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Mísseis posicionados em frente a um jato de combate em base aérea de Taiwan
Taiwan realizou exercícios militares para mostrar sua capacidade de resistir à pressãoFoto: Johnson Lai/AP Photo/picture alliance
SociedadeTaiwan

Como Taiwan se prepara para uma possível invasão chinesa

William Yang
4 de setembro de 2022

Em meio à guerra na Ucrânia e à pressão militar da China, Taiwan reforça a capacitação de reservistas e treina a população para responder a crises. "A ilha pode não ser tão segura quanto se imagina", diz moradora.

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À medida que os combates na Ucrânia se desenrolam, a população de Taiwan começa a sentir a urgência de se preparar para todos os tipos de eventualidades, em meio à  crescente pressão militar da China.

Nos últimos meses, autoridades e organizações da sociedade civil introduziram uma série de reformas e treinamentos em toda a ilha para aprimorar a prontidão de combate da população e suas habilidades para lidar com possíveis crises.

Uma das organizações que lidera esse esforço é a Forward Alliance, que visa melhorar a resiliência nacional. Desde março, a ONG oferece treinamentos em defesa civil que ensinam os participantes a realizar primeiros socorros, tratar traumas, conduzir operações de busca e salvamento e localizar abrigos em situações de emergência.

"Estamos treinando civis para responder a crises", diz Enoch Wu, fundador da Forward Alliance. "O objetivo é manter as comunidades funcionando, e os treinamentos ajudam a preparar os cidadãos contra crises naturais ou provocadas pelo homem."

Os programas de treinamento estavam originalmente planejados para começar em agosto, mas a guerra na Ucrânia acentuou um senso de urgência em Taiwan. Assim, a Forward Alliance decidiu antecipar a capacitação para março, como parte de suas respostas ao aumento das demandas da população. 

"Temos recebido demandas muito grandes das comunidades e dos cidadãos. As pessoas querem saber como podem ajudar umas às outras e atender suas comunidades, mesmo quando não estão uniformizados", afirma Wu à DW.

"Modificamos nossos treinamentos para que mais pessoas possam participar deles. Já treinamos mais de mil pessoas, mas isso não é suficiente. Sabemos que toda a sociedade deve se esforçar para desenvolver resiliência, e precisamos nacionalizar essas formações."

Guerra expõe vulnerabilidade de Taiwan

A aliança organizou uma sessão de treinamento na segunda maior cidade de Taiwan, Taichung, em 27 de agosto, para a qual dezenas de pessoas se inscreveram.

Aposentados, donas de casa, profissionais e estudantes lotaram um centro comunitário local para aprender habilidades básicas de primeiros socorros. A maioria dos participantes disse que a guerra na Ucrânia e o status político sensível de Taiwan os levaram a participar do workshop.

"Decidi participar do treinamento por causa da guerra na Ucrânia", conta Cherri Lee, que trabalha com educação. "A população desfruta há muito tempo da paz, mas não acredito que isso seja uma desculpa para nos mantermos complacentes com as crescentes ameaças representadas pela China."

Para ela, "ter um lugar para obter informações sobre primeiros socorros e saber como reagir a emergências ajuda a sensibilizar as pessoas de que Taiwan pode não ser tão segura quanto elas imaginam".

Outra participante afirma achar importante que cidadãos comuns percebam que podem também fazer parte das equipes de primeiros socorros.

"Acho maravilhoso termos a chance de aprender como ajudar outras pessoas sempre que houver uma crise", diz a conselheira escolar Jenny Chen. "Com a guerra na Ucrânia, acho que há uma consciência maior sobre quão vulnerável pode ser Taiwan. Precisamos estar vigilantes, não importa o que aconteça."

Resposta a qualquer tipo de crise

Muitos especialistas ressaltam que o treinamento em defesa civil terá um impacto positivo na resposta da sociedade a qualquer emergência – seja um desastre natural ou conflito militar.

