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Desfile da escola de samba Portela no Sambódromo do Rio de Janeiro
Escola de samba Portela no Sambódromo do Rio de JaneiroFoto: Amanda Perobelli/REUTERS

O Brasil na imprensa alemã (27/04)

27 de abril de 2022

Mídia alemã destaca o Carnaval fora de época no Brasil e seu efeito consolador em meio à pandemia e à crise social e econômica. Também em pauta, as consequências do perdão presidencial a Daniel Silveira.

https://www.dw.com/pt-br/o-brasil-na-imprensa-alem%C3%A3-27-04/a-61613233

Frankfurter Allgemeine Zeitung – A paixão foi mais forte (22/04)

Os últimos ovos de Páscoa ainda estão na geladeira, e o verão brasileiro já deu lugar ao frescor do ar de outono. A rigor, ninguém chegaria à ideia de festejar o Carnaval nessa época, ainda mais num país católico como o Brasil. Mas a paixão dos brasileiros pela maior e mais animada festa do ano é mais forte do que a obediência ao calendário. Até porque no Brasil o Carnaval é um negócio milionário, envolvendo contratos fechados com grande antecedência.

Quando as autoridades do Rio de Janeiro e São Paulo tiveram que cancelar o Carnaval em fevereiro, devido ao grande número de infecções pela variante ômicron do coronavírus, elas deixaram aberta uma porta dos fundos, definindo uma data alternativa. Assim, pela primeira vez na história, a festa de todas as festas transcorre depois da Páscoa.

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Que haveria discussões sobre o Carnaval pós-pascal, estava claro, No entanto, a maior polêmica não foi em torno do evento em si: a briga se desencadeou em torno do carnaval de rua. Nem as autoridades do Rio, nem as de São Paulo o autorizaram, porém muitos blocos, em parte reunindo dezenas de milhares de foliões, anunciaram que iriam mesmo assim para as ruas.

Uma lista indica que no Rio serão no mínimo 40 blocos, o que deve resultar num certo caos. Ao cancelar o carnaval de rua, as autoridades se esquivaram da responsabilidade e não organizaram nenhum contingente especial de forças de segurança nem de equipes de limpeza.

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Apesar do entusiasmo do movimento carnavalesco brasileiro e da paixão dos foliões pela festa mais importante de todas, o carnaval vai permanecer moderado. No momento, a pandemia não provoca mais medo, mas ela ainda está presente. Além disso, muitos brasileiros se encontram em situação economicamente difícil. O desemprego e a inflação abafam a alegria, talvez a data alternativa também contribua.

A maior festa de todos os tempos, de que tanto se falava durante a pandemia – numa alusão ao primeiro Carnaval após a gripe espanhola, em 1919 – vai ter que esperar ainda mais um ano.

Der Tagesspiegel – Samba de Janeiro (22/04)

O Rio de Janeiro mais uma vez faz jus a sua fama de cidade anárquica. O Carnaval começou esta semana – dois meses mais tarde do que de costume, por causa do coronavírus. Desde a quinta-feira, as escolas de samba do segundo grupo desfilam no Sambódromo, no centro da cidade. A partir da noite desta sexta-feira, as 12 agremiações do primeiro grupo concorrem ao tão cobiçado título de "melhor escola de samba".

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O Carnaval do Sambódromo tem fama mundial, sobretudo graça às espetaculares imagens de carros alegóricos fantasticamente ornamentados e sambistas seminuas. No entanto, existe no Rio um segundo carnaval, o de rua, de que centenas de milhares participam, desfilando por toda a cidade: fazer música, dançar e beber muito. A coisa só tem um defeito: este ano o carnaval de rua não foi autorizado pela Prefeitura, e não deveria se realizar.

Contudo, o Rio não seria o Rio se não houvesse um meio de contornar a interdição. E quem o indicou foi justamente o prefeito Eduardo Paes, conhecido como grande fã do Carnaval, que se diz possuir um par de sapatos de cada escola de samba: sua administração não fará nada para impor seus próprios regulamentos, prometeu. Os desfilantes não precisam temer qualquer repressão da parte da Secretaria de Ordem Pública.

Essa postura é tão pragmática – pois, com ou sem proibição oficial, este ano dezenas de milhares vão se esbaldar pelas ruas – quanto o procedimento é típico do Rio: aqui há a lei, as regras, mais há também, afinal de contas, a realidade.

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Seja como for, o Carnaval está de volta ao Rio. É até certo ponto um retorno à normalidade: cerca de 670 mil já morreram de covid-19 no Brasil; a economia nacional sofreu seriamente com a pandemia; muitos – sobretudo no gigantesco setor informal – perderam sua fonte de renda, e até hoje só se sustentam graças a volumosas doações de alimentos.

