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Ex-chanceler federal Schröder tem que romper com a Rússia

Alexander Görlach
2 de março de 2022

Ao manter cargos em estatais russas, Gerhard Schröder não compromete apenas a reputação do Partido Social-Democrata, mas da Alemanha como um todo. Se ele não renunciar, o Parlamento deve agir, opina Alexander Görlach.

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Gerhard Schröder e Vladimir Putin apertam-se as mãos
Gerhard Schröder (dir.) e Vladimir Putin confraternizam em Moscou, em março de 2018Foto: Alexei Druzhinin/dpa/picture alliance

A invasão da Ucrânia pela Rússia forçou algumas figuras públicas alemãs a repensarem sua posição. O clube de futebol FC Schalke 04 cancelou seu contrato de patrocínio recentemente renovado com a estatal de energia russa Gazprom; o concurso de canção Eurovisão se realizará no futuro sem a Rússia. Só uma se aferra tenazmente àquele país e ao ditador no Kremlin: Gerhard Schröder.

O ex-chanceler federal (1998-2005) tornou-se uma hipoteca pesada para os social-democratas da Alemanha. Tempos atrás, ele já havia caído no ridículo ao declarar que Vladimir Putin era um "democrata puro". Mas o fato de Schröder não tomar uma posição clara e condená-lo, nem mesmo diante da invasão da Ucrânia, é indigno de um antigo chefe de governo da República Federal da Alemanha e, no fim das contas, uma vergonha.

Assim, está absolutamente correto o recém-eleito chefe do Partido Social-Democrata (SPD), Lars Klingbeil, exigir de Schröder que corte todos os seus contatos de negócios com a Rússia. Entre outros cargos, o alemão integra o conselho de administração da Gazprom e é até mesmo presidente do conselho do conglomerado petroleiro estatal Rosneft, dirigido por Igor Sechin, um homem de confiança de Putin.

No entanto, é significativo o fato de que seja sequer necessário exigir que Schröder dê esse passo: o ex-chefe de governo não tem nem noção nem consciência ética de seu modo de agir.

Caso siga se recusando a se distanciar de Putin e continue sendo pago pela Rússia, lhe serão retirados o escritório e os funcionários financiados pelo contribuinte alemão. Já houve iniciativas nesse sentido, mas que não tiveram seguimento.

Num momento em que, pela primeira vez desde que Schröder perdeu a chefia de governo em 2005, um social-democrata, Olaf Scholz, volta a encabeçar o governo federal em Berlim, não é sustentável seu antecessor estar publicamente se contrapondo aos esforços pela paz e estabilidade na Europa.

Chantagem ou teimosia: tanto faz

A situação recorda o estado da União Democrata Cristã (CDU) em 1999, na época do escândalo das doações. O então chanceler federal da Alemanha, Helmut Kohl, recebera doações ilegais em nome de seu partido e, invocando sua "palavra de honra" dada, recusou-se a revelar o nome do doador.

Cedendo à pressão partidária, Kohl renunciou à presidência honorária de sua legenda. Além disso, tornou-se um pária, cujo comportamento comprometeu seriamente a reputação que angariara como "chanceler da Unidade Alemã" e "grande europeu".

Por isso, é melhor a CDU pensar bem antes de ceder à tentação de se aproveitar do comportamento pouco inspirador de Gerhard Schröder para fazer joguinhos de oposição. Assim como naquela época nos quadros democrata-cristãos, hoje em dia são numerosos os social-democratas escandalizados com o comportamento de seu ex-chanceler federal.

O antigo chefe de governo compromete a reputação da Alemanha. Esse estado de coisas não pode perdurar, perante a situação em que se encontra todo o continente europeu.

Não faz diferença se Vladimir Putin tem algo na mão contra Schröder, ou se o ex-chanceler é "só" um velho teimoso, dono da verdade, incorrigível: os partidos democráticos do Parlamento federal devem, conjuntamente, destituí-lo dos seus privilégios, com os quais segue se apresentando como representante da democracia alemã.

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Alexander Görlach é membro sênior do Carnegie Council for Ethics in International Affairs e pesquisador associado do Instituto de Religião e Estudos Internacionais da Universidade de Cambridge.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.

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