Opinião: Alemanha tem que falar claro com a Rússia | Notícias internacionais e análises | DW | 23.12.2019
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Mundo

Opinião: Alemanha tem que falar claro com a Rússia

Berlim continua reticente, apesar das agressões de Putin. O decisivo é como os fatos são interpretados e lembrados. Por isso é necessária uma linguagem clara em relação ao Kremlin, opina Jörg Himmelreich.

Angela Merkel olha para Vladimir Putin

Em coletiva com Merkel, Putin disse que Khangoshvili era um "bandido". Chanceler permaneceu em silêncio

As relações da Alemanha com a Rússia atingiram um novo ponto crítico politicamente. Mas, apesar do assassinato de um cidadão georgiano em Berlim, o governo alemão e quase todos os partidos alemães continuam a agir como se nada tivesse acontecido. Tudo como sempre: ninguém quer melindrar Putin desnecessariamente. Pois ele seria necessário em outros campos importantes da política externa – por exemplo, no Oriente Médio, no leste da Ucrânia e no que diz respeito às armas nucleares.

Mas é precisamente aí que está o erro de cálculo fatal da política alemã para a Rússia: acreditar que minimizar diplomaticamente os ataques de Putin à ordem jurídica e à paz da Europa pode, talvez, levar a concessões de Moscou em outros assuntos. O que ocorre é justamente o oposto: o silêncio diplomático demonstra fraqueza para Putin. Essa fraqueza da Europa o torna forte – interna e internacionalmente. Pois hoje quem consegue ganhar a soberania da interpretação na percepção pública de eventos obscurecidos por notícias falsas é mais poderoso politicamente. É por isso que, na política externa, a linguagem pública no mundo moderno de hoje, da comunicação com internet e mídias sociais, se tornou uma medida decisiva do poder intergovernamental. Quem pode se dar ao luxo de dizer algo a alguém sem temer consequências?

Quando o presidente francês Macron – aborrecido por Trump e frustrado pela letargia de Berlim em avançar em uma cooperação armamentista franco-alemã – diagnostica a "morte cerebral" da Otan, a chanceler rapidamente se apressa ao microfone. E, nele, ela explica que ela e seu governo não compartilham da avaliação de Macron. Por outro lado, quando o georgiano Zelimkhan Khangoshvili é assassinado em Berlim, em plena luz do dia, no final de agosto, o silêncio impera por semanas nos círculos políticos em Berlim. Mesmo que os indícios logo levem a Vadim Sokolov e ao apoio óbvio das agências governamentais russas – indicando, portanto, se tratar de uma execução encomendada que dificilmente ocorreu sem a aprovação de Putin.

No final, no entanto, não restou outra opção a promotores federais a não ser assumirem o caso, pois a Rússia se recusou a cooperar. E quando as circunstâncias do crime não puderam mais ser ocultadas, o governo alemão foi forçado a expulsar dois funcionários da embaixada russa para não acabar ridicularizado frente a Putin – uma reação muito moderada diante do flagrante ataque à soberania e segurança alemãs.

No final da coletiva de imprensa da reunião em Paris na noite de 10 de dezembro, Putin, na presença de Merkel, disse que Khangoshvili era um "bandido" e que os pedidos russos para sua extradição não foram atendidos por Berlim. Obviamente, isso era uma mentira clara, uma tácita justificativa e confirmação da execução por órgãos do governo russo.

Obviamente, a chanceler também sabia que isso era uma mentira – e mesmo assim permaneceu em silêncio. No dia seguinte, o porta-voz do governo alemão declarou timidamente que tal pedido de extradição da Rússia nunca havia sido recebido.

Putin pode mentir para Berlim sem ser responsabilizado. Ao fazê-lo, Berlim deixa para Putin o poder de interpretar seus ataques à soberania alemã e sobre suas explicações usuais: a Rússia é sempre a vítima inocente da difamação de um Ocidente hostil. Os soldados russos nunca estiveram no leste da Ucrânia. O Boeing da Malaysian Airlines, que transportava 298 passageiros, foi abatido com um foguete russo BuK, que logicamente não veio da Rússia – tudo apenas difamações conspiratórias do Ocidente.

Essas interpretações são coisas que a política alemã para a Rússia não pode deixar passar. Qualquer um que conceda sem reservas esse poder de interpretação a Putin aprova oficialmente seu modo de agir e, assim, amplia sua área de ação para ataques óbvios à soberania alemã. Todos os representantes do governo e partidos alemães que pensam que, com silêncio míope e minimizações dessas violações flagrantes da lei, podem contar com Putin para cooperações ou troca de favores econômicos devem estar conscientes disso. O efeito é oposto. Quem quer que esteja seriamente interessado na cooperação indubitavelmente necessária com Putin não deve se furtar de usar uma linguagem clara publicamente.

Jörg Himmelreich é professor da École Supérieure de Commerce de Paris (ESCP), Campus Berlim.

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