Acrescente-se a inflação, que catapultou, por exemplo, o preço da carne. Gasolina e gás ficaram mais caros, como em todo o mundo – mais uma vez, é óbvio, afetando os pobres de maneira desproporcional. O governo do extremista de direita Jair Bolsonaro se ocupa, de olho nas eleições de outubro, em distribuir presentes, como gordos aumentos para os funcionários públicos.

Nessa situação, o Carnaval funciona como uma válvula de escape para os medos, obstáculos e frustrações que muitos brasileiros vivenciam há dois anos. Ele é uma bem-vinda distração para as dificuldades que marcam o quotidiano da maioria dos cidadãos aqui.

Além disso, oferece a possibilidade de criticar o presidente Bolsonaro e de apresentar um Brasil que nada tem a ver com a concepção ultraconservadora de sociedade dele (cristianismo, pátria, militares, heterossexualidade, família tradicional).

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Frankfurter Allgemeine Zeitung – Bolsonaro e a liberdade dos tolos (25/04)

O Brasil ama tanto o Carnaval, que este ano o festeja depois da Páscoa. No Rio de Janeiro e São Paulo as escolas de samba desfilaram no fim de semana, a coisa esteve animada nas duas metrópoles. Animado está também na capital Brasília, onde, longe do Carnaval, desencadeou-se uma discussão muito mais séria sobre a "liberdade dos tolos" e seus limites.

Pois o presidente Jair Bolsonaro aproveitou uma sentença judicial para, mais uma vez, desacatar o Supremo Tribunal Federal e provocar uma nova crise institucional. Na quinta-feira, ele foi primeiro presidente desde 1945 a conceder um indulto pessoal – no caso ao deputado bolsonarista Daniel Silveira.

Dias antes, o STF o condenara a mais de oito anos de prisão. Após protestar contra a suprema corte e o Congresso e glorificar a ditadura militar no ano passado, o ex-policial militar e lutador esportivo foi processado por ameaça ao Estado democrático de direito. Entre outros atos, ele conclamou a população à invadir a sede do tribunal.

Em seguida à divulgação de um vídeo em que ameaçava diversos ministros do STF, Silveira foi preso em fevereiro de 2021. A intimidação dos juízes é interpretada como interferência no livre exercício de um poder estatal. Na Polícia, ele tem uma ficha com mais de 60 sanções disciplinares.

A Constituição prevê o direito do presidente de conceder perdão. Porém a interpretação é controversa: com a graça, Bolsonaro livrou da prisão um correligionário radical e notoriamente em conflito com a lei. Isso não serve ao interesse público, mas sim exclusivamente ao interesse pessoal do presidente, criticou a oposição numa queixa.

Decisiva, porém, é a narrativa sobre o verdadeiro motivo do indulto: os bolsonaristas o exaltam como ato heroico, exatamente como pretendia o presidente, quando, na sexta-feira, se referiu a um ato simbólico "para garantia da liberdade". Nessa argumentação, a sentença do STF é apresentada como ataque à liberdade de expressão de um deles, cuja única culpa foi insultar os juízes de maneira um tanto pesada. Os verdadeiros delitos são escamoteados.

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Está claro que a meta de Bolsonaro é minar a credibilidade da Justiça. Diversos ministros do STF também atuam no Tribunal Superior Eleitoral, responsável pela realização dos pleitos. No passado, Bolsonaro colocou repetidamente em dúvida a neutralidade das autoridades eleitorais e a confiabilidade do sistema de voto eletrônico – semelhante ao que fez ex-presidente americano e amigo de Bolsonaro Donald Trump antes das eleições presidenciais nos Estados Unidos.

Permanece em aberto o que farão Bolsonaro e seus simpatizantes se as pesquisas de intenção de voto se confirmarem, e Lula da Silva vencer o pleito. O medo de uma versão brasileira da "invasão do Capitólio" em Washington voltou a crescer nos últimos dias. Alguns observadores falam de um "golpe de Estado em câmera lenta".

Até agora, os juízes do STF não se manifestaram publicamente sobre o indulto. Segundo certas fontes, a palavra "surreal" foi usada diversas vezes. Do ponto de vista jurídico, o tribunal não tem praticamente nenhum meio de anular o perdão presidencial. Em contrapartida, não está claro se a medida também preserva Silveira da perda do mandato e da inelegibilidade.

Por um lado, os juízes querem evitar que Silveira saia impune, o que equivaleria a um passe livre para futuros ataques às instituições. Por outro, quer-se evitar uma reação precipitada e ainda mais confrontação, a fim de não provocar uma escalada.

av (ots)