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Economia tem pouco a comemorar no Bicentenário

Alexander Busch
Alexander Busch
12 de janeiro de 2022

O Brasil teve forte crescimento em apenas 50 dos 200 anos que passaram desde que se declarou independente de Portugal. No resto do tempo, a economia ou estagnou, ou encolheu. Qual é o motivo para esse desempenho fraco?

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Foto de 2017 mostra três crianças brincando em edifício do IBGE abandonado na favela da Mangueira, no Rio de Janeiro. Segundo colunista Alexander Busch, Brasil cresceu consistentemente em apenas 50 dos 200 anos transcorridos desde sua independência de Portugal
"Brasil cresceu em apenas 50 dos 200 anos transcorridos desde sua independência"Foto: Felipe Dana/AP/picture alliance

Este ano, em 7 de setembro, o Brasil comemora os 200 anos de sua independência. Do ponto de vista econômico, o balanço desses dois séculos é modesto. Mário Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco, demonstrou recentemente esse fato com uma análise estatística, segundo a qual o Produto Interno Bruto da população brasileira, de cerca de 5 milhões de pessoas em 1822, equivalia mais ou menos à metade do PIB dos americanos no mesmo ano. Um terço do povo brasileiro era escravizado.

Cem anos depois, a população cresceu para cerca de 30 milhões de pessoas. Com o café e a borracha, o Brasil viveu um boom de exportações. Mas a produção econômica havia encolhido para parcos 18% do PIB americano.

A partir de 1930, com o início da industrialização, começou a fase de crescimento mais longeva do Brasil até hoje. O país foi industrializado, aberto para a infraestrutura, cidades brotaram, também no interior. O Estado investiu maciçamente em megaprojetos como a Usina de Itaipu ou a fabricante de aeronaves Embraer. Alguns desses projetos tiveram sucesso. Muitos fracassaram.

Essa fase de crescimento durou meio século, até 1980, ano no qual foi registrado o pico do rendimento dos brasileiros em comparação com o dos americanos. Mesquita estima que o PIB per capita dos brasileiros era de 30 a 40% em comparação com o dos americanos. Desde então – principalmente nos últimos dez anos –, voltou a encolher para cerca de 25% do PIB americano.

O economista-chefe do Itaú Unibanco vê a abertura inexistente do país e o consequente protecionismo como motivo decisivo para o fraco desempenho do Brasil no contexto internacional.

No jornal Valor Econômico, Mesquita escreve que "o modelo de crescimento acelerado baseado em substituição de importações e liderado pelo Estado, que selecionava, protegia e financiava os chamados 'campeões nacionais'" é a razão para a estagnação econômica.

Eu vejo as coisas de maneira um pouco diferente.

Certamente, o isolamento de sua economia e a subvenção de empresas individuais é um motivo importante para explicar a falta de dinâmica na economia brasileira. Mas não é o motivo decisivo.

É que modelos similares já funcionaram relativamente bem na Ásia, a exemplo da Coreia do Sul. Com incentivos estatais direcionados a "campeões nacionais" e longos anos de substituição de importações, Seul criou uma indústria com capacidade para alto desempenho. O PIB per capita no país deixou o brasileiro para trás.

Mais decisivo, na minha visão, é que o Brasil sempre só incluiu uma pequena parte da população em sua economia. Isso começou nos tempos coloniais, com a escravidão. Até hoje, porém, a maioria da população é excluída ou participa da economia apenas marginalmente.

Há poucas possibilidades de ascensão para a maior parte dos brasileiros: a má qualidade do ensino público e do sistema de saúde, a segurança pública ausente e a infraestrutura fraca impedem que a maioria da população tenha chance de se integrar na produção econômica.

Isso vale principalmente para a grande fatia afrodescendente da população (56%) e também para os 30 milhões de brasileiros que têm apenas até um salário-mínimo à sua disposição. Quem não consegue obter uma educação também ganhará pouco dinheiro e nunca conseguirá consumir de forma a catalisar um salto de desenvolvimento na economia.

Enquanto a elite brasileira – ou seja, as classes média e alta – dividir entre si os cargos públicos administrativos e nas empresas estatais, além dos postos nos conselhos administrativos e cargos de diretoria nas empresas privadas, o Brasil continuará crescendo abaixo de seu potencial.

Apesar de todos os avanços e tentativas das últimas duas décadas, o Brasil está cada vez menos preparado para a transformação digital da sociedade e da economia que acontece atualmente no mundo todo.

Há pouco a comemorar nas celebrações do bicentenário da Independência.

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Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.