Diplomatas dos EUA pressionaram Ucrânia | Notícias internacionais e análises | DW | 04.10.2019
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Mundo

Diplomatas dos EUA pressionaram Ucrânia

Trump condicionou visita de presidente ucraniano à Casa Branca a abertura de inquérito sobre ex-vice e suspendeu envio de ajuda militar, revela Congresso. Denúncia reforça processo do impeachment.

Presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy (esq.) se reuniu com Trump na Assembleia Geral da ONU em Nova York

Presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy (esq.) se reuniu com Trump na Assembleia Geral da ONU em Nova York

Documentos divulgados na noite desta quinta-feira (03/10) por comitês do Congresso dos Estados Unidos revelam que diplomatas americanos teriam reforçado o pedido feito pelo presidente Donald Trump para que a Ucrânia investigasse a atuação do filho do pré-candidato democrata à Casa Branca Joe Biden no conselho de uma empresa de gás no país.

A investigação teria sido imposta pelo governo americano como condição para a realização de uma visita de Estado do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, à Casa Branca.

A denúncia surgiu com a divulgação de uma série de mensagens de texto, por parte dos investigadores do Congresso, após uma sabatina de 10 horas com um dos diplomatas, Kurt Volker, que deixou o cargo de enviado especial à Ucrânia após o escândalo que levou ao início de um processo de impeachment de Trump na Câmara dos Representantes.

O conteúdo das mensagens evidencia o que seria uma oferta por uma troca de favores por parte dos americanos, na qual Trump se beneficiaria da investigação sobre um de seus principais adversários políticos e favorito à concorrer á presidência pelo Partido Democrata.

Segundo as mensagens, três diplomatas americanos teriam deixado claro ao governo ucraniano que uma possível melhora nas relações entre Kiev e Washington iria depender da cooperação de Zelensky na busca por informações sobre negócios do filho de Joe Biden, Hunter Biden, na Ucrânia. Os americanos avaliaram que essas informações poderiam ser prejudiciais à campanha do senador democrata.

Em mensagem de texto antes de uma conversa telefônica entre Trump e Zelensky no dia 25 de julho, Volker escreveu ter ouvido da Casa Branca que "presumindo que o presidente Z convença Trump de que vai investigar [...] acertaremos a data para a visita a Washington".

Um assessor da presidência ucraniana deu sinais de concordar com o inquérito, que teria como alvo a empresa de gás Burisma, onde Hunter Biden atuou como membro do conselho administrativo ao mesmo tempo em que seu pai liderava a diplomacia do governo do ex-presidente Barack Obama com Kiev.

Apesar de uma desconfiança sobre possíveis atos de corrupção, não há até o momento provas de que o ex-vice ou seu filho tenham cometido irregularidades.

"O telefonema ocorreu bem", disse Andrey Yermak em mensagem a Volker após a conversa entre os dois lideres. O ucraniano sugeriu diversas datas no mês de setembro para o encontro entre Trump e Zelensky. Os entraves surgiram quando o assessor ucraniano tentou selar o encontro antes de declarar oficialmente a abertura do inquérito sobre Biden.

"Quando tivermos uma data, convocaremos uma coletiva de imprensa para anunciar a visita e delinear nossa visão para uma renovada relação EUA-Ucrânia, incluindo entre outras coisas, Burisma e investigações sobre interferência nas eleições", escreveu Yermak duas semanas aos a conversa telefônica entre Trump e Zelensky. "Me parece bom", respondeu Volker.

Volker e outros dois embaixadores – William "Bill" Taylor, encarregado de negócios da embaixada dos EUA na Ucrânia, e Gordon Sondland, embaixador americano na União Europeia – discutiram a declaração que Zeneskiy emitiria em apoio à investigação. Em meio às negociações, Sondland afirmou que Trump "realmente quer o resultado".

O presidente americano deixou em suspenso o envio de 250 milhões de dólares em ajuda militar à Ucrânia, que conta com o financiamento para reforçar a defesa contra a Rússia, em meio a uma prolongada insurgência de separatistas pró-Moscou no leste do país.

Taylor, o diplomata de patete mais alta na embaixada americana em Kiev, expressou preocupação com a medida. "Estamos agora afirmando que a assistência de segurança e o encontro na Casa Branca estão condicionados às investigações?", escreveu.

"Este é, para mim, o cenário de pesadelo", afirmou dias depois a seus colegas em mensagem de texto. A medida, segundo Taylor, já havia abalado a confiança dos ucranianos nos americanos.

Os congressistas democratas em Washington iniciaram o processo do impeachment de Trump após um delator anônimo revelar o conteúdo do telefonema entre Trump e Zelensky, onde o americano pressiona o presidente recém-empossado para interferir nas eleições americanas ao buscar informações prejudiciais a Biden.

As mensagens demostram que, um mês após o telefonema, Trump cancelou a visita de Zelensky e enviou diplomatas para tentar resgatar os esforços e marcar um encontro do líder ucraniano com o vice-presidente Mike Pence ou o secretário de Estado, Mike Pompeo. O que se seguiu foram várias tentativas de reparar os danos, com trocas de acusações. 

Taylor disse a Sondland que contava com ele para "fazer o que é correto", ao que ele respondeu: "Bill, eu nunca disse que era correto."

"Como disse ao telefone, acho uma maluquice suspender a ajuda militar para obter ajuda em uma campanha política", afirmou Taylor. Sondland, por sua vez, disse que não era este o caso, e que Trump deixou claro que "não se trata de forma alguma de quid pro quo [troca de favores]" e sugeriu que encerrassem a discussão via mensagem de texto.

Ao divulgar as mensagens, a presidência do comitê democrata no Congresso afirmou que elas são apenas uma parcela do total do material fornecido por Volker, que esperam divulgar em sua totalidade em breve.   

RC/ap/ots

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