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De quanto Lula vai perder entre os evangélicos?

Brasilianer Victor Araújo, Forscher an der UZH - Universität Zürich
Victor Araújo
2 de setembro de 2022

Cenário que se desenrola é de um 7x1 para Bolsonaro entre os evangélicos – sinal de que, para muitos desses eleitores, a retórica moralista pesa mais que o voto econômico.

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Culto evangélico
Se as eleições fossem hoje, cerca de 50% dos eleitores evangélicos votariam em Bolsonaro, enquanto outros 28% votariam em Lula. Mas a trajetória de ascendência do atual presidente nesse grupo tende a continuarFoto: Evaristo Sa/AFP

Existe uma certeza sobre as eleições presidenciais de 2022: o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, sairá derrotado da disputa pelo voto evangélico. Mesmo se alcançar maioria no cômputo geral, isso ocorrerá a despeito do triunfo de seu principal oponente, Jair Bolsonaro (PL), entre os eleitores desse grupo. A pergunta, portanto, não é se, mas de quanto Lula vai perder.

É bem verdade que, no momento, os dados indicam um cenário apenas moderadamente ruim para o candidato petista. Se as eleições fossem hoje, cerca de 50% dos eleitores evangélicos votariam em Bolsonaro, enquanto outros 28% votariam em Lula*. Mas a trajetória de ascendência do atual presidente nesse grupo tende a continuar, embora ainda não se saiba ao certo o teto desse crescimento.

A rejeição dos evangélicos ao PT já não é mais uma novidade, sobretudo depois que 70% dos eleitores desse grupo confiaram em Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018. É menos sabido, no entanto, que 2018 marcou o retorno a níveis de rejeição similares aos observados duas décadas atrás.

Ascensão e queda do PT entre evangélicos

Em 2002, quando Lula foi eleito presidente de República pela primeira vez, apenas 24% dos evangélicos votaram no candidato petista no primeiro turno. Um segundo fato que costuma passar despercebido é que, desse contingente de apoiadores, a maioria frequentava igrejas pentecostais e neopentecostais. Ou seja, o maior aporte de votos para o PT veio dos evangélicos de baixa renda, em geral menos escolarizados e habitantes dos grandes centros urbanos brasileiros.

O mesmo fenômeno se repetiu em 2006, de forma ainda mais expressiva, em virtude do amplo apoio recebido pelo PT em todas as camadas da população. Em 2006, e apenas nesse ano, o PT conseguiu que mais de 50% dos evangélicos votassem em seu candidato.

A partir daí, o jogo virou. A eleição de 2010 marca o início da derrocada eleitoral do PT entre os evangélicos. Naquela oportunidade, pela primeira vez, a proporção de evangélicos históricos (em geral, mais ricos e mais escolarizados) votando no PT foi maior do que a proporção de evangélicos pentecostais. Isso não ocorreu porque houve crescimento do apoio ao PT entre os eleitores do primeiro grupo, mas em virtude do aumento da rejeição ao partido entre os evangélicos de baixa renda.

Esse fenômeno apareceu de forma mais clara nas eleições de 2014, quando, pela primeira vez depois de 2002, a proporção de evangélicos apoiando o PT esteve abaixo dos 30%. Foi também essa eleição que consolidou a maior rejeição ao PT entre os eleitores pentecostais.

Em 2018, apenas 9% dos eleitores pentecostais votaram no candidato petista no primeiro turno das eleições presidenciais. Portanto, 2018 foi apenas uma expressão mais forte e evidente de um movimento conflagrado a partir da chegada do PT ao Palácio do Planalto.

Leis sobre homofobia e violência sexual minaram aliança

Dois eventos ajudaram a interromper a aliança eleitoral entre evangélicos e o PT que durou até o pleito de 2010. Primeiro, o projeto de lei da Câmara 122 de 2006 (PLC 122/2006), mais conhecido como "lei anti-homofobia", apresentado pela então deputada federal Iara Bernardi (PT-SP). O projeto tinha como objetivo criminalizar a homofobia no país, mas foi lido como uma tentativa de criminalizar a prática pastoral. Os pastores temiam que pudessem ser presos ao se posicionar contra a homossexualidade nos cultos evangélicos.

