Opinião: Governo indiano precisa assumir a responsabilidade pela crise | Notícias internacionais e análises | DW | 28.04.2021

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Opinião

Opinião: Governo indiano precisa assumir a responsabilidade pela crise

As mortes não param de aumentar na Índia e a resposta do governo é negar a crise e censurar textos críticos em redes sociais. O governo de Modi precisa parar com o negacionismo e agir, opina Isha Bhatia Sanan.

Familiar de um paciente que morreu de covid-19 chora do lado de fora de um hospital do governo em Ahmedabad, na Índia, em 27 de abril de 2021.

Índia: luto por mais de 200 mil vítimas de covid-19

As imagens vindas da Índia nos últimos dias são de revirar o estômago – e não me refiro apenas metaforicamente. Trilhas de piras funerárias até onde a vista alcança, dezenas de pessoas morrendo do lado de fora dos hospitais, familiares desesperados em busca de cilindros de oxigênio para seus entes queridos. A Índia parece uma zona de guerra onde as pessoas estão perdendo suas vidas para o inimigo. As coisas teriam sido diferentes se o potencial do inimigo não tivesse sido subestimado.

Há apenas alguns meses, a Índia havia começado a voltar ao normal. As pessoas estavam convencidas de que o terrível coronavírus havia deixado o país. Enquanto alguns afirmavam que os indianos tinham uma imunidade muito grande, outros zombavam dos países ocidentais por não serem capazes de conter algo tão pequeno quanto um vírus.

Era o fim da primeira onda. Era hora de respirar fundo. E também era hora de se preparar para a segunda. Era hora de tirar lições de países que já estavam lidando com a próxima onda de infecções. Em vez disso, o primeiro-ministro Narendra Modi viu uma oportunidade para começar sua campanha eleitoral.

Política acima de tudo

Enquanto outros países cancelavam ou adiavam eventos importantes, como as Olimpíadas de Tóquio, a Índia se preparava para o maior encontro religioso do país, o Maha Kumbh, e para as eleições estaduais. Como em qualquer outra eleição, o partido nacionalista hindu de Modi, o BJP, não quis deixar pedra sobre pedra tampouco desta vez. Para isso, o BJP fez questão de organizar comícios maiores do que qualquer um dos partidos regionais.

Na verdade, em um de seus comícios no estado de Bengala Ocidental, Modi expressou gratidão dizendo que "nunca tinha visto uma multidão tão grande em um comício". Tais multidões enormes deveriam ser motivo de preocupação. E especialistas também soaram o alarme.

Mas o ministro do Interior da Índia, Amit Shah, respondeu rapidamente que não havia correlação entre o número crescente de infecções por covid-19 e a campanha eleitoral, uma vez que "surgiram casos em estados onde não havia eleições".

Negando a realidade

Não é apenas o ministro do Interior que nega a realidade. Yogi Adityanath, o ministro-chefe do estado mais populoso da Índia, Uttar Pradesh, afirmou recentemente que não há falta de oxigênio e que serão tomadas medidas contra os hospitais que espalham tais boatos. Essa afirmação ocorre em um momento em que os hospitais estão recusando pessoas por causa da falta de oxigênio.

No estado de Yogi, os trabalhadores de crematórios reclamam que não há mais espaço, pois eles estão recebendo pelo menos 10 vezes mais cadáveres do que o normal. Na maioria dos casos, os doentes morrem antes de chegar ao hospital e, portanto, a causa da morte é desconhecida.

De acordo com dados oficiais, o vírus já ceifou mais de 200 mil vidas na Índia. Mas a leitura incorreta dos números e a subnotificação dos casos mostram claramente que a cifra verdadeira é muito maior.

Esperando pelo 'messias'

A classe média da Índia vê Narendra Modi como um messias. Alguém que está predestinado a acabar com suas misérias. É com essa esperança que o povo da Índia votou em peso nele, não uma, mas duas vezes. O slogan "Modi hai to mumkin hai" ("Se Modi estiver lá, tudo é possível") ainda ressoa na classe média indiana.

E assim, no ano passado, quando Modi pediu às pessoas que acendessem diyas [lâmpadas de óleo] e batessem em thalis [pratos típicos indianos], o entusiasmo foi sem precedentes. As pessoas estavam convencidas de que Modi sabia como mantê-las seguras. Ele pediu que elas saíssem em suas varandas e batessem palmas por nove minutos e elas o fizeram. Ele pediu que elas segurassem uma vela acesa e elas obedeceram. Ele pediu que elas comparecessem a comícios eleitorais e elas foram.

Censura não é a saída

Em democracias, espera-se que os governos assumam a responsabilidade quando as coisas saem errado. Mas o governo de Modi está estabelecendo um precedente diferente ao censurar as críticas nas plataformas de mídias sociais. O Twitter, por exemplo, retirou dezenas de postagens que mostram a má gestão da situação. Espera-se que o Facebook e o Instagram façam o mesmo.

Em tempos em que as pessoas estão perdendo a fé no governo, as mídias sociais, muitas vezes, continuam sendo sua única esperança. Grupos do WhatsApp, Google docs, páginas do Facebook e fleets do Twitter estão sendo usados para organizar ajuda. Mas mesmo que isso lhes seja tirado em nome de salvar a "soberania e integridade" do país, que outra opção lhes restaria?

É hora de o governo indiano parar de negar e assumir a responsabilidade pelo caos. Para o povo do país, a cada dia que passa, fica mais claro que seu Messias fracassou.

 

Isha Bhatia Sanan trabalha para o serviço em hindi da DW. O texto reflete a opinião pessoal da autora, não necessariamente da DW.

 

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