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Líder verde alemã Ricarda Lang em videoconferência
Líder verde Ricarda Lang: "É um soco no estômago"Foto: Kay Nietfeld/dpa/picture alliance

Guerra força verdes alemães a redefinirem prioridades

William Noah Glucroft | Jens Thurau
1 de abril de 2022

Antiguerra, antinuclear, pró-planeta: os tempos estão duros para o Partido Verde alemão se manter fiel a todos os seus princípios. No governo em meio a megacrise, ele se vê diante de decisões envolvendo energia e armas.

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Não é fácil ser verde. Por estes dias, ninguém sente isso tão nitidamente quanto o ex-copresidente do partido ambientalista Robert Habeck. Na qualidade de ministro da Economia e Ação Climática da Alemanha, sua tarefa é supervisionar as exportações de armamentos e garantir o abastecimento de energia para o próprio país.

Suas enormes responsabilidades o transformam numa figura central da "Zeitenwende"(virada de época) alemã, termo que o chanceler federal Olaf Scholz usou para definir o impacto que a invasão da Ucrânia pela Rússia tem sobre a política externa do país e sua posição no mundo.

O Partido Verde entrou para o governo de coalizão em 2021 prometendo dar fim à procrastinação no combate à mudança climática, típica da era de Angela Merkel. Suas aspirações foram um pouco abafadas durante as negociações de coalizão com os partidos Social-Democrata (SPD) e Liberal Democrático (FDP). Ainda assim, conseguiram antecipar o abandono da energia de carvão mineral de 2038 para "idealmente" 2030, e da neutralidade carbônica de 2050 para 2045.

No entanto, o país que se governa é o país que se recebeu. Numa coletiva de imprensa no ano corrente, Habeck já moderava as expectativas, com gráficos mostrando quanto atraso a Alemanha ainda tem que tirar em relação ao clima. Pode-se praticamente esquecer as metas climáticas nacionais para 2022 e 2023, disse.

Isso foi antes de a inflação e os preços da energia, ambos já alcançando recordes absolutos, saltaram ainda mais alto devido à guerra de Vladimir Putin e as dramáticas sanções do Ocidente, em resposta. E antes de a Alemanha ter que se preocupar seriamente se Moscou vai cortar o gás natural de que ela tanto precisa.

Vitória do pragmatismo

"Nós sabíamos, ou devíamos ter sabido, que não só é burrice colocar todos os seus ovos na cesta de um só país, mas tampouco foi muito boa ideia colocá-los na desse país", comentou o ministro alemão da Economia na última semana de março, numa conferência sobre energia em Berlim, referindo-se à depência alemã do gás da Rússia.

Consequentemente a crise global do clima, de longa data, passou para segundo plano, perante a imediata crise de segurança europeia, pelo menos por enquanto. Habeck fechou acordo para compra de gás e óleo com o Catar e os Emirados Árabes Unidos; seu partido consentiu aos planos do governo de uma redução temporária dos impostos sobre o gás.

Além disso, transcorrem negociações, tanto com aliados quanto com companhias alemãs e internacionais, sobre como aumentar o abastecimento de combustíveis fósseis, a fim de manter as luzes da economia acesas e as casas da população aquecidas durante o próximo inverno.

Nada disso, afirmam o ministro e outras autoridades, será em detrimento das ambições de Berlim para combater a crise climática. Falando ao parlamento alemão em março, Scholz afirmou: "Só há uma resposta sustentável para a independência energética e os preços altos da eletricidade: energias renováveis e eficiência energética."

Contudo, medidas mais acessíveis, que há muito os verdes vêm reivindicando – como um limite de velocidade generalizado nas autoestradas do país –, seguem fora de cogitação. Embora, segundo o instituto de pesquisa econômica DIW Berlin, pudessem reduzir em 8% o consumo de gasolina.

