Crônica de um assassinato político em 40 reações | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 21.03.2018
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Cartas do Rio

Crônica de um assassinato político em 40 reações

Reações à morte de Marielle formam um retrato de um país agitado, insatisfeito e extremamente polarizado. Existe no Brasil uma ansiedade enorme por mudanças profundas. O caso pode ser um ponto de partida?

Marielle Vive, diz a faixa em protesto no Rio de Janeiro na terça-feira (20/03)

"Marielle Vive": protesto no Rio de Janeiro na terça-feira (20/03)

Na noite seguinte ao assassinato de Marielle Franco, eu fui a uma manifestação no centro do Rio de Janeiro. Estimei a presença em cerca de 30 mil pessoas, que tinham vindo para homenagear a vereadora negra e para levar sua indignação às ruas.

Foi uma marcha silenciosa, durante a qual muitas lágrimas escorreram e a raiva era palpável. Depois da manifestação, não aconteceram as desordens de costume. Será que foi porque não se viu a Polícia Militar?

Já faz cinco anos desde que vivi, no Rio, a última manifestação com dimensões e emoção similares. Em 2013, centenas de milhares de pessoas foram às ruas expressar sua insatisfação sobre a situação do Brasil, esse país tão rico em que tantas pessoas são tão pobres e no qual jovens que têm a “cor errada” de pele ou que vêm do lugar errado quase não têm chances de ascensão social.

O colunista da DW Philipp Lichterbeck

O colunista da DW Philipp Lichterbeck

Naquela época, o que me admirou e deixou feliz foram os muitos jovens, universitários e alunos do Ensino Médio que passaram pela Avenida Presidente Vargas cantando e batendo palmas. Foram especialmente as placas feitas à mão e os versos e palavras de ordem espontâneos que me deixaram fascinados: Saímos do Facebook / Mãe, desculpa! Deixei o quarto bagunçado pra arrumar o país / Queremos escolas padrão Fifa / Tem tanta coisa errada que não cabe num cartaz. Esses eram apenas alguns exemplos para a inventividade e o entusiasmo provocados pelos protestos.

Mas a frágil flor da transformação daquela época foi pisoteada antes de poder desabrochar – pela brutalidade da Polícia Militar, pelas intenções de criminalizar os manifestantes e pelas distorções absurdas da mídia. Mesmo assim, as sementes da mudança continuaram plantadas no solo. Só precisavam de um motivo para voltar a brotar. Agora, observando as marchas, me pergunto se a execução de Marielle Franco por um comando homicida pode ter sido um desses gatilhos.

Voltei a ver muitas pessoas com menos de 30 anos nas diferentes manifestações. E, novamente, dá para perceber uma raiva que libera uma criatividade espantosa. Essas pessoas não querem se entregar ao sentimento de impotência. Eles querem expressar sua ira. Novamente fiquei com assombro frente aos diferentes cartazes e depoimentos que vi e ouvi durante as marchas – e decidi fazer uma compilação deles.

Também os políticos do país, incluindo o presidente, se sentiram obrigados a se pronunciar sobre o caso. E a extrema direita brasileira, carregada de ódio, não demorou a divulgar mentiras sobre Marielle Franco. Outros foram rápidos em afirmar que a execução de uma vereadora municipal, eleita com quase 50 mil votos e que defendia os direitos humanos, seria somente um homicídio comum.

Essas declarações também foram registradas nessa pequena coletânea. Em conjunto, elas espelham um assassinato político e pintam o retrato de um país agitado, insatisfeito e extremamente polarizado. Sinto que existe uma ansiedade enorme por mudanças radicais. A morte da Marielle pode ser um ponto de partida?

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"É tanta tristeza que não cabe num cartaz!"

"Até quando, perguntaremos até quando?"

"Quiseram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes."

"Braços cansados por segurar este cartaz desde 1964. Ditadura não!"

"Marielle, seremos milhões."

"Perdemos muito, inclusive o medo!"

"Luta é substantivo feminino."

"O diabo veste farda."

"Ideais são à prova de balas."

"Ser mulher negra é resistir todos os dias."

"Ser mulher negra e resistir é sobreviver o tempo todo."

"Marielle Gigante."

