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E se os EUA realizassem uma cúpula e ninguém viesse?

Alexander Busch
Alexander Busch
18 de maio de 2022

Enquanto a China direciona investimentos, Joe Biden tem mantido a mesma política sem imaginação dos antecessores para a América Latina. Para piorar, a Cúpula das Américas ameaça ser um dolorido fiasco para Washington

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Joe Biden
A China tem direcionado investimentos para países da América Latina. Em contrapartida, os EUA de Joe Biden pouco têm a oferecerFoto: Carolyn Kaster/AP/picture alliance

A pergunta é do site Politico, de Washington: e se os Estados Unidos realizassem um encontro de cúpula e ninguém viesse? De fato, no momento as coisas não estão indo bem para o país que, pela primeira vez desde a criação do evento, em 1994, sedia a nona Cúpula das Américas.

De 6 a 10 de junho, todas as nações do continente se reúnem em Los Angeles. Mas aí já começam as controvérsias: o governo de Joe Biden só quis convidar Estados democráticos: Nicarágua, Venezuela e Cuba ficaram de fora.

Em resposta, o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, declarou que só viajaria para a Califórnia se todos os países do Hemisfério Sul fossem convocados. Bolívia, Honduras e algumas nações do Caribe aderiram, igualmente anunciando sua ausência, se os autocratas caribenhos não pudessem participar.

Agora, Washington tenta convencer pelo menos Jair Bolsonaro a se deslocar até Los Angeles. Dois vice-secretários de Estado do Departamento de Estado americano acabaram de visitar o Brasil, e por vários dias. Isso, apesar de no momento as relações entre os dois países estarem mais para frias: o extremista de direita à frente de Brasília se entendia bem com seu ídolo Donald Trump, com Biden ele não tem muito em comum.

Nova Rota da Seda seduz latino-americanos

Até agora, porém, a ofensiva diplomática americana não teve sucesso: Bolsonaro anunciou que não viajaria para os EUA, mas que continuaria mantendo todas as opções em aberto.

Agora os EUA estão ameaçados de sofrer um fiasco dolorido. Pois, se com Brasil e México, bem mais da metade dos 660 milhões de latino-americanos não estiver representada na cúpula, ela terá fracassado antes mesmo de começar.

Um vexame para o país ansioso para mostrar que, mesmo para o sul do Texas, ele continua sendo a potência dominante na região. Só que há muito os Estados Unidos não são mais isso, de fato.

Por um lado, a China penetra cada vez mais na América Latina. Desse modo, a Argentina acaba de se tornar a mais nova parceira dos chineses em sua Iniciativa da Nova Rota da Seda, passando a ser o 20º país da região vinculado ao acordo em troca de investimentos, créditos e acesso a mercados. Dos grandes da América Latina, agora só o México, Brasil e Colômbia não estão comprometidos com a China.

Ao mesmo tempo, a guerra na Ucrânia valoriza a América do Sul como fornecedora de matéria-prima e energia, e seus países pretendem permanecer neutros entre os blocos de poder mundial.

Política americana pouco criativa

Em contrapartida, os EUA de Biden pouco têm a oferecer, não tendo acenado com nenhuma contribuição ou solução para os assuntos mais prementes da América Latina: migração, comércio e pobreza crescente.

Com pouca imaginação, o presidente democrata dá continuação à política de seu antecessor para a região, ou seja: acima de tudo, distância dos ditadores locais e política migratória restritiva. Biden não quer desagradar os eleitores latinos da Flórida.

Além disso, os latino-americanos não se esqueceram que Trump sequer compareceu à última cúpula, no Peru, em 2018, de tão reduzido que é o interesse de Washington na região. Somando-se tudo, esta nona Cúpula das Américas poderá ser a última em que os Estados Unidos tentam impor seus interesses.

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Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.