1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
Symbolbild Goethe Institut
Foto: Swen Pförtner/dpa/picture alliance

Instituto Goethe completa 70 anos

Stefan Dege
23 de novembro de 2021

Fundada em 1951, instituição de promoção da cultura alemã no exterior refletiu a trajetória e as mudanças no país europeu nos últimos 70 anos. Hoje, o Goethe tem 158 sedes no mundo, cinco delas no Brasil.

https://www.dw.com/pt-br/instituto-goethe-completa-70-anos/a-59911699

O Instituto Goethe completa 70 anos. A instituição alemã sem fins lucrativos é o bastião da divulgação da língua e da cultura alemã por meio do intercâmbio internacional e de programas culturais e educacionais – atualmente, o Instituto Goethe possui 158 repartições em 98 países mundo afora.

E tudo começou na Alemanha do pós-guerra em 1951, quando o Instituto Goethe foi fundado em Munique – seis anos após seu antecessor ter sido forçado a fechar as portas. A precursora, chamada "Deutsche Akademie" (Academia Alemã, na tradução literal) e fundada em 1925, tinha sido convertida em uma ferramenta do Estado nazista. 

Foi somente no final da Segunda Guerra que os ocupantes americanos dissolveram o que acreditavam ser o "centro de propaganda e espionagem em toda a Europa" dos nazistas. Mais de meia década depois, o restabelecimento do Instituto Goethe marcava também um novo começo político na Alemanha.

Ferramenta de prestígio cultural

Num primeiro momento, o Instituto Goethe trazia professores alemães de todo o mundo à Alemanha para treiná-los. Mas o ensino do idioma alemão no exterior rapidamente ganhou destaque. Para tal, foram lançados institutos ao redor do mundo – o primeiro em Atenas, em 1952. Até 1961 já eram 53 institutos no exterior, entre eles a primeira repartição no Brasil, fundada no Rio de Janeiro oficialmente em 18 de maio de 1975 – hoje, além da representação carioca, o Instituto Goethe está presente também em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo e Salvador.

Ministro do Exterior da Alemanha, Heiko Maas, em visita ao Instituto Goethe de Salvador, em 2019
Visita do ministro do Exterior da Alemanha, Heiko Maas, em 2019, ao Instituto Goethe de Salvador Foto: picture-alliance/dpa/F. Sommer

Entre 1958 e 1963, a África passou a ser o foco principal do Instituto Goethe, e uma rede logo se espalhou por todo o continente africano. Personalidades culturais da Alemanha eram enviadas em turnês para as bases do Instituto Goethe ao redor do mundo – por exemplo, o músico de jazz Albert Mangelsdorf encantou partes da Ásia com seu quarteto e deu dois shows no Brasil em 1973, assim como a música eletrônica psicodélica alemã chegou a ser apresentada e ouvida em Cabul.

Um dos capítulos mais emocionantes do histórico do Instituto Goethe certamente foi a Guerra Fria. O mundo ocidental estava basicamente dividido em dois blocos políticos armados até os dentes.

E no campo da política cultural estrangeira, a Alemanha dividida também lutava por poder e influência, mas não apenas a partir de Munique: a República Democrática Alemã (RDA), a antiga Alemanha Oriental, enviou attachés culturais do Instituto Herder – fundado em Leipzig, também em 1951 – para a corrida cultural e abriu centros culturais e de informação no exterior, que também ofereciam cursos de alemão.

Alguns competiram diretamente com o Instituto Goethe. A competição político-cultural entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental prosseguiu até a queda do Muro de Berlim, em 1989.

Papa Francisco aprendeu alemão no Goethe

O Instituto Goethe gerou debates e controvérsias já na década de 1970. Em Londres, uma exposição do artista Klaus Staeck, financiada pelo Instituto Goethe, causou polêmica: uma colagem mostrava o então presidente da União Social Cristã (CSU), Franz Josef Strauss, afiando resolutamente sua faca acompanhado da seguinte frase: "A Guerra Fria está nos deixando excitados".

Políticos ficaram indignados por terem sido insultados com uma obra financiada com dinheiro dos contribuintes. Em 1977, o Instituto Goethe foi alvo de terroristas de esquerda que realizaram ataques às instalações da instituição em Paris e Madri.

Em meados da década de 1980, o clérigo argentino Jorge Mario Bergoglio aprendeu alemão no Instituto Goethe de Boppard, uma pequena cidade ao pé do rio Reno, na Renânia-Palatinado. Com a família que o acolheu em sua residência na época, o hoje papa Francisco mantém uma amizade e uma correspondência até os dias atuais.

Outro excerto marcante na história do Instituto Goethe ocorreu em 1987. O comediante Rudi Carell – nascido na Holanda, mas que fez carreira na Alemanha – causou um alvoroço diplomático por um esquete na TV sobre o oitavo aniversário da revolução iraniana que mostra, de forma editada, o público nas ruas jogando lingerie para o aiatolá Khomeini.

No dia seguinte, o Irã deportou dois diplomatas alemães e cancelou todos os voos para a Alemanha Ocidental. O Instituto Goethe de Teerã teve que ser fechado temporariamente.

Expansão para a Europa Oriental

Com a queda da Cortina de Ferro, em 1989, o Instituto Goethe começou a se assentar também na Europa Oriental. Os primeiros institutos foram instalados nos países do antigo bloco soviético. Por fim, em 1992, o que outrora parecia inimaginável, o então ministro alemão das Relações Exteriores Klaus Kinkel inaugurou o Instituto Goethe em Moscou. E também no antigo território político da RDA o Instituto Goethe acabou por crescer.

Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 também mudaram o trabalho no Instituto Goethe – o diálogo intercultural e o entendimento subiram ao topo da agenda de prioridades. O Instituto Goethe passa a ter como foco o fortalecimento da sociedade civil e a prevenção de conflitos.

"No trabalho cultural, nosso maior desafio é o que é chamado em inglês de 'shrinking spaces' (encolhimento de espaços, na tradução livre), ou seja, o aumento de tendências iliberais, regimes autoritários que estão cada vez mais tentando encontrar formas de limitar os espaços para as atividades artísticas e controlam as atividades intelectuais", disse a atual presidente do Instituto Goethe, Carola Lentz.

Para o Instituto Goethe isso significa descobrir onde o trabalho ainda pode ser feito e onde não – como é o caso atualmente em Belarus. Segundo Lentz, continua a ser importante "desenvolver formatos que, apesar de tudo, permitam trocas e encontros".

Lentz é etnólogo e especialista em África – cientista por convicção. Há exatamente um ano, ela está à frente do Instituto Goethe, que, segundo ela, leva ao mundo "uma imagem muito diversa, diferenciada e multifacetada da Alemanha, caracterizada pelo retraimento e pela escuta".

"Não somos os sabichões globais do mundo", enfatizou. Em vez disso, trata-se de desenvolver respostas conjuntas a questões globais junto com parceiros. "Com os diversos e extremamente emocionantes projetos literários, musicais, pictóricos e artísticos, que naturalmente também gostamos de mostrar, buscamos entrar em contato com pessoas de outras sociedades", disse Lentz.