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Dois caças fazem manobras com fumaça colorida
As forças armadas da China são muito maiores que as de Taiwan, mas a ilha autogovernada está reforçando as defesasFoto: Patrick Lin/AFP/Getty Images
ConflitosTaiwan

Como os EUA apoiam militarmente Taiwan?

Wesley Rahn | William Yang
5 de agosto de 2022

Governo americano é o principal apoiador militar de Taiwan e está aconselhando Taipei a comprar armamento projetado para mobilidade e precisão para combater uma eventual invasão marítima da China.

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A China começou nesta quinta-feira (04/08) no entorno de Taiwan seus maiores exercícios militares em décadas, em resposta à visita da delegação de mais alto escalão do Congresso dos Estados Unidos à ilha em 25 anos.

A viagem liderada pela presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, foi criticada por alguns como um gesto arriscado e simbólico, em um momento em o realmente necessário é um trabalho mais de bastidores de Washington para reforçar as capacidades de defesa de Taiwan em face da crescente agressão chinesa.

"Devemos focar nosso relacionamento bilateral com Taiwan em ações discretas, mas altamente impactantes, que fortaleçam as defesas de Taiwan. Uma visita da presidente da Câmara dos EUA está perto do extremo oposto desse espectro", disse Kharis Templeman, especialista em Taiwan do Instituto Hoover, da Universidade de Stanford.

A presença avançada da Marinha dos EUA no Pacífico e no Mar da China Meridional serve como o principal obstáculo para a China na região.

De fato, nutrir a rede de alianças dos EUA na região do Indo-Pacífico foi o motivo declarado da viagem de Pelosi. Isso também envolve trazer países europeus, como a França e o Reino Unido, para participar das chamadas "manobras de liberdade de navegação" em águas internacionais que a China reivindica como seu território.

Tzu-yun Su, analista do Instituto de Defesa Nacional e Pesquisa de Segurança em Taiwan, disse que os exercícios militares da China pretendem ser uma "guerra psicológica estratégica" contra Taiwan, e um sinal de que Pequim quer "impedir que os militares dos EUA apoiem Taiwan".

Os Estados Unidos são o principal patrocinador militar de Taiwan, vendendo armas e tecnologia de defesa muito necessárias a Taipei. Por décadas, Washington vendeu armas para a ilha sob a Lei de Relações de Taiwan, que permite o fornecimento de armas "defensivas".

Míssel Hsiung Feng III
Mísseis antinavio são parte integrante do arsenal de TaiwanFoto: Ritchi B. Tongo/EPA/picture alliance

Desde 2019, Taiwan encomendou pelo menos 17 bilhões de dólares em equipamentos militares dos EUA, segundo o Defense News. Isso inclui um pedido de 8 bilhões de dólares por 66 caças F-16, ainda na gestão do ex-presidente Donald Trump - um dos maiores pedidos individuais de todos os tempos.

Em julho de 2022, o Departamento de Estado dos EUA aprovou a possível venda de "assistência técnica militar" no valor de 108 milhões de dólares para Taiwan. O Pentágono disse em comunicado que Taiwan solicitou peças de reparo para tanques e veículos de combate, armas pequenas, sistemas de armas de combate e itens de apoio logístico.

Em janeiro, em meio ao aumento das missões chinesas na zona de identificação de defesa aérea de Taiwan, o legislativo da ilha aprovou 8,6 bilhões de dólares extras em gastos com defesa, muitos dos quais provavelmente serão alocados para armas antinavio.

Estratégia “porco-espinho”

No entanto, apesar do apoio dos EUA e de mais gastos com defesa, Taiwan ainda não consegue acompanhar a modernização militar de décadas da China. Essa incompatibilidade empurra Taiwanpara construir sua capacidade de "guerra assimétrica", também chamada de "estratégia porco-espinho".

O modelo envolve o uso de armas menores, mas altamente eficazes, para combater uma força inimiga maior. O sucesso da Ucrânia em evitar a primeira fase da invasão da Rússia, por exemplo, usando foguetes disparados dos ombros dos soldados para dizimar tanques, foi citado como uma aplicação bem-sucedida da estratégia.

Os EUA estão agora aconselhando Taiwan a comprar armamento projetado para mobilidade e precisão para combater uma eventual invasão marítima da China.

Em maio, o New York Times e o Politico informaram que o Departamento de Estado havia dito a Taipei que deveria se concentrar na aquisição de equipamentos adequados para guerra assimétrica e que melhor dissuadissem e defendessem contra a China – como mísseis e artilharia atualizada – em vez de tentar obter armas caras, como helicópteros projetados para caçar submarinos.

