″Lobby das armas tem grande poder no governo Trump″ | Notícias internacionais e análises | DW | 04.10.2017
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Mundo

"Lobby das armas tem grande poder no governo Trump"

Maior chacina da história recente dos Estados Unidos gera novo debate sobre controle de armas. Para David Hemenway, professor em Harvard, o presidente não deverá endurecer as leis de posse e porte no país.

Arma semiautomática na loja North Raleigh Guns

Vendedor demonstra funcionamento de um "bump stock", que poderia ter sido usado pelo autor do massacre, Stephen Paddock, para transformar uma arma semiautomática numa que simula os tiros de um rifle automático

Com 59 mortes e mais de 500 feridos, o assassinato em massa em Las Vegas trouxe à tona novamente o debate sobre o controle da posse e do porte de armas nos Estados Unidos, num movimento similar ao que aconteceu em outros massacres no país.

Leia também: Connecticut endurece controle sobre armas, mas lei nacional segue distante

Polícia tenta desvendar motivação para massacre de Las Vegas

Entrevistado pela DW, David Hemenway, professor de políticas de Saúde na Universidade de Harvard, não acredita que o tiroteio num concerto de música country na cidade do estado de Nevada vá mudar a realidade das armas nos EUA.

Um dos motivos, segundo o diretor do Centro de Pesquisas sobre o Controle de Ferimentos na mesma instituição, é que o lobby de armas é muito poderoso no país e também no governo Donald Trump. 

Para Hemenway, também autor de diversos artigos e livros sobre armas de fogo e violência, "realmente é preciso que alguns conservadores corajosos digam 'basta'".

Ele também lançou o Sistema Nacional de Comunicação de Mortes Violentas, um instrumento de coleção de dados dos Centros de Controle de Doenças nos Estados Unidos.

DW: Como o senhor avalia o tiroteio em Las Vegas, que levou ao que já é considerado o maior massacre da história recente dos EUA?

David Hemenway: É mais um horrível tiroteio em massa. Cada um deles é único, tem suas próprias características, mas é comum esses ataques serem perpetrados por homens e o autor do ataque cometer suicídio após matar muitas pessoas. O que é interessante aqui é que [a chacina em Las Vegas] mostra que matar à distância é muito fácil. Também mostra a importância do ruído dos disparos. Do contrário, ele [Stephen Paddock, autor do ataque que deixou 59 mortos e pelo menos 500 feridos] teria conseguido matar ainda mais gente antes que as pessoas se dessem conta de que algo terrível estava acontecendo.

Pessoas correm para se proteger dos tiros disparados por Paddock durante concerto de música country no último domingo (01/10)

Pessoas correm para se proteger dos tiros disparados por Paddock durante concerto de música country no último domingo (01/10)

O que normalmente acontece após assassinatos em massa como este, nos Estados Unidos, é que começa um debate sobre o controle de armas no país. O senhor espera que isso aconteça desta vez?

Sim, haverá uma discussão, mas os Estados Unidos não fizeram quase nada no plano federal para controlar as armas, exceto tornar ainda mais fácil a aquisição delas para todo mundo. E agora todas as áreas do governo são controladas por pessoas que parecem estar alinhadas demais com o lobby das armas. Eu acho que nada vai acontecer no nível federal [para aumentar o controle de armas no país].

Em sua declaração sobre o tiroteio, o presidente Donald Trump – que, durante a campanha presidencial, afirmou que tornaria as leis de armamento mais flexíveis – se absteve de fazer afirmações políticas. Que papel o senhor espera que ele desempenhe no debate sobre o controle de armas?

Eu não sei. Ele é um pouco imprevisível em suas decisões políticas. Mas o lobby de armas parece ter grande poder em seu governo, então eu não espero que ele faça qualquer coisa para endurecer as leis antiarmamento.

Muitas pessoas fora dos EUA não compreendem por que, após esses assassinatos em massa, nada ou muito pouco parece acontecer para evitar que massacres como esse aconteçam novamente. O que precisa acontecer para motivar mudanças?

Sinto que é preciso que alguns [políticos] conservadores corajosos se manifestem. Foi o que aconteceu na Austrália. Depois do massacre de Port Arthur, o primeiro-ministro conservador se manifestou e disse: "Temos que fazer alguma coisa." Nos Estados Unidos, seria algo como abrir a China quando eu era jovem. Aconteceu apenas porque Richard Nixon, que era um conservador, foi para lá. Se um liberal tivesse tentado abrir a China, não teria funcionado. Então realmente é preciso que alguns conservadores corajosos digam "basta". Mas isso não aconteceu e eu não vejo isso acontecendo ainda.

Assistir ao vídeo 00:59

O massacre em Las Vegas

Se o senhor não espera mudanças em nível nacional, espera alguma no plano estadual?

Após [a tragédia na escola] Sandy Hook, o que aconteceu foi que, nos estados que havia leis fortes, as leis ficaram ainda mais severas, e nos estados com leis mais fracas a legislação ficou mais leniente. E os estados com leis fracas têm muito mais armas e muito mais mortes por armas de fogo.

Muitas pesquisas realizadas ao longo dos anos indicam que a maior parte dos americanos na verdade apoiariam leis mais severas de controle de armas. Se esse for mesmo o caso, por que não existem leis mais rígidas?

Sim, esse sempre foi o caso nos últimos 20 anos e nada aconteceu no nível federal. Eu acho que, nos Estados Unidos, lobbies individuais como o da NRA [sigla em inglês para Associação Nacional de Rifles] possuem um grande poder. E a liderança da NRA não representa as crenças dos membros da NRA no que diz respeito a assuntos relacionados a políticas, diretrizes. Mas a liderança desse tipo de lobby individual costuma ser mais radical do que os seus membros.

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