Investimento bilionário amplia presença chinesa no Brasil | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 19.05.2015
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages
Publicidade

Brasil

Investimento bilionário amplia presença chinesa no Brasil

Aporte simboliza novo patamar nas relações bilaterais e sela interesse de Pequim em se estabelecer como fonte de investimento estrangeiro. Se este será um bom negócio para o Brasil, vai depender de nuances na negociação.

Li Keqiang e sua esposa chegam ao Brasil nesta terça-feira (19/05), primeira parada do chinês pela América Latina

Li Keqiang e sua esposa chegam ao Brasil nesta terça-feira (19/05), primeira parada do chinês pela América Latina

A visita ao Brasil do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, com a intenção de investir cerca de 53 bilhões de dólares no país eleva as relações entre Brasília e Pequim a um novo patamar e pode ampliar a presença dos chineses no país.

Antes centrada na compra de commodities brasileiras e na pequena participação de empresas chinesas na exploração do megacampo de petróleo Libra, no pré-sal, agora os chineses pretendem investir de forma maciça em infraestrutura: ferrovias, portos, aeroportos, rodovias e hidrelétricas.

Ainda não está claro como o investimento "estratosférico", nas palavras de José Alfredo Graça Lima, subsecretário-geral do Itamaraty, será realizado. Mas é provável que seja por meio da compra de participação em negócios nos futuros leilões de concessão de infraestrutura, a serem divulgados pela presidente Dilma Rousseff no início de junho, ou por meio de financiamentos de bancos chineses a obras do tipo.

"O gigantismo comercial da China, que há dois anos se converteu na maior exportadora e importadora do mundo, não se fez acompanhar do papel do país como grande fonte de investimentos estrangeiros diretos", afirma Marcos Troyjo, diretor do BricLab da Universidade de Columbia. Agora o país estaria buscando compensar essa lacuna.

O anúncio de investimentos no Brasil segue na esteira da concretização do plano da China de elevar os investimentos na América Latina para 250 bilhões de dólares na próxima década. A promessa havia sido feita pelo presidente chinês, Xi Jiping, num discurso em janeiro aos chefes de Estado e governo dos países-membros da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac).

Investimento bem-vindo

O dinheiro chinês chega num momento em que o Brasil implementa diversos cortes no orçamento e no investimento em infraestrutura. Segundo Márcio Sette Fortes, professor de relações internacionais do Ibmec/RJ e ex-diretor da Câmara de Comércio Brasil-China, esse dinheiro é essencial para contribuir com o reaquecimento da economia.

"O Custo Brasil tem a chance de diminuir com a presença maciça do capital chinês. Isso não melhora a tributação ou diminui a corrupção, mas contribui para reduzir custos logísticos e de infraestrutura precária," afirma.

Li e a presidente Dilma deverão assinar em Brasília cerca de 30 acordos, entre eles diversas parcerias de investimentos e a ampliação do comércio entre os dois países.

Entre um dos projetos possíveis está a construção da ferrovia Transoceânica, que deve ligar o Porto do Açu, no Rio de Janeiro, ao Porto de Ilo, na costa do Peru. O corredor de trilhos entre os oceanos Atlântico e Pacífico vai abrir uma saída para os produtos brasileiros como grãos e carnes para o Pacífico, sem que a carga precise passar pelo Canal do Panamá. O objetivo é tornar as mercadorias mais competitivas e com um menor custo também para a China.

A proposta gera polêmica por conta do elevado custo da construção, que passará pela Cordilheira dos Andes, e pelo impacto ambiental, já que a linha férrea teria que passar pela região amazônica brasileira e peruana. Segundo Graça Lima, a ferrovia deverá ficar pronta entre três e quatro anos. O valor ainda não foi calculado, mas há estimativas de que a conexão, de cerca de 5,3 mil quilômetros, chegue a custar cerca de 10 bilhões de dólares.

Amazonas Soja Plantage Archiv 2013

Ferrovia Transoceânica facilitará o transporte de commodities, entre elas a soja, para a China

Ganhos e riscos

A nova fase da parceria bilateral terá deve aumentar a presença de empresas chinesas no país, de olho no potencial do mercado brasileiro. Exemplos recentes são as montadoras Chery, que inaugurou uma fábrica no Estado de São Paulo em 2014, e JAC Motors, que inaugurará uma fábrica na Bahia em 2016. A China vê no Brasil também uma plataforma de exportação para outros países latino-americanos.

Para Ana Soliz de Stange, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), em Hamburgo, o Brasil e os países vizinhos ganham com o desenvolvimento de projetos de infraestrutura que antes eram postergados. Mas também há risco de um desfecho negativo.

"Vai depender da maneira como o Brasil e os outros países vão negociar cada um dos projetos: se a mão de obra será latino-americana ou chinesa, se eles vão se comprometer a respeitar as leis trabalhistas e se, em projetos como a ferrovia Transoceânica, o controle e a administração serão mantidos, majoritariamente, nas mãos dos governos latino-americanos", afirma Stange.

Uma das parcerias a ser assinada nesta terça-feira (19/05) deverá concretizar a venda de 22 aviões da Embraer a duas empresas aéreas chinesas, como parte dos 60 jatos já negociados no ano passado, durante a visita de Xi Jinping. Outro anúncio deverá ser a abertura do mercado da China à carne bovina brasileira, restrito desde o final de 2012, quando foi registrado no Brasil um caso atípico do chamado "mal da vaca louca".

Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil. Em 2014, as trocas comerciais totalizaram 77,9 bilhões de dólares, e o Brasil obteve superávit de 3,3 bilhões de dólares. Esta é a segunda vez que um alto líder chinês vai à região em menos de um ano, depois da visita do presidente chinês ao Brasil, à Argentina, Venezuela e Cuba.

Destino: América do Sul

Depois da visita ao Brasil, o primeiro-ministro chinês e a sua comitiva de 120 empresários seguirão para Colômbia, Peru e Chile – países que fazem parte da Aliança do Pacífico, bloco econômico que também desperta interesse da China por oferecer boas oportunidades de negócios e investimentos para o gigante asiático.

Em Bogotá, Li deverá firmar convênios para intensificar a cooperação em investimentos, infraestrutura, agricultura e comunicações. Em Lima, o ponto principal será a ferrovia Transoceânica e dezenas de acordos em setores como energia e agricultura. Na última parada, Chile, país que detém um acordo de livre-comércio com Pequim desde 2005, Li deve aprofundar as conversas para fechar tratados nas áreas de energia solar e eólica.

_____________________________________

Correção: 20/05/2015

Diferentemente do informado na versão inicial desta reportagem, a Ferrovia Transoceânica ligará o Porto do Açu (Rio de Janeiro), e não o Porto de Santos, à costa do Peru. A previsão é de que a ferrovia terá 5.300 km de extensão, e não 3.500 km. O texto foi corrigido.

Leia mais