Chefe de gabinete de Trump admite troca de favores com a Ucrânia | Notícias internacionais e análises | DW | 18.10.2019

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Estados Unidos

Chefe de gabinete de Trump admite troca de favores com a Ucrânia

Mick Mulvaney diz que presidente congelou ajuda financeira a Kiev para pressionar o país a investigar teoria conspiratória sobre democratas relacionada à eleição de 2016. Fala pode ter reflexo no processo de impeachment.

Mick Mulvaney, chefe de gabinete interino da Casa Branca

Mick Mulvaney, chefe de gabinete interino da Casa Branca: "Fazemos isso o tempo todo na política externa"

Um alto funcionário da Casa Branca admitiu nesta quinta-feira (17/10) que o presidente Donald Trump congelou ajuda financeira à Ucrânia como forma de pressionar o país a investigar uma acusação relacionada à eleição americana de 2016, já descartada como teoria da conspiração.

A declaração, feita pelo chefe de gabinete interino da Casa Branca, Mick Mulvaney, contradiz o presidente americano, que segue negando qualquer tipo de troca de favores com a Ucrânia, e pode ter reflexos sobre o processo de impeachment movido contra Trump no Congresso dos EUA.

Mulvaney se referuiu à suspeita de Trump de que um servidor de computadores do Comitê Nacional Democrata (DNC, na sigla em inglês), invadido por hackers russos e que armazenaria e-mails da então candidata democrata Hillary Clinton, estaria na Ucrânia.

A hipótese sugeria que a Ucrânia, e não a Rússia, teria interferido na eleição presidencial americana de três anos atrás. Nunca houve provas sobre a suspeita, que acabou sendo desmentida e classificada como teoria conspiratória.

Segundo Mulvaney, Trump disse a ele que estava preocupado com o envio de dinheiro para a Ucrânia devido à corrupção neste país, mas essa não seria a única razão para congelar o pacote de quase 400 milhões de dólares em ajuda militar ao governo ucraniano.

"Ele [Trump] mencionou para mim, no passado, a corrupção ligada ao servidor do DNC? Absolutamente. Não há dúvida disso", afirmou Mulvaney em entrevista coletiva. "É por isso que retivemos o dinheiro."

"A revisão do que ocorreu em 2016 certamente fez parte de suas preocupações em relação à corrupção naquele país [Ucrânia]. E isso é absolutamente apropriado", acrescentou.

Um jornalista disse então que o que ele acabara de descrever era quid pro quo, expressão em latim para se referir a troca de favores, ou toma lá dá cá. "Fazemos isso o tempo todo na política externa", respondeu o chefe de gabinete interino, argumentando que o congelamento de ajuda à Ucrânia não é ilegal.

Ele mencionou como exemplo a suspensão de repasses americanos a Guatemala, El Salvador e Honduras até que seus governos aceitassem cooperar com a Casa Branca para conter o fluxo migratório rumo à fronteira entre o México e os Estados Unidos.

A diferença é que, no caso desses países, não havia benefício eleitoral para Trump, violação que os democratas consideram ser passível de impeachment.

A investigação que pode culminar no afastamento de Trump focou até agora na possibilidade de o presidente ter imposto outra condição para congelar a ajuda militar aos ucranianos: a abertura de um inquérito contra o ex-vice-presidente americano Joe Biden e seu filho, Hunter Biden.

Trump reconheceu ter pressionado o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, para que investigasse o agora pré-candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, mas negou ter havido troca de favores para que o inquérito fosse aberto.

"O dinheiro que retivemos não teve absolutamente nada a ver com Biden", frisou Mulvaney.

Contudo, a admissão do alto funcionário pode dar aos democratas novos motivos para seguir com o processo de impeachment. Assim como no caso de Biden, a Casa Branca teria pedido ajuda a um terceiro país para obter vantagem nas eleições.

A declaração provocou reação imediata dos democratas no Congresso. "Acho que o reconhecimento de Mulvany significa que as coisas passaram de muito, muito ruins para muito, muito piores", disse o chefe do Comitê de Inteligência da Câmara, Adam Schiff, que comanda o processo de impeachment.

O advogado pessoal de Trump, Jay Sekulow, emitiu um comunicado em que a equipe jurídica do presidente se distancia das afirmações de Mulvaney. "O conselho jurídico do presidente não esteve envolvido na coletiva de imprensa do chefe de gabinete interino", diz a nota.

Mais tarde, Mulvaney também divulgou um comunicado contradizendo o que dissera antes e alegando que seus comentários foram mal interpretados.

"Deixe-me ser claro, não houve absolutamente qualquer quid pro quo entre a ajuda militar ucraniana e qualquer investigação referente à eleição de 2016", disse. "O presidente nunca me disse para reter qualquer dinheiro até que os ucranianos fizessem alguma coisa relacionada ao servidor."

EK/efe/dpa/ap/rtr

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