Opinião: Deixem o meu horário de verão em paz! | Notícias internacionais e análises | DW | 30.03.2019
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Opinião

Opinião: Deixem o meu horário de verão em paz!

Na madrugada de 31 de março começa o horário de verão na UE – pela penúltima vez, segundo a recente decisão do Parlamento Europeu. Felix Steiner vê paralelos negativos com o Brexit e protesta, em carta à UE.

Cara União Europeia,

Lamento muito, mas sinto que você me enrolou. Na verdade, gosto muito de você e a considero importante. Tão importante, que até participei de todas as eleições do Parlamento Europeu – mesmo sabendo que o verdadeiro centro de poder da UE é o Conselho, ou seja, a rodada de chefes de Estado e governo. Da mesma forma que não perdi nenhuma eleição, desde os meus 18 anos, pois considero votar o direito de rei de cada cidadão numa democracia.

Bem, no ano passado você não promoveu nenhuma eleição, mas uma "consulta popular". Via internet, nós podíamos manifestar o que achávamos da mudança de hora duas vezes por ano. Enfim, pensei comigo mesmo, parece que a UE não tem problemas de verdade. E de início ignorei a coisa toda.

Do meu ponto vista, não havia qualquer necessidade de a política agir, pois acho bom como as coisas estão, no momento: antecipo com prazer as longas e claras noite de verão. Ao mesmo tempo, acharia horrível se no inverno só ficasse claro às 9h30 da manhã (e na Bretanha francesa, mais tarde ainda).

Na última noite da consulta, contudo, acabei sendo tomado pela ambição, e quis entregar o meu voto. Mas infelizmente não funcionou: por duas horas eu tentei repetidamente votar, mas o servidor de internet estava fora do ar. Isso me aborreceu um pouco. Pois quem vive e cresceu na Alemanha está acostumado que a entrega do voto, não importa com que finalidade, não seja um problema. Mas, tanto faz, a coisa toda não me parecia tão importante assim.

O amargo despertar chegou alguns dias mais tarde. Pois, mal se divulgou o resultado, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, anunciou que estava considerando implementar a vontade do eleitorado. O quê? Acho que não ouvi bem: qual vontade, de quais eleitores?

É certo que o resultado foi inequívoco: mais de 80% dos votantes se manifestaram contra a troca de horário. Mas foi representativo? De jeito nenhum: de 500 milhões de cidadãos europeus, meros 4,6 milhões participaram, dos quais dois terços eram da Alemanha. É um fato que nós, alemães, somos numericamente a maior nação da UE. Mas tantos assim, também não somos.

No direito penal vale o princípio: o que não era penalizável no momento de ser cometido não pode ser punido mais tarde. Por analogia, o mesmo devia valer na política: uma consulta anunciada como não vinculativa não pode de repente servir como diretriz para ação política. Pois, caso contrário, é provável que muito mais gente satisfeita tivesse participado da votação online.

Porém, ao que tudo indica, Juncker está disposto a forçar a barra para demonstrar algo assim como popularidade, e joga pesado: na última terça-feira (26/03) o Parlamento Europeu decidiu que dentro de dois anos a mudança de horário passará a ser história.

E aí – perdão, a comparação vai parecer simplista – a coisa toda me recorda o Brexit: uma parte da população faz um enorme alarde, principalmente nas redes sociais, e consegue até mesmo sequestrar uma votação. O problema dessa maioria surpreendente é que ela só sabe o que não quer.

Quanto ao que ela quer como alternativa, cada pesquisa de opinião diz uma coisa diferente, como está comprovado. E há que suspeitar que, pelo menos na Alemanha, a pequena maioria – a qual agora reivindica horário de verão permanente – não se deu conta do que essa decisão significará no inverno.

Cara Europa: você não seria a União Europeia se não houvesse uma portinha dos fundos e, portanto, uma saída. O Parlamento igualmente deliberou que cada país deve decidir qual dos horários quer adotar no futuro. E, além disso, que não deve haver uma colcha de retalhos de fusos horários diferentes. Essa é justamente a minha esperança: não entrem nunca em acordo! Assim como no Parlamento britânico.

Nesse espírito, torço ainda por muitas longas noites de verão, não só nos jardins da Europa como nos terraços e varandas da UE.

Cordialmente,

Felix Steiner

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