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Royal Concertgebouw Orchestra – em carne e ossoFoto: Anne Dokter

Música erudita se aventura no mundo dos aplicativos

Augusto Valente
20 de setembro de 2013

Orquestra Concertgebouw lança magazine para iPad comemorando 125 anos de história. Primeiro número: "Mozart na estrada". E app da Deutsche Grammophon explora em profundidade a "Nona" de Beethoven.

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Que futuro tem a orquestra sinfônica, num século 21 digital, meteórico, globalizado? Como integrar, na onda de mobilidade etérea, mais de uma centena de pessoas de carne e osso, especializadas em instrumentos de madeira e metal, com os quais tocam música de vários séculos atrás?

Cada deslocamento espacial de uma orquestra é um empreendimento épico, exigindo transporte de toneladas de equipamento, montanhas de burocracia, lidar com temperamentos e idiossincrasias. Difícil imaginar algo menos apto a ser pulverizado em bits & bytes, tornado internavegável e conquistar a esfera global, do que um dinossauro logístico dessa ordem.

Mas o mundo da música clássica já começa a se movimentar para abrir a seu seleto público novas janelas. Seja por concertos por streaming, como vem fazendo a Filarmônica de Berlim; com um magazine virtual, como lançou nesta semana a holandesa Concertgebouw; ou com os apps móveis que exploram a fundo obras centrais do repertório erudito.

Ação local não basta

Em relação à assistência in loco, as perspectivas são animadoras para os sinfônicos: os lugares das grandes salas de concertos e casas de ópera do mundo são disputados à unha, os turistas musicais não hesitam em atravessar continentes e oceanos para lotá-las. Um exemplo extremo é o Festival Wagner de Bayreuth, com uma lista de espera de até 12 anos.

Mas, por mais que espectadores de todo o mundo acorram às bilheterias, cada concerto lotado não passa de uma vitória local para o microcosmo sinfônico. Mesmo para a Royal Concertgebouw Orchestra (RCO), de Amsterdã, que pertence ao primeiro escalão, tem milhares de fãs por todo o mundo e vive em turnês.

"Na prática, porém, só nos apresentamos na Alemanha umas cinco vezes por ano, no Japão, de dois em dois anos", reconhece David Bazen, diretor de negócios e de mídia da instituição, em entrevista à Deutsche Welle. Para ele, trata-se de uma gritante lacuna.

Streaming a partir de Berlim

Levar música a todas as partes do planeta, sem limites de hora, formato ou local, possivelmente ao vivo, tem sido um sonho de longa data. O qual, no entanto, só se tornou viável em anos recentes, graças à expansão da internet de banda larga – e, prosaicamente, das assinaturas de tarifa plana.

A Filarmônica de Berlim é pioneira no campo da difusão da música erudita pelas mídias digitais. Lançado em 2008, seu Digital Concert Hall oferece concertos ao vivo e on demand, gravados com sete câmeras, em som e imagem de alta qualidade.

E com sucesso é crescente: se o primeiro concerto virtual ao vivo contou com 2.500 espectadores – pouco mais que a lotação física da grande em Berlim –, entre abril de 2012 e 2013, 1,5 milhão de usuários de 100 países visitaram a sala virtual.

"RCO Editions": janela para 125 anos de história

Screenshot der App Beethoven's 9th
"RCO Editions" permite dividir monitor do tablet para visualizar conteúdos simultaneamenteFoto: RCO Editions

A Concertgebouw chegou a considerar uma oferta de streaming nessa linha. No entanto, a complexidade técnica e uma desencorajadora relação custo-benefício fizeram-na recuar, como explica Bazen, responsável pela criação do selo fonográfico RCO-Live, de gravações audiófilas.

O especialista em marketing propôs, então, outro caminho para a "fidelização" de sua clientela: abrir uma janela para dentro do mundo da orquestra, através de um magazine virtual em forma de aplicativo. Pois o que não faltam à instituição são histórias para contar.

Em 2013, a sala de concertos Concertgebouw de Amsterdã comemora 125 anos de existência. Sua Koninklijk Concertgebouworkest foi fundada em 1895, sob a direção do maestro Willem Mengelberg (1871-1951), tendo estreado obras de compositores como Gustav Mahler e Richard Strauss. Sucedendo a Bernard Haitink e Riccardo Chailly, o atual regente titular da RCO é o letão Mariss Jansons.

Homenagem a um globe-trotter

Como parte das comemorações do jubileu, o primeiro número da RCO Editions para o iPad foi lançado na última quarta-feira (18/09). Sua opção editorial é tomar um tema universal – corporificado por um determinado compositor ou obra – como ponto de partida para uma viagem pelo mundo da música erudita.

