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Imagem mostra torso de Elza Soares, que canta com a boca aberta e segura o microfone com a mão direita, vestindo uma luva preta.
Elza Soares durante apresentação no Rock in Rio no Rio de Janeiro, em setembro de 2019Foto: Mauro Pimentel/AFP/Getty Images
MúsicaBrasil

O Brasil na imprensa alemã (26/01)

26 de janeiro de 2022

Morte de Elza Soares, a "voz do milênio" e "Nina Simone do Brasil", mereceu extensa cobertura em veículos alemães. Processo em Munique contra empresa TÜV Süd por responsabilidade em Brumadinho também foi destaque.

https://www.dw.com/pt-br/o-brasil-na-imprensa-alem%C3%A3-26-01/a-60564452

Die Tageszeitung (TAZ) – Samba com Soul (26/01)

Samba? Futebol? Brasil! A vida de Elza Soares poderia ser interpretada como mais uma confirmação do velho clichê. Mas também tratou de algumas outras coisas, a exemplo da inversão da clássica cronologia de uma carreira: mergulhar na arte na juventude, aproveitar o sucesso, felicidade privada, crises, afterlife.

Elza, nascida em 1930, cresceu na amarga pobreza na favela Moça Bonita, no Rio de Janeiro, numa família com mais nove irmãos. Em retrospectiva, encarou a infância como bonita, mesmo tendo que ganhar dinheiro desde cedo, por exemplo ajudando a mãe como faxineira.

A boa época, no entanto, passou no máximo quando foi obrigada a se casar, aos 12 anos, e teve o primeiro filho, aos 13. Quando se tornou viúva, aos 21, tinha dado à luz mais cinco crianças e vencido um concurso de canto do qual apenas participou para pagar os cuidados médicos de um dos filhos.

Sim, ela amava cantar. Mas tornar isso uma profissão, como mãe solteira de cinco crianças? Em 1953, ela participou de um concurso de talentos no rádio, apresentado pelo famoso compositor Ary Barroso. Ele cumprimentou a curiosa aparição com a frase: "E de que planeta você vem, minha filha?" – "Do mesmo planeta que você, seu Ary. Do planeta fome". Seu último álbum, Planeta Fome, lançado em 2019, lembra o diálogo histórico.

(...) Com quase 60 anos, a vontade de criar voltou a tomar conta dela, que virou sua música do avesso. Com o compositor José Miguel Wisnik e o produtor Alê Siqueira, compôs o álbum Do Cóccix até o Pescoço (2002), enfeitado com participações da elite da MPB, como Chico Buarque, Caetano Veloso ou Carlinhos Brown e que lhe rendeu uma indicação ao Grammy Latino. O trabalho indicou a direção para seus últimos anos, repletos de atividade.

O ápice foi o álbum A mulher do fim do mundo (2015), que gravou com músicos do nebuloso círculo da banda de post-indie-rock Metá Metá, de São Paulo, e com o qual ela conquistou definitivamente o respeito e a admiração de gourmets e de críticos de rock e de pop do mundo inteiro. Elza Soares morreu no dia 20 de janeiro, aos 91 anos, no Rio.

Süddeutsche Zeitung – A Musa de Mané (25/01)

(...) a carreira de Garrincha era indissociavelmente ligada a Elza Soares, que, em 1999, foi chamada pela BBC – que não é dada a exageros – de "voz do milênio", e de quem não se despediram apenas os cadernos de cultura brasileiros, mas também os mais versados especialistas em futebol do país, e sobretudo os clubes da bola do Brasil.

A Nina Simone do Brasil teve um renascimento incrível, comemorou sucessos tardios. E cantou com uma voz curtida pela vida até o fim de seus dias.

Elza Soares, que tinha tanta ligação com o futebol brasileiro, apesar de nunca ter chutado uma bola, e que diria ela mesma que Garrincha foi o grande amor de sua vida, morreu no dia 20 de janeiro. Exatamente no dia em que fizeram 29 anos da morte de Mané. E não houve ninguém no Brasil que quis ver nesse fato uma coincidência.

Süddeutsche Zeitung – Sindicato ataca a TÜV Süd (24/01)

A TÜV Süd já tem aborrecimentos suficientes após a tragédia da barragem no Brasil, com 270 mortos; no Tribunal Regional Munique I, na Alemanha, foi autorizado uma grande queixa contra a empresa alemã de certificações e inspeções.

Agora, a TÜV Süd também tem o sindicato IG de mineração, energia e química (IG Bergbau) contra si. A IG Mineração apoia uma ação adicional contra a empresa de inspeção, que, de certa forma, está sendo pressionada.

Há muito sofrimento humano envolvido no Brasil, e muito dinheiro para a TÜV Süd, que, poucos meses antes, ainda havia certificado a barragem como segura e poderá ter que pagar mais de 400 milhões de euros (cerca de R$ 2,5 bilhões) às vítimas.

E trata-se de questões fundamentais que ultrapassam largamente esse caso: os sindicatos podem impor padrões internacionais para proteger funcionários? E as empresas alemãs são obrigadas a prestar contas por suas filiais no exterior?

A TÜV Süd, que nega qualquer responsabilidade pelo devastador rompimento da barragem, não quer pagar de forma alguma.

Após uma primeira queixa, na época de pequenas dimensões, a empresa de certificação alertou veementemente contra uma responsabilização ampla, já em março de 2020, junto ao Tribunal Regional de Munique I. Isso seria um "estímulo considerável" para tentar uma espécie de ação mais drástica em outras partes do mundo. E para, segundo a TÜV Süd, possibilitar medidas direcionadas aos "bolsos supostamente grandes" de empresas alemãs com filiais no exterior.

Michael Vassiliadis, chefe da IG Mineração, não tem compreensão para a postura da TÜV Süd. A subsidiária brasileira da empresa de certificação alemã emitiu um certificado de segurança para a barragem situada próxima à cidade de Brumadinho, "apesar de melhor conhecimento". Por isso, é moral e juridicamente necessário que a central da TÜV Süd em Munique também seja responsabilizada.

As consequências da tragédia ocuparam hoje o Tribunal Regional Munique I. São 1.112 pessoas do Brasil que exigem 436 milhões de euros em indenizações à TÜV Süd. Os autores da ação são principalmente familiares das vítimas, mas também sobreviventes da tragédia. A essa grande ação, junta-se a queixa adicional apoiada pela IG Mineração.

São 190 funcionários da mina Córrego do Feijão e familiares dos funcionários que exigem reparações no valor de 13 milhões de euros. A IG Bergbau trabalha com o sindicato brasileiro CNQ-CUT e apoia a queixa com centenas de milhares de euros, que poderiam ser pagos adiantamento de custos no processo. Vassiliadis insiste na "responsabilidade de empresas multinacionais alemãs".

rk (ots)