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Elza Soares
Ao longo da carreira, Elza Soares foi uma voz ativa na defesa dos direitos humanos, das minorias, da liberdade sexual e das vítimas da violênciaFoto: AFP via Getty Images
MúsicaBrasil

Morre a cantora e compositora Elza Soares

20 de janeiro de 2022

Ícone da música brasileira tinha 91 anos. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, cantora lançou 34 discos e se manteve na ativa e engajada política e socialmente até o fim da vida.

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Morreu nesta quinta-feira (20/01) a cantora e compositora Elza Soares, aos 91 anos, de causas naturais. O anúncio foi feito pela equipe e pela família da cantora através das redes sociais.

"Ícone da música brasileira, considerada uma das maiores artistas do mundo, a cantora eleita como a Voz do Milênio teve uma vida apoteótica, intensa, que emocionou o mundo com sua voz, sua força e sua determinação. A amada e eterna Elza descansou, mas estará para sempre na história da música e em nossos corações e dos milhares de fãs por todo mundo. Feita a vontade de Elza Soares, ela cantou até o fim", diz a postagem no perfil oficial de Elza no Instagram.

Ao longo da carreira, Elza Soares foi uma voz ativa na defesa dos direitos humanos, das minorias, da liberdade sexual e das vítimas da violência.

Trajetória

Nascida em 1930, filha de uma lavadeira e de um operário, Elza Gomes da Conceição conheceu desde cedo a pobreza.

Aos 12 anos, foi obrigada pelo pai a se casar e, aos 13 anos, teve o primeiro filho. Aos 21 anos ficou viúva e já havia perdido dois dos quatro filhos, devido à fome. O sobrenome Soares vem do primeiro casamento. 

Começou a cantar na década de 1950 e, em 1999, foi eleita a "Voz do Milênio" em uma votação da Rádio BBC, de Londres. Antes da fama, carregou lata d'água na cabeça, trabalhou de faxineira, de empacotadora e numa fábrica de sabão.

Seu primeiro sucesso foi Se acaso você chegasse, em 1959. Embora tenha começado a carreira no samba, ao longo de seis décadas de carreira e dos seus 34 discos lançados se aproximou de ritmos como jazz, música eletrônica e hip hop. Seu último álbum foi Planeta Fome, em 2019.

O título foi inspirado em uma resposta que deu a Ary Barroso durante o concurso Calouros em Desfile, da Rádio Tupi, quando ainda era uma anônima. 

Ary perguntou a Elza: "De que planeta você veio?". "Do planeta fome", ela respondeu. Elza venceu o show com nota máxima, cantando o samba Lama. Quando começou a cantar, Ary Barroso disse que naquele momento nascia uma estrela no Brasil.

Em 2016, a cantora ganhou o Grammy de melhor álbum de música popular brasileira com A mulher do fim do mundo. No mesmo ano, o jornal americano The New York Times elegeu A mulher do fim do mundo como um dos dez melhores do ano, numa lista que inclui nomes como Beyoncé e David Bowie.

Em julho de 2019, numa entrevista à agência de notícias Lusa, Elza Soares assumiu-se "totalmente" feminista, o que, para ela, significa "ter coragem de gritar que se é mulher".

Sobre sua biografia, escrita por Zeca Camargo, a cantora afirmou que o livro "conta a história de uma vida que não era para dar certo": mulher, negra e pobre, mas que deu. "A vida depende de como ela é vivida", resumiu.

Casamento com Mané Garrincha

Em 1962, foi convidada para cantar para a seleção brasileira na Copa do Mundo do Chile. Lá, conheceu o jogador Mané Garrincha, com quem foi casada de 1966 a 1982. Ela sofria violência doméstica e, após tentar ajudar o marido a largar o alcoolismo sem sucesso, resolveu se separar, para dar um basta nas agressões. Juntos eles tiveram um filho, Garrinchinha, que morreu num acidente de carro aos 9 anos. Garrincha morreu há exatos 39 anos, no mesmo dia que Elza. 

O Flamengo, time do coração de Elza, lamentou a morte da cantora nas redes sociais. O clube, em suas condolências, lembrou a coincidência nas datas da morte de Elza e Garrincha. "O Clube de Regatas do Flamengo lamenta profundamente a morte da magnífica cantora Elza Soares. Rubro-negra de coração, ela nos deixa no mesmo dia em que o craque Garrincha, seu grande amor, se foi há 39 anos."

Escolas de Samba

Em 2020, no último Carnaval antes da pandemia, Elza Soares foi tema do samba-enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel e desfilou como destaque pela escola. Em 2010, havia sido madrinha da bateria da Mocidade. No final dos anos 1960, foi uma das primeiras mulheres e interpretar um samba-enredo na avenida, pela Salgueiro.  

Ambas as escolas publicaram homenagens à cantora. "Elza desencarnou no dia de São Sebastião, Oxossi, o orixá caçador, que rege a bateria verde e branca, tema de seu enredo.Com certeza ela estará, de alguma forma, olhando por nós na Sapucaí. Salve Elza Soares!", escreveu a Salgueiro.

A Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de samba de coração da cantora, anunciou luto de três dias. "Em nome do presidente Flávio Santos e do vice-presidente Luiz Claudio Ribeiro, a Mocidade Independente de Padre Miguel, profundamente consternada, anuncia luto de 3 dias em virtude do falecimento da nossa grande eterna deusa, Elza Soares. O ensaio do próximo sábado está cancelado", anunciou em nota oficial. 

