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Falha no WC, odor oculto: a odisseia de apuros da Artemis 2

8 de abril de 2026

O primeiro voo tripulado ao redor da Lua em mais de meio século alcançou um feito histórico – mas também revelou problemas surpreendentemente mundanos.

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A tripulação da missão lunar Artemis 2 na cápsula Orion em 2 de abril de 2026
A tripulação da missão lunar Artemis 2 durante chamada de vídeoFoto: Atlas Photo Archive/NASA/Avalon.red/IMAGO

Em 1º de abril de 2026, quatro astronautas decolaram do Centro Espacial Kennedy a bordo da cápsula Orion na missão Artemis 2, da Nasa. Cinco dias depois, em 6 de abril, a nave completou uma trajetória ao redor da Lua, algo que nenhuma missão tripulada havia voltado a fazer desde a era Apollo, em 1972. Um feito histórico, sem dúvida.

Mas por trás das imagens épicas e dos discursos sobre o futuro da exploração espacial, a missão também foi palco de uma série de contratempos domésticos a quase 400 mil quilômetros de casa: um vaso sanitário avariado, urina congelada nas tubulações e, como se não bastasse, o Microsoft Outlook falhando em plena missão lunar.

Pessoas observam a decolagem do foguete Space Launch System com a cápsula Orion a partir de uma janela no Centro Espacial Kennedy em 1º de abril de 2026.
Foguete com a cápsula Orion decola do Centro Espacial Kennedy no início da missão Artemis 2Foto: Aubrey Gemignani/NASA/ZUMA/picture alliance

WC de 23 milhões de dólares com falhas

A cápsula Orion, que leva os astronautas da missão Artemis 2, é a primeira nave espacial a dispor de um vaso sanitário. O equipamento – chamado Sistema Universal de Gestão de Resíduos (UWMS) – custou à Nasa 23 milhões de dólares e usa um ventilador de sucção para extrair os fluidos corporais na ausência de gravidade. Esse ventilador, segundo o porta-voz da Nasa Gary Jordan, citado pela revista BBC Sky at Night, o equipamento "foi reportado como avariado" logo no início da missão.

A solução chegou rapidamente: de Houston, orientaram a astronauta Christina Koch – que durante a missão se tornou a primeira mulher a alcançar a órbita lunar – por meio de uma série de procedimentos para liberar o sistema. O conserto funcionou. Mas o alívio durou pouco.

A astronauta Christina Koch testa o sistema de vaso sanitário da cápsula Orion no Centro Johnson da Nasa, em Houston
A astronauta Christina Koch testa o sistema de vaso sanitário da cápsula Orion no Centro Johnson da Nasa, em HoustonFoto: James Blair/NASA

Urina congelada

Durante o fim de semana, o diretor de voo Judd Frieling reconheceu diante dos jornalistas que o vaso sanitário voltava a apresentar problemas. A causa, desta vez, era mais pitoresca: "Parece que provavelmente temos urina congelada na linha de ventilação", explicou Frieling, citado pela emissora CNN.

Para desbloqueá-la, os engenheiros em terra idealizaram uma manobra que consistiu em girar a cápsula Orion de modo que o duto ficasse orientado para a luz solar, na esperança de que o calor ajudasse a liberar a obstrução. O plano funcionou, embora apenas parcialmente, já que o banheiro foi liberado, mas exclusivamente para resíduos sólidos.

Enquanto isso, a tripulação precisou recorrer ao chamado Urinol Dobrável de Emergência, um dispositivo longo e estreito – documentado publicamente pelo astronauta Donald Pettit – projetado especificamente para essas contingências e capaz de substituir, segundo Pettit, "a necessidade de cerca de 11 quilos de fraldas".

Horas depois, o controle da missão autorizou finalmente o uso do banheiro "para qualquer tipo de necessidade". "E a tripulação fica feliz!", respondeu Koch.

No entanto, o alívio voltou a ser breve. Em comunicações mais recentes, o controle da missão pediu novamente aos astronautas que não utilizassem o vaso sanitário e recorressem outra vez aos urinóis de contingência, segundo informou a agência de notícias EFE, citando a comunicadora Jenny Gibbons desde o centro de controle em Houston.

Misterioso odor na cabine

Às avarias mecânicas somou-se um episódio incômodo dentro do espaço reduzido da nave: um cheiro estranho que, segundo a tripulação, parecia se originar na área do banheiro. O astronauta canadense Jeremy Hansen foi o primeiro a descrevê-lo. Segundo citou o Space.com, o odor era como "quando você liga um aquecedor que ficou desligado por um tempo e sente aquele cheiro de queimado".

Koch também relatou o problema à Terra em várias ocasiões. Os técnicos revisaram os dados de potência e os sistemas de aquecimento sem encontrar anomalias, e o incidente ficou oficialmente registrado como "um odor desconhecido".

Por sua vez, a porta-voz Debbie Korth foi categórica ao afirmar que isso não representava nenhum risco para a tripulação. E acrescentou, com certa resignação: "Vasos sanitários e banheiros espaciais são algo que, todo mundo consegue entender, são sempre um desafio".

Um pote de Nutella flutua em gravidade zero na cápsula Orion
Um pote de Nutella flutua em gravidade zero na cápsula Orion minutos antes de o Artemis 2 bater o recorde de distância da Terra, em 6 de abril de 2026Foto: NASA/Bestimage/IMAGO

Em perspectiva, o banheiro do voo espacial Artemis 2 ainda é uma melhora substancial em relação às missões Apollo, nas quais os astronautas faziam suas necessidades diretamente em sacos, sem qualquer assistência mecânica, e, em mais de uma ocasião, fragmentos de matéria fecal chegaram a flutuar livremente dentro da cápsula.

Outlook falha também no espaço

Se os problemas com o banheiro renderam manchetes, o episódio tecnológico foi talvez o mais surreal. Em uma transmissão ao vivo, ouviu-se um astronauta informar à Terra com toda a naturalidade do mundo: "Vejo que tenho dois Microsoft Outlook, e nenhum dos dois funciona".

Não é tão estranho quanto parece. Segundo citou o IFL Science, remetendo a um artigo da revista Forbes de 2016, o instrutor e controlador de voo da Nasa Robert Frost explicou que os astronautas utilizam laptops com Windows "pelas mesmas razões pelas quais a maioria das pessoas usa Windows": é um sistema familiar.

"Eu me atreveria a dizer que, fora a interface da Estação Espacial Internacional, 80% dos astronautas nunca usou UNIX/Linux", acrescentou. "Por que fazê-los aprender um novo sistema operacional?".

No caso atual, a equipe em terra acessou remotamente o sistema informático da nave para tentar resolver o problema, suspeitando que o software Optimus poderia estar por trás da falha.

A Microsoft, como bem sabem muitos de seus usuários, recomenda abrir o Outlook em modo de segurança quando ele falha, para descartar conflitos com complementos.

Parece que, mesmo a centenas de milhares de quilômetros da Terra, acaba-se seguindo o mesmo manual de suporte técnico do escritório. E enfrentando também problemas tão mundanos quanto um vaso sanitário que não colabora. Tudo indica que algumas coisas continuam sendo universais.

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