Inteiramente gratuita, a primeira edição se intitula Mozart on the road. Pois, assim como os modernos músicos sinfônicos, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) era um globe-trotter. Desde o início, como menino-prodígio, a vida profissional o levou aos quatro cantos da Europa: da Baviera a Praga, de Londres a Haia e Paris, de Zurique a Salzburgo, e mais além.

O núcleo do magazine que celebra a mobilidade são execuções ao vivo, pela RCO, de duas sinfonias de Mozart: a Nº 31, "Paris" e a Nº 38, "Praga", sob John Eliot Gardiner e Giovanni Antonini, respectivamente. Ambos os maestros também tomam a palavra, em vídeo, no aplicativo, para examinar a música mozartiana e sua interpretação.

A seguir, "Morte e transfiguração"

Ao lado de toda a ênfase no aspecto audiovisual e na simultaneidade, como convém ao veículo, a RCO Editions não negligencia o aspecto jornalístico-literário. Os textos incluídos, em inglês e holandês, vão de ensaios analíticos, encomendados especialmente – como Um encontro com Don Giovanni: Casanova, Mozart e Da Ponte, de Ian Kelly –, a cartas do compositor ao pai, e a novela A viagem de Mozart a Praga, de Eduard Möricke (1804-1875).

Além de uma hora extra de música e vídeo, gravados na venerável sala de concertos holandesa, o magazine concede espaço ainda, como contraste, a Joseph Haydn – um contemporâneo de Mozart que nunca viajou.

Em novembro próximo, o segundo número da RCO Editions, Into the light (Entrando na luz), aborda o tema morte, cristalizado no poema sinfônico Tod und Verklärung, de Richard Strauss.

Screenshot der App Beethoven's 9th
"Beethoven's 9th" se concentra na visualização e análise de uma obra icònicaFoto: Deutsche Grammophon & Touch Press

A " Nona " como app

Não são apenas as orquestras a apostar na informação em profundidade, como estratégia para atrair consumidores para a música erudita. Como indica o título, a app Beethoven's 9th Symphony ou B9, lançada pela gravadora Deutsche Grammophon e a editora digital Touch Press, foca numa única obra, iluminando-a de diversos ângulos.

Ao contrário do aplicativo da Concertgebouw, concebido exclusivamente para o iPad, B9 também funciona em smartphones. Seu núcleo são quatro gravações da Nona sinfonia, de Ludwig van Beethoven (1770-1827) – obra cujo status icônico dispensa apresentações.

Numa linha de tempo, o usuário pode alternar livremente entre as contrastantes interpretações de Ferenc Fricsay (de 1958), Herbert von Karajan (1963), Leonard Bernstein (1979) e John Eliot Gardiner (1992).

A comparação entre os diferentes andamentos, nuances interpretativas, até mesmo afinações, já é, em si, uma delícia para leigos e conhecedores. E o fascínio auditivo é complementado pela visualização da música, tanto na forma de partitura orquestral, como de linhas coloridas, representando graficamente as alturas e ritmos e os diferentes grupos instrumentais.

Outra possibilidade é acompanhar a obra através da análise musicológica detalhada de David Owen Norris. O trajeto pela sinfonia em quatro movimentos – composta em 1824 e que culmina na célebre Ode à Alegria – se completa com duas horas de entrevistas com regentes, instrumentistas, compositores e jornalistas.

"São só 2 mil assinantes em dez países..."

Cultura aprofundada será o truque certo para aproximar da música clássica os velozes internautas do século 21 e seus fugidios limiares de atenção? A questão fica em aberto, até segunda ordem. No caso da RCO Editions, o prestígio internacional da orquestra felizmente lhe permite assumir os riscos de um experimento ambicioso – ainda que por prazo limitado.

Royal Concertgebouw Orchestra
David Bazen, diretor de negócios e mídia, é "pai" do aplicativo da RCOFoto: Jouk-Oosterhof

Potencial ampliação de público à parte, o diretor David Bazen reconhece que a instituição para que trabalha "não pode sangrar" em nome do idealismo do projeto – cujos custos alcançam 200 mil euros, só em técnica e infraestrutura, fora a produção dos vídeos, que é financiada pela associação de amigos do Concertgebouw.

Esse modelo financeiro deve ser mantido por três anos, após os quais a viabilidade do projeto será reavaliada. Bazen confessa às vezes perder o sono, temeroso do futuro de sua iniciativa. Mas então se acalma. "Com 20 mil assinaturas em quatro anos, a RCO Editions está garantida. E aí eu penso: 'Ora, são 2 mil pessoas em dez países. Claro que vamos conseguir!'"