Na ONU, o mesmo Bolsonaro de sempre | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 21.09.2021

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Política

Na ONU, o mesmo Bolsonaro de sempre

Em discurso, presidente voltou a mentir e a recorrer a teorias conspiratórias como havia feito em outros encontros na ONU. Mas especialistas apontam que desta vez falas pelo menos evitaram tom de confronto com potências.

UN Vollversammlung in New York | Jair Bolsonaro

Presidente usou discurso para se comunicar com sua base e "vender" país a investidores

O Jair Bolsonaro que discursou na abertura da 76ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira (21/09), foi o mesmo de sempre, com referências a teorias de conspiração, informações falsas e ultraconservadorismo. Mas sua fala teve um "leve toque de Itamaraty" na forma, um tom abaixo dos discursos dos dois anos anteriores e com um verniz de "Fórum de Davos" para tentar vender o país a investidores.

Esta é a avaliação de três especialistas em relações internacionais ouvidos pela DW Brasil. Eles ressaltam que o conteúdo do discurso de Bolsonaro manteve a espinha dorsal que guiou a campanha eleitoral do presidente e de seus dois anos e nove meses de governo, com pequenas adaptações para o contexto atual.

Moderado? Longe disso

Felipe Loureiro, professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) avalia que, em comparação com os discursos de Bolsonaro na ONU em 2019 e em 2020, o deste ano teve uma "leve moderação no tom", mas não foi uma fala moderada.

"Logo no início, Bolsonaro fez referência à questão de ter salvado o país do socialismo, aos empréstimos do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] ao que ele chamou de países comunistas. Você percebe uma estrutura de salvacionismo emoldurada em teorias de conspiração, meio implícitas, mas que estão presentes ali", afirma.

Para ele, a fala do presidente deste ano dirigiu-se mais à sua base do que fez uma tentativa de "recuperar o que é muito difícil de ser recuperado da imagem internacional do Brasil". "Considero um discurso claramente radical, que fala para a sua base, em tratamento precoce, em livrar o país do socialismo, governar de acordo com a família tradicional, salvar o Brasil de algo que agora supostamente estaria a salvo em razão do governo Bolsonaro", disse.

Dawisson Lopes, professor de relações internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tem avaliação semelhante: "Bolsonaro voltou a insistir nos seus principais cavalos de batalha, tratamento precoce para covid, culpar governadores e prefeitos, os indígenas querem se aculturar e explorar o espaço agrícola, a base da civilização é a família. Isso não é o nosso discurso diplomático."

Ele avalia que o discurso do presidente foi "bifronte" e buscou, além de sua base de apoio, incluindo setores religiosos e militares, a atenção de investidores internacionais.

Dedo no Itamaraty na "forma"

O discurso deste ano foi o primeiro de Bolsonaro com o novo chefe do Itamaraty, Carlos França, que substituiu no final de março o ex-chanceler Ernesto Araújo, figura próxima ao ideólogo do presidente e radical Olavo de Carvalho.

Em 2019, Bolsonaro adotou na ONU um tom de confronto similar ao da sua campanha no ano anterior, denunciou a ameaça de um suposto "globalismo" e adotou forte tom religioso, afirmando que "a ideologia invadiu a própria alma humana para dela expulsar Deus". No ano seguinte, o presidente culpou os indígenas e caboclos por incêndios na Amazônia e disse que era necessário combater a "cristofobia".

Havia expectativa sobre se França iria moderar a apresentação de Bolsonaro neste ano. Na avaliação de Lopes, da UFMG, o novo chanceler não teve qualquer impacto na "substância e no conteúdo" do discurso. O que foi um pouco diferente, diz, foi a maneira como algumas questões, especialmente sobre negócios e investimentos, foram formatadas. "Aí acho que tem digitais do Itamaraty e uma contribuição da nossa máquina diplomática, mas é um discurso muito para Fórum de Davos", que tenta "vender" o Brasil para o investidor internacional, diz, diferente do tom usual na ONU.

Pedro Brites, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), observa que a referência feita por Bolsonaro à pretensão do Brasil a assumir uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU reflete também um elemento tradicional da política externa brasileira e pode indicar "um maior respeito ao Itamaraty." Ele descarta, porém, grandes mudanças sob o novo chanceler, e menciona que França foi gravado nesta segunda-feira em Nova York fazendo o gesto de arma com a mão, sinal claro de alinhamento a Bolsonaro.

Menos confronto com Europa e Estados Unidos

Brites avalia que, na questão ambiental, Bolsonaro deixou de lado o confronto aberto com outros países e buscou apresentar dados – errados – que supostamente justificariam a imagem de um país que protege seu meio ambiente.

Na Assembleia-Geral de 2019, Bolsonaro vinha de uma troca de farpas com o presidente francês, Emmanuel Macron, em meio ao desmatamento e às queimadas na Amazônia, e disse que "um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa e com espírito colonialista". Naquele ano, Bolsonaro também mencionou que Alemanha e França usavam 50% de sua área para agricultura, enquanto o Brasil somente 8%.

"Neste ano não teve uma confrontação tão direta com a França e a Alemanha. Embora a gente saiba que ele trouxe dados imprecisos, ou fazendo recortes que favoreciam a comparação que o governo queria construir", diz Brites.

Bolsonaro disse nesta terça que o desmatamento na Amazônia em agosto havia sido 32% menor que o de um ano anterior, quando os dados mostram um cenário diverso. Em agosto, a Amazônia perdeu área equivalente a cinco vezes o tamanho de Belo Horizonte, o maior índice para o mês em dez anos, e o desmatamento acumulado desde janeiro de 2021 é o pior em uma década, segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Brites também observa que a ausência no discurso de críticas ao "globalismo", que foi forte em 2019, é um reflexo da derrota do presidente americano Donald Trump nas eleições do ano passado, que forçou o Brasil a adotar uma postura menos agressiva com a agenda do atual presidente Joe Biden.

"Há uma nova conjuntura com a chegada de Biden, o Brasil está bastante isolado hoje, e tem que se adequar no discurso. Não foi tão confrontacionista com as perspectivas do governo americano", diz.

De novo, defesa do tratamento precoce

O discurso deste ano também repetiu teses de Bolsonaro sobre a pandemia, e a defesa do chamado "tratamento precoce", que não tem eficácia contra a covid-19 e pode agravar o estado de saúde dos pacientes.

O presidente também fez, segundo Loureiro, da USP,  uma "distorção evidente" do papel dos governos estaduais e municipais na pandemia e da decisão do Supremo Tribunal Federal que reconheceu a autonomia desses entes governamentais de também definir regras sobre distanciamento social.

"O fato de ele ter trazido de novo o tratamento precoce repercutiu muito mal. É o Bolsonaro tentando conversar com a sua base", diz Brites, da FGV. "Há uma mudança muito sutil, e não me parece indicação de moderação do governo."