Artistas lamentam a morte de Elza

Artistas, políticos e personalidades brasileiras prestaram homenagens à cantora. 

"Elza Soares foi uma concentração extraordinária de energia e talento no organismo da cultura brasileira", frisou Caetano Veloso pelo Twitter. 

"Compus o samba-rap Língua e a convidei para cantar a parte melódica. Assim ela voltou a cantar [na década de 1980] e a receber atenção. Voltou à televisão e, depois, figuras tão díspares quanto Lobão e Zé Miguel Wisnik fizeram questão de trabalhar com ela", acrescentou. 

A música Língua, que Caetano Veloso canta em dueto com Elza Soares, presta uma homenagem à língua portuguesa com versos irreverentes como: "Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões" e "Flor do Lácio. Sambódromo. Lusamérica. Latim em pó. O que quer. O que pode esta língua?". 

Elza, sentada, canta
Elza Soares em apresentação em Nova York, em 2017Foto: Getty Images/K.Betancur

O cantor Gilberto Gil divulgou um vídeo em suas redes sociais frisando que "foram décadas e décadas de vida, dias intensíssimos, noites extraordinárias com música, com samba com paixão. Uma das grandes intérpretes do samba". 

"Acho que posso dizer que é muito grande a saudade que o Brasil deva sentir por ela", acrescentou Gilberto Gil. 

O cantor Zeca Pagodinho usou o Instagram para publicar uma foto ao lado de Elza Soares com o texto "descanse em paz".  

"O mundo do samba, e de toda a música brasileira, te agradece e reverencia pela sua vida e sua arte!", disse Zeca Pagodinho. 

O também cantor Djavan publicou uma foto da artista cuja legenda destaca que "o Brasil e o mundo lamentam hoje a passagem de Elza Soares".

A equipe da cantora Maria Bethânia escreveu no Facebook que hoje o país perde "uma das grandes mulheres da música brasileira". "Elza nos deixou um legado imortal com sua arte transmitida com sua voz considerada a Voz Do Milênio. Elza e Maria Bethânia tinham uma grande admiração uma pela outra. Apaixonada pelo álbum A mulher do fim do mundo de Elza, Maria Bethânia se inspirou nele para gravar a canção Mortal loucura, texto de Gregório de Matos musicado por José Miguel Wisnik", diz a mensagem. 

O rapper Emicida afirmou no Twitter que Elza Soares "através da sua imensidão ensina que é sempre tempo de brilhar".

A cantora Maria Rita chamou a morte de Elza de "perda facilmente estimável". "Descansa uma das maiores do nosso país, representante da resistência e resiliência de seu povo. Dona Elza, missão cumprida! E agora começa a nossa missão: celebrá-la sempre! Que seja recebida em festa, essa incrível mulher de Luz…!".

A sambista Leci Brandão afirmou que Elza é uma referência como artista e mulher. "Quanta tristeza! A nossa DIVA Elza Soares fez sua passagem hoje. A Voz do Milênio, Elza é uma referência de mulher, artista e ser humano. Elza é eterna! Eu agradeço por sua passagem iluminada nesse mundo. Que Olodum a receba em festa".

O músico Lobão, que conheceu Elza ainda na década de 1980 e sempre expressou carinho, admiração e amizade pela cantora em seus livros e entrevistas, também se manifestou nas redes sociais. "Acabo de receber uma notícia simplesmente devastadora: minha madrinha, minha amiga, uma das maiores cantoras do mundo, Elza Soares nos deixou hoje".

A atriz Taís Araújo, que interpretou Elza no cinema, também se manifestou. "Dura na queda, nos ensinou a levantar a cabeça a cada tombo e depois seguir", disse.

Ciro e Lula prestam homenagens

Fora do mundo da música, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou em mensagem nas redes sociais: "Com muita tristeza recebemos hoje a notícia da partida da nossa querida Elza Soares. Perdemos não só uma das melhores cantoras e vozes mais potentes do Brasil, mas também uma grande mulher, que sempre defendeu a democracia e as boas causas".

O ex-governador do Ceará e pré-candidato à Presidência Ciro Gomes destacou que "o Brasil perde uma de suas vozes mais fortes, representativas e mundialmente conhecidas. Elza Soares, que foi eleita uma das maiores artistas do mundo, teve sua vida marcada pela superação. Sua história é símbolo de luta pelo direito das mulheres, dos negros e dos mais pobres". 

O governador de São Paulo, João Doria, usou suas redes sociais para dizer que "com a morte de Elza Soares, o Brasil perde uma mulher admirável. Elza era a voz do talento e do ritmo da música brasileira". 

Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro, estado natal da cantora, destacou em mensagem que "Elza Soares é imortal. Faz parte da constelação das grandes personagens mundiais. É também símbolo de luta, superação, talento e perseverança. Entristece o mundo da música ao nos deixar, e no dia marcado também pelo falecimento de Garrincha, um dos seus maiores amores".

Já o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, afirmou nas redes sociais que decretará luto oficial de três dias "pela perda dessa grande carioca! Mulher! Guerreira! Elza Vive!".

Ruy Castro, escritor e autor de uma biografia de Garrincha, disse em entrevista à GloboNews que entre os anos de 1960 e 1970, quando ela gravou cerca de 15 álbuns, a cantora "deixou uma das maiores obras de samba que já foram feitas no Brasil".

le/as (Lusa, Agência Brasil, ots)