"Não existe Justiça se o assassino está fardado"

"Por isso, cuidado, meu bem, há perigo na esquina"

"Obrigadx Marielle"

 

"Foi morta outra Dandara, foi morta outra Teresa de Benguela. Porque as mulheres negras que lutam são mortas no Brasil." – Tereza, 50, trabalhadora social

"Uma parte de mim parecia que estava indo embora, como se ela fosse uma parente. Tenho uma dor que não sei explicar e um imenso sentimento de fracasso." – Natane, 28, psicóloga

"Eu tive a oportunidade grandiosa de estar perto dela numa palestra e ver como ela era forte e como tinha coragem. A morte da Marielle demonstra a imoralidade de um sistema extremamente opressor e corrupto." – Quênia, 28, advogada

"Não é todos os dias que uma negra, mãe solteira e moradora de favela consegue o que ela conseguiu. Ou seja, vencer uma eleição sem comprar votos. Vivemos dias fúnebres e ainda não acabou. Marielle seria a nossa cara diante das ações militares. O Rio não precisa de armas e militares, precisa de programas sociais, educação, saúde e lazer" – Fernanda, 36, professora

"A gente deveria estar na rua todos os dias a partir de agora." – Kátia, 34, Médica

"Passei mal ao saber da notícia. Mataram uma de nós. Me senti como se eu estivesse engolindo sangue." – Júlia, 30, enfermeira

"Marielle era luz na escuridão. Perdemos uma mulher que sabia o que era honrar as origens dela e sabia honrar o povo que era dela. Ela falava por pessoas que queriam gritar por socorro e não conseguiam, ela se colocava no lugar do próximo e essa é a coisa mais humana que pode existir. Senti uma perda real." – Fernanda, 26, estudante

"Você é guerreira. Você luta pelo negro e pela negra. Votaria em você!" – Criança no Complexo da Maré

 

"O que houve ontem [14/03], no Rio, é um passo numa guerra civil política." – Cristovam Buarque, líder do PPS no Senado

"Que país é esse?" – Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República, no Twitter

"Esse crime não ficará impune" – Michel Temer, presidente do Brasil

"Esse bárbaro assassinato faz parte, é um dos atos desse golpe que desencadearam no Brasil desde 2016. O golpe não é um ato, é um processo." – Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil, durante plenária no Fórum Social Mundial, em Salvador

"Os indícios ainda não permitem apontar para alguém, individualmente, ou qualquer grupo. As dificuldades são muitas, mas não [são] intransponíveis." – Homero Freitas, promotor do MP-RJ à frente do inquérito

"Esse crime é mais um crime de tantos milhares que afetam a dia a dia da população." – General Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército Brasileiro

"Foi uma tragédia, mais uma tragédia diária do Rio de Janeiro. Lamentável." – Torquato Jardim, ministro da Justiça

"Pedimos para a Comissão uma suspensão imediata das negociações com o Mercosul até que haja o fim da violência e intimidação contra a oposição política e defensores de direitos humanos." – Deputados da Esquerda Europeia Unida no Parlamento Europeu

"A exploração que se faz da morte da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) é das coisas mais asquerosas que vi desde que acompanho política." – Reinaldo Azevedo, comentarista político

"Você tá querendo dizer que a morte da vereadora foi arquitetada pela própria esquerda? Olha, eu não descartaria essa hipótese. Eles são capazes de tudo!" - Daniel, internauta

"Eu vou achar muito engraçado se descobrirem amanha que quem matou a mulher não foi um policial ou um miliciano pra "peitar a intervenção do Temer" ou pra calar a vereadora "mulher, gay, preta, favelada e vascaina" que incomodava demais, mas sim o CV cobrando uma divida "pessoal" com ela." - Felipe, internauta

"A questão é que a tal Marielle não era apenas uma 'lutadora'; ela estava engajada com bandidos!" – Desembargadora Marília Castro Neves

"Nunca tinha ouvido falar de Marielle até a notícia da morte." – A mesma desembargadora após ser questionada sobre o seu post

"Isso é complicado. Bem complicado..." – Reação do Movimento Brasil Livre (MBL) – que postou as mentiras da desembargadora – após ser questionado sobre o assunto

"Conheçam o novo mito da esquerda, Marielle Franco. Engravidou aos 16 anos, ex-esposa do Marcinho VP, usuária de maconha, defensora de facção rival e eleita pelo Comando Vermelho, exonerou recentemente 6 funcionários, mas quem a matou foi a PM." – Alberto Fraga, presidente do DEM no DF e presidente da Frente Parlamentar de Segurança Pública

"Vamos deixar a polícia trabalhar e com certeza essas acusações, de ambos os lados, serão sanadas. Como prova, vou retirar o post." – Alberto Fraga, após ser questionado sobre as mentiras dele

"Em cada lar, uma prece, em cada olhar, uma lágrima, e em cada coração um voto de tristeza, dor e saudade. É assim que hoje anoitece a cidade desolada e amargurada pela perda de sua filha inesquecível e inigualável. Que Deus a tenha!“ – Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro

"Brazil, we see you!" – Kate Perry, homenageando Marielle no show no Rio

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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

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