Empresas alemãs são criticadas por pagarem dividendos em meio à pandemia | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 22.04.2020

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Economia

Empresas alemãs são criticadas por pagarem dividendos em meio à pandemia

Na crise do coronavírus, gigantes como Volkswagen, BMW e Basf recorreram à ajuda de Berlim para pagar seus funcionários. Apesar disso, insistem em premiar generosamente seus acionistas.

Linha de montagem da Volkswagen, uma das empresas sob críticas na Alemanha

Linha de montagem da Volkswagen, uma das empresas sob críticas na Alemanha

No início de abril, os times de futebol ingleses Liverpool e Tottenham Hotspur entraram na mira da opinião pública ao colocarem de licença alguns de seus funcionários não esportivos e solicitar que seus salários fossem cobertos por um esquema de manutenção de empregos financiado com dinheiro dos contribuintes.

A onda de críticas foi severa. A Premier League é notória por suas gigantescas taxas de transferência, os salários astronomicamente altos dos jogadores e seus bilionários contratos de direitos de transmissão pela TV. A ideia de clubes dessa categoria usarem ajuda estatal para pagar seus quadros foi basicamente considerada obscena. Após muita pressão, os clubes reagiram à fúria pública e voltaram atrás na decisão.

Agora é a vez de grandes corporações alemãs se confrontarem com críticas por seus planos de continuar a pagar dividendos aos acionistas, apesar de receberem verbas estatais no âmbito de um esquema de trabalho de curto prazo.

Em reação à crise econômica provocada pela pandemia de covid-19, o governo da Alemanha instituiu rapidamente uma série de medidas de assistência financeira emergencial para empresas e indivíduos atingidos, sendo a mais abrangente a ampliação do sistema denominado Kurzarbeit.

A medida tornou muito mais fácil às companhias acessarem o fundo de trabalho de curto prazo de 24 bilhões de euros (138 bilhões de euros), a fim de pagarem seus empregados. Entre os maiores nomes da indústria nacional que já se beneficiaram da verba estão as montadoras Volkswagen, BMW e Daimler, a gigante farmacêutica Basf e a produtora de peças para automóveis Continental.

Ao contrário do caso da Premier League, há pouca objeção moral ao fato de as empresas usarem o esquema, sobretudo se ele ajuda a proteger empregos que, de outro modo, estariam perdidos. O problema é que muitas das que embolsam verbas públicas também planejam pagar bilhões a seus acionistas, com base nos lucros do ano anterior, nas assembleias anuais que estão marcadas para os próximos meses.

Para Niamh Brennan, diretora acadêmica do Centro de Governança Corporativa da Universidade de Dublin, essa perspectiva é "absolutamente moralmente questionável": em vez de agir assim na crise do coronavírus, as empresas deveriam estar seguindo o bom exemplo do setor de saúde e de outros serviços. O gerente parlamentar do Partido Social-Democrata (SPD), Carsten Schneider, também condenou incondicionalmente a ideia: "Quem faz uso de ajuda estatal não pode distribuir lucros para acionistas. Essa é a careta feia do capitalismo."

Montadoras na linha de frente das críticas

É longa a lista das grandes companhias alemãs que ainda planejam distribuir dividendos em suas próximas assembleias, apesar de fazem uso do generoso esquema de trabalho de curto prazo disponibilizado por Berlim. As montadoras automotivas ocupam um lugar de destaque.

A Volkswagen colocou cerca de 80 mil funcionários em Kurzarbeit, mas não abriu mão de pagar cerca de 3,3 bilhões na assembleia originalmente marcada para 7 de maio, mas adiada até segunda ordem. A Daimler, que igualmente apelou para o esquema de trabalho de curto prazo, vai pagar os rendimentos, embora em proporção bem menor que em 2019.

A BMW, que tem 20 mil empregados no esquema trabalhista alternativo, insiste que pagar dividendos é importante para garantir a confiança dos acionistas: "Confiabilidade para com nossos investidores cria confiança e mantém a atratividade da BMW S.A. como investimento", declarou.

Por outro lado, não parece justo pintar as montadoras como as grandes vilãs da história, já que um artigo recente do jornal alemão de economia Handelsblatt mostra que 75% das 160 corporações cotadas no índice DAX na bolsa de valores nacional pretendem manter seus planos de premiar os acionistas, apesar de muitas estarem embolsando a verba governamental para sustentar temporariamente seus quadros.

Entre as empresas citadas estão a Basf (3 bilhões de euros em dividendos) e a Continental (30 mil funcionários no esquema financiado pelo governo). Elas argumentam que os dividendos se referem aos lucros do ano anterior. Outras asseguram que em breve suspenderão o trabalho de curto prazo, à medida que os trabalhadores retornarem às fábricas.

Responsabilidade dos acionistas

Mas há também diversas empresas que já retiraram publicamente seus planos de distribuição de lucros. A Lufthansa e a Puma adotaram essa medida antes de requerer a verba estatal. No caso das que requereram empréstimos públicos através do banco de desenvolvimento KfW, o governo estipulou que não poderão pagar dividendos enquanto os créditos estiverem pendentes. A Adidas recebeu 2,4 bilhões de euros sob essa condição.

Várias outras companhias deverão seguir o exemplo, sobretudo devido ao aumento da pressão governamental e da opinião pública. Uma complicação é o adiamento das assembleias anuais, devido à quarentena do coronavírus. A Volkswagen promete "monitorar a situação, à medida que transcorram os acontecimentos", deixando aberta a possibilidade de modificar seus planos de dividendos, assim que fixar uma data.

Como explica Niamh Brennan, a distribuição de dividendos é um processo em duas fases. Normalmente, antes da assembleia anual o conselho executivo anuncia sua proposta de pagamento, que é então votada pelos acionistas durante o encontro. Assim, não se deve subestimar a responsabilidade dos acionistas de olharem além de seus interesses de curto prazo.

"Não acho que devemos liberá-los tão facilmente assim, Eles têm uma responsabilidade de agir no melhor interesse da companhia, da mesma forma que o conselho executivo", enfatizou a diretora do Centro de Governança Corporativa de Dublin.

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