Desde o governo Trump, Washington já aprovou a venda de sistemas assimétricos como mísseis de defesa costeira Harpoon, sistemas de foguetes de artilharia de alta mobilidade (Himars), mísseis Stinger e drones "hunter killer" MQ-9.

Navio em mar, durante treinamento
Navios militares taiwaneses durante exercícios militares anuais, em 26 de julho de 2022.Foto: Takahiro Suzuki/ASSOCIATED PRESS/picture alliance

Ambiguidade estratégica

No entanto, nem todas as armas encomendadas chegaram, devido a problemas de produção e à guerra na Ucrânia. Isso vem junto com as críticas de que os EUA estão se movendo muito devagar quando se trata de priorizar a defesa de Taiwan como na segurança nacional.

Os EUA não têm laços diplomáticos formais com Taiwan e reconhecem a República Popular da China (RPC), com sede em Pequim, como o "único governo legal da China" sob a política de "uma só China".

Pequim vê Taiwan como uma província chinesa que um dia será "reunida" com o continente – mesmo que para isso seja necessário usar a força.

No entanto, os EUA não reconhecem explicitamente a soberania chinesa sobre Taiwan e continuam fornecendo armas para a ilha autogovernada, o que levou à atual complicada área cinzenta diplomática e estratégica.

Sob a Lei de Relações de Taiwan de 1979, Washington mantém uma postura de "ambiguidade estratégica", o que significa que a intervenção militar direta não é garantida, mas também não é explicitamente descartada.

No entanto, comentários recentes do presidente americano, Joe Biden, de que os EUA "defenderiam" Taiwan se a ilha fosse atacada pela China causaram confusão e forçaram a Casa Branca a esclarecer que Washington não mudou de posição.

Há alguns apelos nos círculos de política externa dos EUA para que o país mude o tom, à medida que a China aumenta gradualmente suas capacidades militares. Críticos dizem que a política vem de uma época em que os militares dos EUA superavam amplamente os da China.

Richard Haass, diretor do Council on Foreign Relations, escreveu no Foreign Affairs que Washington precisa mudar para uma política de "claridade estratégica".

O velho "manual que funcionou quando Taiwan e os Estados Unidos tinham uma vantagem militar sobre a China dificilmente manterá afastado um PLA [Exército de Libertação Popular] que passou as últimas duas décadas e meia se preparando para um conflito em Taiwan", escreveu Haass.

"Washington precisa fazer da preparação para um conflito em Taiwan a principal prioridade do Departamento de Defesa e abastecê-la de acordo", acrescentou.

O analista taiwanês Su disse que, embora o PLA esteja montando uma demonstração de força "sem precedentes" esta semana, a chance de escalada é "muito pequena" porque uma guerra agora é muito "desfavorável para Pequim" - e a vitória é incerta.

"Xi Jinping não pode arriscar seu terceiro mandato como líder chinês", acrescentou.

Turistas em um mirante perto do mar observam um helecóptero
Turistas observam um helicóptero militar chinês sobrevoando a ilha de Pingtan, perto de TaiwanFoto: Hector Retamal/AFP/Getty Images

Os EUA vão intervir?

Em 1950, logo depois que o Partido Comunista Chinês assumiu a China continental, o general do Exército dos EUA Douglas MacArthur disse que Taiwan (então chamada de Formosa) nas "mãos dos comunistas" poderia ser comparada a um "porta-aviões inafundável" que colocaria em risco os interesses estratégicos dos EUA no Pacífico.

No entanto, é improvável que os EUA interfiram nas manobras desta semana, que equivalem apenas a exercícios militares, disse Lev Nachman, professor de ciência política da Universidade Nacional de Chengchi, em Taiwan.

"Acho que esta é uma tática clara de intimidação e, se os EUA considerarem mudar a ambiguidade estratégica, isso mostra que Pequim teve muito sucesso em assustar a todos", sublinhou.

Nachman acrescentou, no entanto, que a situação atual pode mudar o cálculo político doméstico nos EUA. "Acho que todos os políticos hawkish [que tendem a optar por uma retórica mais agressiva] nos EUA vão engolir isso", disse ele.

"Eu me preocupo que isso possa ser uma corrida para o fundo, e isso dá combustível para aqueles que procuram uma postura agressiva em relação à China para justificar sua posição. Esses tipos de reações fortes serão alimentadas".