Nova ópera mostra um outro lado de Karl Marx | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 12.12.2018

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Cultura

Nova ópera mostra um outro lado de Karl Marx

O autor de "O capital" não aplicava na vida privada exatamente os princípios que postulava em seus escritos. Coprodução entre casas de ópera alemã e escocesa apresenta 24 horas na vida de Marx como farsa bem humorada.

Cena da ópera Marx in London em Bonn

"Marx in London" apresenta o filósofo entre utopias mirabolantes e a dureza do dia a dia

O crítico do capitalismo, cujos escritos transformariam o mundo, vive em pleno conforto burguês. Devido a sua incapacidade crônica de lidar com dinheiro, contudo, um grande industrial amigo seu tem que frequentemente dar-lhe uma ajuda financeira.

O criador de uma ideologia que beira a religião tem um filho ilegítimo cuja existência deve permanecer oculta do mundo, a fim de não prejudicar-lhe a imagem. A esposa, filha de um conselheiro municipal, está arruinada, não por ter perdido o status social devido a atividades revolucionárias, mas sim porque seu marido leva uma vida perdulária e não para em casa.

Esse esboço poderia ser objeto de uma fascinante análise psicológica, ou de crítica ferrenha. Ou de uma comédia? Marx in London  é precisamente isso. Encomendada pela Ópera de Bonn, a obra se baseia numa ideia do diretor alemão Jürgen R. Weber. A estreia em Bonn,  em 9 de dezembro de 2018, mereceu aplausos de pé e bravos efusivos.

Theater Bonn Marx in London

Compositor Jonathan Dove: "Não teno medo de melodias"

O libreto em inglês de Charles Hart foi musicado por Jonathan Dove. A 29ª ópera do compositor britânico encena 24 horas na vida de Karl Marx e família. Após numerosas mudanças de casa, eles foram parar em Londres e estão sob observação de um espião do governo.

Logo no início, o protagonista tem que ver seus móveis sendo levados embora, devido a dívidas não pagas. Ele tenta penhorar a prataria da esposa, mas se perde num discurso inflamado sobre uma futura utopia livre de dinheiro, e no meio tempo acaba perdendo também os talheres.

Como se tudo isso não bastasse, entra em cena um jovem que revela ser o filho ilegítimo da personagem-título. Confusão e pânico acompanham a tentativa de manter oculta a presença e a identidade do visitante. Por fim, como um deus-ex-machina do teatro grego antigo, Friedrich Engels aparece para livrar a família do apuro financeiro.

Foi realmente Engels quem, no leito de morte, revelou que Karl Marx tinha um filho ilegítimo. O historiador Tristram Hunt aconselhou os criadores da ópera em seu processo, portanto tudo na trama tem um fundamento histórico, mesmo sendo contado com leveza.

Yannick-Muriel Noah como Jenny e Mark Morouse como Marx em cena da ópera Marx in London

Jenny (Yannick-Muriel Noah) e Karl Marx (Mark Morouse) têm vida doméstica atribulada

Marx foi tão levado a sério, por tanto tempo, que uma ópera séria em torno de sua figura correria o perigo de parecer ideológica, explica o diretor Weber: "Ele ainda é considerado, em muitas partes, um pensador profundo, extremamente científico, que portava a chave para uma utopia. Marx foi e permanecerá um fenômeno quase religioso."

A bem humorada linha narrativa do texto e da trama se reflete na partitura de Jonathan Dove, que evoca modelos anglo-americanos como Leonard Bernstein, Stephen Sondheim, Benjamin Britten e Philip Glass. Esses elementos, porém, não são percebidos como cópias, mas como componentes inteligentemente integrados num grande todo, por vezes de forma pomposa, por outras, frívola.

"Não tenho medo de melodias", explica o compositor de 59 anos, cujas Flight  e The adventures of Pinocchio  já entraram para o repertório operístico. "Acho que existe suficiente música séria, de vanguarda. Em contrapartida, comédia na ópera é um artigo muito em falta."

De fato, há mais de um século óperas cômicas são extremamente raras. Para o também diretor de cena de Marx in London, Jürgen R. Weber, as razões para tal remontam a um passado distante. "Existe uma lei tácita: aquilo que se entende não pode ser arte. Acho que foi mesmo Nietzsche que disse algo como: mesmo não se conseguindo ver o fundo, pode ser que seja raso. Ainda hoje, porém, as pessoas pensam: 'Se eu não consigo entender, então deve estar certo.'"

Com sua experiência de diretor em populares séries de TV alemãs, Weber sabe o que agrada ao público. Dove aparentemente também, porém esse cálculo não entra em seu processo criativo.

"Tive muita sorte de descobrir que, se crio os sons que eu mesmo quero escutar e se consigo compor uma peça que gostaria de assistir, então também haverá outros que vão ter prazer com ela. De todo o mundo que está no teatro, eu sou provavelmente quem se diverte mais."

De início, a equipe criativa queria trabalhar com um libreto anglo-alemão – semelhante à babel de línguas que reinava na família Marx –, porém acabou se decidindo pelo inglês. "Eu queria que o que é engraçado na obra funcionasse", diz Dove. "Embora eu entenda alemão mais ou menos, estou a quilômetros de ser capaz de musicar textos alemães de forma divertida. Em inglês, porém, sei distribuir as palavras de modo que se entenda a piada."

Diretor Jürgen R. Weber

Diretor Jürgen R. Weber: "Mesmo não se conseguindo ver o fundo, pode ser que seja raso"

"Eu só sei de uma coisa: marxista eu não sou", dizia o autor do Manifesto Comunista. Pode-se entender essa frase como o ponto de partida para Marx in London. O teatro musical de Dove, Hart e Weber não é chanchada que provoque gargalhadas, mas sim uma sutil comédia de costumes.

Legendas em alemão acompanham a ação cênica da Ópera de Bonn, e entender Marx in London  não exige conhecimentos históricos profundos, mas apenas abertura para acompanhar os coloridos sons orquestrais. E, claro, apreciar o canto de Mark Morouse como Marx, Yannick-Muriel Noah como sua esposa Jenny, Marie Heeschen como a filha Tussi. Christian Georg representa o filho ilegítimo Freddy, Ceri Williams, a governanta Helene e Johannes Mertes é Friedrich Engels.

Um dos maiores pensadores alemães foi parar na Inglaterra após muitos altos e baixos, sendo sepultado lá. A atual produção, em cooperação com a Scottish Opera, pode ser vista como um presente à terra natal de Karl Marx, 200 anos após seu nascimento.

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