tantas outras ocasiões, ao cancelar a reunião com o Talibã Trump segue seu instinto visando o clima político momentâneo nos Estados Unidos. As consequências para o futuro em outras partes do mundo? Pouco importa. Mas será que a luta de quase um ano por uma perspectiva de paz no Afeganistão realmente chegou ao fim?

Dada a atual situação, a pergunta pode ser respondida com um claro não. O Talibã ameaçou não suspender os ataques no futuro e que mais americanos seriam mortos. Eles controlam grandes partes do Afeganistão e podem atacar onde quiserem, inclusive no centro da capital, Cabul.

No entanto, o Talibã também tem consciência de que não pode vencer a guerra no Afeganistão enquanto forças armadas ocidentais estiverem envolvidas. Caso contrário, eles nunca teriam considerado se sentar à mesa com o arqui-inimigo Estados Unidos.

HA Asien | Florian Weigand

Florian Weigand é chefe da redação pachto/dari da DW

Em breve em Washington, após a retórica emocional de Trump no Twitter, a sobriedade diplomática voltará. O planejado acordo com o Talibã parecia mais próximo do que nunca, embora estejam surgindo relatos de que havia mais questões na agenda a serem debatidas do que fora admitido anteriormente.

Esse poderia ser um motivo mais forte para Trump ter cancelado a reunião, mas ele evidentemente prefere mascarar com a solidariedade a um soldado morto. Sem dúvida, essa postura ressoa melhor entre seus eleitores.

Mas jogar o possível acordo trivialmente no lixo é algo que nem Trump quer. Afinal, uma importante promessa de campanha está em jogo: a rápida retirada de todas as tropas americanas do Afeganistão. Consequentemente, assim não haveria mais soldados mortos.

Existe um risco muito grande de que o Talibã ataque especificamente alvos americanos para forçar uma retomada das negociações. Na campanha para as próximas eleições, as vítimas seriam colocadas na conta de Trump.

Mas aconselho também o Talibã a repensar sua estratégia de diplomacia violenta. Após os tuítes de Washington, os talibãs deveriam ter entendido que suas bombas não são atalho para um rápido sucesso.

E, sim, há uma terceira parte envolvida que tem sido sistematicamente deixada de lado pelos EUA e pelo Talibã, mas que agora pode recuperar provisoriamente sua importância: o governo do Afeganistão. Apesar de todos os obstáculos, Cabul quer realizar eleições em setembro para sublinhar sua legitimidade com uma nova confirmação nas urnas.

Restam apenas três semanas até o pleito – embora ainda não esteja claro se as eleições vão de fato acontecer. Os próximos dias no Afeganistão, portanto, prometem ser intrigantes, mesmo sem novos tuítes inesperados de Trump.

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