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O que é a Guarda Revolucionária do Irã

Publicado 13 de junho de 2025Última atualização 28 de fevereiro de 2026

UE classifica força militar de elite iraniana como organização terrorista. Criada após Revolução Iraniana, de 1979, IRGC protege regime de ameaças internas e externas e tem papel central no Eixo da Resistência.

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Soldados da Guarda Revolucionária do Irã estendem as mãos durante encontro com o líder supremo do Irã, aiatolá Khamenei
Estima-se que Guarda Revolucionária do Irã reúna um total de 125 mil homensFoto: Iranian Supreme Leader'S Office/Zuma/picture alliance

A União Europeia incluiu em janeiro de 2026 a Guarda Revolucionária do Irã (IRGC, na sigla em inglês) em sua lista de organizações terroristas. O anúncio foi feito pela chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, e é uma reposta à violenta repressão aos protestos que ocorreram no país .

"Quando se age como terrorista, deve-se ser tratado como terrorista", destacou Kallas, criticando o papel desempenhando pela Guarda Revolucionária do Irã, a força militar de elite do Irã responsável por proteger o regime de ameaças internas e externas, na repressão às manifestações no país no último mês. 

"O balanço de vítimas e os meios utilizados pelo regime são verdadeiramente aterrorizantes. Por isso é que enviamos a mensagem de que, quando se reprimem as pessoas, isso tem um preço e merece sanções", afirmou.

Essa força paramilitar foi criada após a Revolução Iraniana de 1979, em que islamistas derrubaram o governo apoiado pelo Ocidente, para proteger o então embrionário regime clerical xiita. Ela também formou um importante contrapeso para os militares convencionais do Irã, cujos integrantes foram vistos durante muito tempo como leais ao xá exilado.

A unidade operou inicialmente como uma força doméstica, mas expandiu-se rapidamente depois que o então ditador iraquiano, Saddam Hussein, invadiu o Irã em 1980. Em reação, o aiatolá Ruhollah Khomeini deu ao grupo suas próprias forças terrestre, naval e aérea.

A instituição é parte das Forças Armadas do país e está diretamente subordinada a Ali Khamenei, líder supremo do Irã.

Embora o Irã nunca tenha divulgado números oficiais, uma estimativa do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos calcula que a IRGC seja formada por 125 mil homens.

Forças especiais da Guarda Revolucionária do Irã em treinamento
Força paralela aos militares regulares, a Guarda Revolucionária do Irã é formada por homens leais ao regime clerical xiitaFoto: Iranian Army Office/ZUMA/picture alliance

Um Estado dentro do Estado

A Guarda Revolucionária é considerada o pilar mais poderoso da liderança do Irã. Ela tem tropas próprias para o Exército, Marinha e Aeronáutica, unidades especiais para missões no exterior e a Basij, milícia paramilitar formada por voluntários.

Soldados da Basij patrulham mesquitas e têm papel crucial na repressão violenta de civis contrários ao regime do aiatolá.

A Guarda Revolucionária dispõe ainda de um exército cibernético, um centro de monitoramento e combate a crimes cibernéticos e um serviço secreto próprio, que age independente do órgão de inteligência do governo e reporta diretamente a Khamenei.

Sanções internacionais

Embora seja um órgão oficial do Irã, a IRGC foi designada uma organização terrorista pelos EUA em 2019, durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump. O Canadá seguiu o exemplo em 2024, e a Austrália, em 2025 – após um ataque a uma sinagoga em Melbourne, pelo qual a Guarda Revolucionária foi responsabilizada.

Na União Europeia, essa designação é limitada apenas a alguns oficiais do alto escalão da instituição. Em 2023, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução solicitando a inclusão da Guarda Revolucionária na lista de organizações terroristas da UE. A decisão final cabe, porém, aos Estados-membros. Com a violenta repressão à atual onda de protestos que se espalhou pelo país, o bloco europeu está inclinado agora a adotar essa medida.  

"A guarda foi criada como uma ferramenta para promover a jihad em todo o mundo", afirmou em 2019 à DW Paulo Casaca, fundador e diretor executivo do South Asia Democratic Forum, baseado em Bruxelas. Segundo ele, a Guarda Revolucionária "está envolvida na promoção do terrorismo há muito tempo" e é o "principal instrumento armado para os abusos do regime".

Papel na economia

Nas últimas décadas, a Guarda Revolucionária ampliou amplamente sua influência sobre a economia iraniana. Um exemplo disso é o Khatam-al-Anbia, conglomerado fundado no final da década de 1980 para reconstruir o Irã no pós-guerra. Controlado pela força de elite, ele é responsável por diversos projetos de infraestrutura e investimentos estratégicos.

Hoje, a Guarda Revolucionária fabrica carros, constrói represas, estradas, ferrovias e até mesmo linhas de metrô. Ela também está intimamente ligada à economia de gás e petróleo do país e atua nos setores de mineração e farmacêutico. Informalmente, seus domínios se estendem até mesmo ao mercado imobiliário e ao contrabando. Não há, contudo, dados precisos sobre a participação da força militar no PIB iraniano.

Banner publicitário de vacina contra a covid-19 desenvolvida no Irã
Empresa controlada pela Guarda Revolucionária do Irã produziu vacinas durante a pandemia de covid-19Foto: Tasnim

Papel no exterior e em conflitos fora do Irã

A brigada Quds da Guarda Revolucionária é responsável por missões no exterior e tem como finalidade apoiar grupos ideologicamente próximos do Irã.

No Iraque, por exemplo, essas tropas estruturaram forças xiitas; na Síria, apoiaram o ditador Bashar al-Assad; no Líbano, o Hezbollah; no Iêmen, a milícia houthi; e, na Faixa de Gaza, o grupo radical palestino Hamas.

Essa aliança informal de países e milícias do Oriente Médio liderada pelo Irã é conhecida como "Eixo da Resistência" e inclui ainda grupos no Afeganistão e Paquistão. O que os une é sua oposição ao Ocidente. Elas se apresentam como a "resistência" à influência dos Estados Unidos e de seu aliado Israel na região.

Pai da Revolução Iraniana e líder supremo do Irã de 1979 até 1989, Ruhollah Khomeini fez do apoio à causa palestina e da eliminação de Israel um elemento central da política externa do país.

Irã e Israel têm travado uma guerra indireta há anos, mas em 2024 passaram a se atacar diretamente, na esteira das guerras na Faixa de Gaza e contra o Hezbollah no Líbano.

Em junho de 2025, Israel lançou um pesado ataque contra o Irã, o pior infligido ao país desde a guerra com o Iraque de 1980, com o objetivo de sabotar o desenvolvimento de armas nucleares pela República Islâmica.

Um dos mortos nesse ataque foi Hossein Salami, de 65 anos, chefe da Guarda Revolucionária iraniana desde 2019. Ele era um oficial experiente e integrava a organização praticamente desde a sua fundação, em 1979.

cn/ra/bl (DW, AP, AFP)