Plano emergencial de energia é "decisão menos pior"

Ainda assim, Habeck apelou às empresas e cidadãos da Alemanha para que reduzam o máximo possível seu consumo de gás. "Estamos numa situação em que é preciso dizer claramente que cada quilowatt/hora de energia poupado ajuda", comentou à imprensa na quarta-feira (30/03), após ativar o primeiro dos três estágios de um plano emergencial para o gás, pela primeira vez na história da República Federal da Alemanha: "Vocês estão ajudando a Alemanha, estão ajudando a Ucrânia, ao reduzir seu uso de gás ou energia em geral."

Nenhuma dessas medidas cai bem no Partido Verde. Mas, segundo sua copresidente Ricarda Lang, trata-se da "decisão menos pior": "É um soco no estômago", declarou à DW em comunicado. "Mas sinto que a base partidária está extremamente cônscia das nossas responsabilidades."

Para colocar ainda mais sal na ferida, 2022, é o ano em que os verdes esperavam se concentrar na fruição de uma meta de décadas: o fim da energia nuclear na Alemanha. Habeck rechaçou categoricamente qualquer retrocesso no fechamento das usinas nucleares remanescentes.

Apesar dos novos resmungos sobre a decisão de 2011, de acelerar o abandono da energia nuclear, motivada pela catástrofe da usina de Fukushima, no Japão, e impulsionado por um movimento de protesto ambiental aliado aos verdes, especialistas em energia como Manfred Fischedick asseguram que isso não tem qualquer relação com os atuais apuros energéticos.

"Vimos nos últimos dez anos que essa decisão clara, juntamente com o plano de abandono gradual, ocasionaram uma expansão drástica das energias renováveis, inclusive a redução dos preços da fotovoltaica e eólica", lembra o diretor-gerente do think tank para sustentabilidade Wuppertal Institut.

As fontes renováveis "supercompensaram" a ausência da energia nuclear, afirmou. E como são fontes de eletricidade, não gás, a questão da dependência em relação à Rússia continuaria existindo.

Ministro da Economia alemão, Robert Habeck
Ministro da Economia verde Robert Habeck tem responsabilidades multiplicadas desde invasão russa da UcrâniaFoto: Kay Nietfeld/dpa/picture alliance

Segurança é menos sensível para verdes do que energia

Pode parecer estranho que uma legenda política nascida do movimento antiguerra apoie um enorme aumento de gastos militares, como a Alemanha pretende fazer. Durante a campanha eleitoral de 2021, os verdes se opuseram à diretriz da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para que se investisse 2% do PIB, tachando-a de "arbitrária". O partido também criticou o esquema de compartilhamento nuclear da aliança transatlântica, implicando que jatos alemães carregassem armas nucleares americanas.

O acordo de coalizão governamental de Berlim requer uma "renovada ofensiva global" de desarmamento e controle armamentista. Ao mesmo tempo, e por solicitação dos verdes, a Alemanha se comprometeu com um papel mais robusto nas políticas externas, adotando uma linha mais dura contra autocracias e violadores dos direitos humanos, incluindo a Rússia e a China.

Apesar da veia pacifista da sigla, foi o verde Joschka Fischer que, como ministro do Exterior durante a temporada anterior do partido no governo federal, advogou intervenção militar na antiga Iugoslávia, por razões humanitárias, na primeira missão de combate da Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.

Desse ponto de vista, a política de segurança é um ponto menos sensível para os verdes do que concessões energéticas. Em 2021, o próprio Habeck apelara para que se fornecessem "armamentos defensivos" para a Ucrânia – embora tenha sido forçado a retirar a declaração, perante as críticas ferozes do establishment político do país, que na época se recusava oficialmente a armar participantes de zonas de conflito ativo.

Os verdes, cuja ala mais pragmática sobrepuja a mais fundamentalista, está basicamente em paz com o papel que a força militar pode ter para fundamentar os esforços diplomáticos.

"Nossas metas básicas não mudaram", afirma o colíder partidário Omid Nouripour. "Precisamos de abastecimento militar mais eficiente, precisamos de mais cooperação europeia em segurança. E, acima de tudo, precisamos de uma expansão maciça da energia renovável, que nos torna independentes."