"Esses treinamentos poderão dar ao povo de Taiwan um senso de urgência. E o curso de primeiros socorros é muito prático e pode ser eficaz tanto em desastres naturais quanto em guerras", afirma Tzu-yun Su, analista do Instituto de Defesa Nacional e Pesquisa de Segurança em Taiwan. "Seus participantes terão condições de ficar mais calmos em emergências e ajudar os mais próximos."

Ele acredita que, assim que a população taiwanesa entender a importância dos programas de capacitação, eles deverão ser ampliados. "Este é um bom começo", diz.

Desde a visita da presidente da Câmara dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, a Taiwan no início de agosto, a China aumentou suas atividades militares ao redor da ilha, incluindo um treinamento para um possível bloqueio e, potencialmente, uma invasão do território taiwanês.

Além disso, Pequim realizou voos com aeronaves chinesas e enviou navios para a chamada "linha mediana", uma área não oficial de fronteira que separa ambos os territórios.

Após repetidas tentativas do Exército de Libertação Popular chinês de enviar drones para as proximidades da ilha Kinmen, em Taiwan, o Ministério do Exterior da China rejeitou as queixas de Taiwan, afirmando que os drones estavam apenas sobrevoando o "território chinês", enquanto Taipei classificou a ação como uma provocação.

Piloto com céu ao fundo
Após visita de Pelosi a Taiwan, China realizou exercícios militares ao redor da ilhaFoto: Li Bingyu/dpa/XinHua/picture alliance

Novo plano de treinamento para reservistas

Além dos esforços para fortalecer a defesa civil da ilha, as autoridades taiwanesas também lançaram um novo plano de treinamento para reservistas, com o objetivo de melhorar a prontidão de combate das forças da reserva.

Em março, o Ministério da Defesa de Taiwan divulgou planos para estender a capacitação dos reservistas para duas semanas, além de dobrar o tempo dos treinamentos para combate, como o uso de rifles.

Nos últimos meses, enquanto o novo plano de treinamento acontecia em caráter experimental, alguns reservistas que participaram da capacitação expressaram dúvidas sobre sua eficácia – bem como a saúde mental dos participantes.

"Embora o conteúdo do treinamento seja mais sólido do que antes, ainda tenho dúvidas sobre o quanto das experiências e habilidades que os reservistas adquirem com esses treinamentos podem ser aplicadas em um conflito militar real", diz Chen, um reservista que participou de um treinamento de sete dias em agosto.

"Os fuzis que usamos foram fabricados na década de 1980. E, embora houvesse mais de 300 reservistas no meu grupo, o número de armas que realmente podiam ser usadas era menos de um décimo do número de reservistas que participaram do treinamento."

Em entrevista à DW, ele acrescenta que "os militares da ativa também não impuseram regras durante o treinamento, então muitos reservistas viram a capacitação como férias. Não acredito que a guerra na Ucrânia tenha necessariamente aumentado o nível de conscientização entre os reservistas sobre a pressão militar da China".

Mais habilidades de combate

Já o especialista militar taiwanês Su vê a reforma do treinamento dos reservistas como um processo gradual, e não uma revolução.

"Embora seja possível ainda fazer muitos progressos em relação ao treinamento de reservistas, uma função significativa do plano atual é cultivar a mentalidade de apoio à força de defesa na sociedade civil de Taiwan", diz ele à DW.

"O conteúdo poderia ser mais aprofundado, mas a estrutura atual é muito útil para a segurança e defesa nacional de Taiwan, bem como para cultivar o espírito de apoio à força de defesa na sociedade."

Su sugere que as autoridades de Taiwan deveriam dar mais ênfase aos exercícios com munição real durante o treinamento dos reservistas, já que isso é um aspecto importante das habilidades de combate.

"Outras partes do treinamento poderiam ser reduzidas, mas acho que as autoridades deveriam focar em melhorar as habilidades de combate dos reservistas. Quer dizer, os militares deveriam investir mais nessa área", conclui.

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