Segundo, a lei número 12.285/2013, que dispunha sobre o atendimento obrigatório e integração de vítimas de violência sexual. Para várias das lideranças evangélicas, ao oferecer a pílula do dia seguinte a vítimas de violência sexual, a legislação não passava de uma tentativa disfarçada de legalizar o aborto no Brasil.

Batalha espiritual x voto econômico

A menor rejeição entre os evangélicos históricos não muda o fato de que o teto do PT entre os evangélicos é baixo, algo entre 30% e 40%. Mas afinal, o que esperar dos evangélicos nas eleições presidenciais deste ano?

Da parte das lideranças, deve-se esperar um clima de guerra cultural, ou batalha espiritual, para fazer uso de um jargão popular entre os evangélicos. Dados recentes indicam que o uso de uma retórica moralista tende a produzir mais efeito nas igrejas pentecostais, justamente entre aqueles evangélicos que confiam mais em suas lideranças e que tendem a se informar sobre política nos cultos.

Ainda assim, alguns especialistas apontam os limites dessa estratégia de mobilização. Para os defensores do voto econômico como única dimensão explicativa do voto, o bolso importa muito mais na hora de votar e, por isso, a má condução da economia no atual governo devolverá ao PT os votos perdidos nas igrejas em anos anteriores.

No entanto, o bom desempenho de Bolsonaro nas pesquisas atuais contradiz essa leitura da realidade. Vale lembrar que parte expressiva das intenções de voto no candidato vem das igrejas evangélicas. Soma-se a isso o fato de os retornos eleitorais do Bolsa Família terem sido sempre menores entre os eleitores evangélicos petencostais e neopentecostais. O que significa, em bom português, que fatores econômicos importam menos para o voto de alguns do que se parece querer acreditar.

Brasil de 2006 não existe mais

Ainda que Lula seja eleito, não há nada que indique vida fácil para o PT daqui para frente. O apoio maciço de lideranças evangélicas ao PSDB em eleições anteriores é sintomático a esse respeito. Para complicar o enredo, Bolsonaro parece ter cumprido até aqui com todos os compromissos assumidos com as lideranças desse grupo que caminham ao seu lado, incluindo a indicação de um ministro "terrivelmente evangélico" para o Supremo Tribunal Federal (STF).

O cenário que se desenrola é de um 7x1 nas urnas no Brasil dos evangélicos. Isso não significa que a esquerda tenha perdido em definitivo a capacidade de mobilizar eleitores de baixa renda, mas o Brasil de 2006 definitivamente não existe mais. A insistência em argumentar que a economia é capaz de explicar tudo (e o voto de todos) parece desconsiderar esse fato. 

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* Média móvel das intenções de voto de candidatos à Presidência no segmento religioso evangélico calculada a partir do agregador de pesquisas do Cebrap. Para cálculo da média móvel (de 7 dias) da intenção de voto geral, foram utilizadas 96 pesquisas eleitorais. Os valores citados correspondem à última média da série temporal, registrada no dia 22/08/2022.

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Planaltices é uma coluna semanal sobre política brasileira. Os textos são escritos por colaboradores do grupo de pesquisa PEX (Executives, presidents and cabinet politics), vinculado ao Centro de Estudos Legislativos (CEL) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Coordenada pela cientista política e professora da UFMG Magna Inácio, a coluna é publicada simultaneamente pela DW Brasil e repercutida no blog do PEX

Este texto foi escrito por Victor Araújo, pesquisador sênior no Departamento de Ciência Política da Universidade de Zurique (UZH), Suíça. Em 2022, lançou o livro A Religião Distrai os Pobres? O voto econômico de joelhos para a moral e os bons costumes, pela editora Edições 70 (Grupo Almedina Brasil). 

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.

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Esta coluna é uma parceria da DW Brasil com o PEX, núcleo de estudos sobre presidencialismo institucional da UFMG e capitaneado por Magna Inácio.

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