Expectativa sobre a cúpula do G20 é exagerada, diz especialista | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 11.11.2008
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Economia

Expectativa sobre a cúpula do G20 é exagerada, diz especialista

Tudo aponta para uma nova posição dos países emergentes dentro da ordem mundial. Sobre a redistribuição de papéis no contexto da atual crise financeira, a DW-WORLD.DE consultou o especialista Matthias Busse.

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FMI e Banco Mundial devem ser reformados, diz economista

Em entrevista à Deutsche Welle, o ministro alemão das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, defendeu nesta semana uma maior presença dos países BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) no cenário internacional. "Esses países não pertencem à mesa periférica, mas à mesa de conferências", disse Steinmeier.

G20 Treffen in Sao Paolo Brasilien

Emergentes pedem maior poder decisão em São Paulo

Por outro lado, a responsabilidade não vem de graça. Jörg Asmussen, chefe da delegação alemã no encontro preparatório do G20 em São Paulo, afirmou no último fim de semana que "a União Européia é da opinião de que quem quiser mais poder terá que contribuir mais". Sobre esse novo preço a ser pago pelos países emergentes, a DW-WORLD.DE falou com o diretor do Instituto de Economia Mundial de Hamburgo (HWWI), Matthias Busse.

DW-WORLD.DE : Na situação atual, com a crise financeira atingindo os mercados, fazem sentido exigências como as do chefe da delegação alemã?

Matthias Busse : A exigência não pode ser entendida sem levar em conta as mudanças na estrutura do poder na economia mundial. Até hoje, os países industrializados dominaram econômica e politicamente não somente os mercados internacionais de capital, mas também organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e outros mais.

Agora, os países emergentes exigem mais poder de decisão, mas, ao mesmo tempo, estão dispostos somente a assumir de forma limitada as conseqüências financeiras dessa nova posição. Esse é o conflito, no momento.

Creio que há algo de verdadeiro em dizer que quem quer opinar também tem que contribuir de forma correspondente. Mas a exigência não deixa de ser curiosa, levando em conta que durante anos os chineses colocaram capital à disposição para que os americanos pudessem manter o seu nível de consumo.

De que forma?

Logo G - 20

De G7 a G20: a nova ordem mundial?

A maior parte do dinheiro gerado pelas exportações chinesas não é investido na China, mas nos mercados internacionais de capital. Os chineses compraram, por exemplo, grande quantidade de bilhetes e títulos do Tesouro americano [ T-Bills e T-Bonds, respectivamente] e, com isso, contribuíram para financiar o déficit do Estado e dos consumidores americanos. Aliás, estão agora perdendo muito dinheiro por causa disso.

No FMI e no Banco Mundial, eles têm poder moderado de voto porque contribuem pouco. Mas o que Asmussen falou talvez não vá tanto nessa direção, mas na direção de que eles deveriam fomentar as suas economias internas por meio de programas conjunturais de maneira que os países industrializados fossem aliviados, de maneira que estes pudessem lucrar mais com as exportações para os mercados dos países emergentes.

Se ele quis dizer isso, então o que ele disse faz sentido. A opção anterior me parece duvidosa.

A chanceler federal Angela Merkel reiterou várias vezes que os países emergentes devem se envolver mais. É uma questão de dinheiro ou de ação?

Essas coisas não podem ser separadas. Na economia mundial, ações somente geram resultados se forem acompanhadas de dinheiro. Palavras têm pouca utilidade, principalmente na situação atual.

Eu tenho a sensação de que alguns países emergentes agem e outros não. Os chineses são ainda muito prudentes. Os brasileiros e os russos são mais ativos e pedem mais participação. Depende do país, de sua situação política e de seu passado histórico.

Os países industrializados pedem, mas o que dão em troca?

Como cada um pode colaborar pode ser negociado multilateralmente. Estamos evoluindo de uma comunidade G7 ou G8 para uma G20. O G7 e G8 já não têm mais sentido para enfrentar os problemas atuais. Países como Brasil, China e Índia devem ser incluídos nas negociações.

Qual deveria ser a contribuição dos países industrializados?

Nós já estamos contribuindo através dos organismos internacionais e através de programas nacionais para a conjuntura – o que é mais importante agora. Alguns países industrializados estão se empenhando mais, outros menos. A Alemanha tem seu próprio programa, mas ele não é amplo o suficientemente, na opinião de muitos economistas.

As expectativas em relação à próxima cúpula do G20 são exageradas?

Eu creio que sim. Estamos num processo de mudança, na direção de outra ordem política, econômica e financeira. As velhas constelações de poder, na qual os países industrializados dominam a situação, estão desaparecendo.

A fase de transformação será muito instável e dela não resultarão estruturas tão claras como as do passado, na qual a Europa, os EUA, o Canadá e o Japão podem tomar decisões num pequeno grupo. O grupo será muito mais heterogêneo e a tomada de decisões será muito mais difícil.

É o que temos visto nas negociações da Organização Mundial de Comércio (OMC). As negociações trancam porque os novos atores exigem seus direitos, mas não estão dispostos a fazer a sua parte como é exigido. Pense em Brasil, China e Índia.

Eu espero muito pouco dessa cúpula do G20. Vai levar anos, décadas até que uma nova ordem mundial se estabilize. Claro, se tivermos novas crises como a atual, tudo pode andar muito mais rápido...

Como se pode construir um novo sistema financeiro internacional nestas condições?

Ninguém sabe muito bem. Como integrar adequadamente os países em desenvolvimento e emergentes sem exigir demais deles? No caso do FMI, por exemplo. Muitos desses países contraíram empréstimos com o FMI e, de repente, terão poder de decisão sobre a concessão desses empréstimos. O equilíbrio que se tenta estabelecer aqui é muito delicado. No momento em que os países são suficientemente ricos para não necessitar de empréstimos, a coisa muda de figura. Aí eles estarão do outro lado. Mas não se pode ir até o banco e ajudar a decidir quanto crédito se pode obter, na condição de membro do conselho de administração.

O FMI e o Banco Mundial terão de renovar suas estruturas?

Sim, certamente. E isso não vale apenas para alguns clubes, mas para um espectro bem mais amplo. Já estamos vivendo isso na OMC. No FMI, já se estão levando a cabo as primeiras tentativas de transformação, ainda que sejam poucas e muito lentas. No Banco Mundial, acontecerá o mesmo.

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