Bolsonaro lança ataques a reservas em reunião com governadores da Amazônia | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 27.08.2019
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Brasil

Bolsonaro lança ataques a reservas em reunião com governadores da Amazônia

Combate às queimadas fica em segundo plano em encontro recheado de críticas do presidente às demarcações, à imprensa e ao Fundo Amazônia. Governadores do Pará e Maranhão destoam e dizem que país não pode recusar ajuda.

Brasilien | Bolsonaro trifft sich mit Amazonas-Gouverneuren (Agência Brasil/M. Corrêa
)

Bolsonaro e os nove governadores da Amazônia Legal. Presidente pouco falou sobre queimadas e desmatamento

Em meio à crise provocada pelo aumento do desmatamento e das queimadas que vem arranhando a imagem do Brasil no exterior, o presidente Jair Bolsonaro se reuniu nesta terça-feira (27/08) em Brasília com os nove governadores da Amazônia Legal.

Na pauta estava a discussão de medidas para deter as queimadas, mas Bolsonaro acabou usando o encontro  para lançar novos ataques à imprensa, ao presidente francês, Emmanuel Macron, e à política indigenista e ambiental do Brasil, além de criticar o Fundo Amazônia.

Ao longo de mais de duas horas de encontro, houve pouca discussão sobre como evitar novos incêndios. A reunião foi transmitida ao vivo pela TV Brasil, estatal do governo.

Ao conversar com os governadores, Bolsonaro pediu que cada um falasse sobre as reservas indígenas e ambientais em seus estados. Em vários momentos, o presidente aproveitou para afirmar que essas reservas "inviabilizaram" a atividade econômica e o turismo.

Ele também classificou a política ambiental de governos anteriores – que, segundo ele, favoreceu a criação dessas reservas – de "selvageria" e "irresponsabilidade". "Não dá para admitir um país tão rico como o nosso nessa situação", afirmou.

O presidente ainda afirmou que o Ministério da Justiça, responsável pela Funai, tem mais quatro centenas de pedidos de demarcação de terras indígenas. Segundo o presidente, seu governo não vai demarcar essas áreas. "Já extrapolou essa verdadeira psicose no tocante à demarcação de terras", disse.

Bolsonaro ainda falou que governos anteriores usaram os indígenas como "massa de manobra" para "inviabilizar" os estados da Amazônia. Ele ainda aproveitou para criticar Macron, que assumiu o protagonismo internacional da reação às queimadas e às medidas antiambientais de Bolsonaro. Segundo o presidente, o francês só assumiu esse papel para reverter sua baixa popularidade interna.

"Pessoas com o pensamento como o senhor Macron, ele deve pensar duas, três vezes, antes de querer sair de uma situação complicada [em] que se encontra, uma rejeição enorme no seu país, até mesmo, cerrando conosco", disse Bolsonaro.  

Reação dos governadores

Houve uma clara divisão entre os governadores presentes. Seis deles demonstraram mais alinhamento com o presidente e alimentaram a discussão repleta de críticas às reservas ambientais e ao presidente Macron: Gladson Camelli (PP), do Acre; Wilson Lima (PSC), do Amazonas; Marcos Rocha (PSL), de Rondônia; Antônio Denarium (PSL), de Roraima; Mauro Mendes (DEM), do Mato Grosso; e Mauro Carlesse (DEM), de Tocantins.

Já os governadores Waldez Góes (PDT), do Amapá, Flávio Dino (PCdoB), do Maranhão, e Helder Barbalho (MDB), do Pará, preferiram falar sobre o combate aos incêndios e manifestaram preocupação com uma possível extinção do Fundo Amazônia, programa de proteção da floresta que conta com recursos da Alemanha e da Noruega.

Nos últimos meses, o governo Bolsonaro promoveu mudanças unilaterais na gestão do fundo, contrariando os doadores. Em retaliação, a Noruega suspendeu o envio de novos recursos, uma iniciativa que foi tratada com desprezo por Bolsonaro, que disse que os noruegueses "não têm nada a oferecer ao Brasil".

Na reunião, o governador do Pará, Helder Barbalho, falou sobre os focos de incêndio no seu estado e propôs um plano de integrar órgãos federais e estaduais para combater o fogo e prender os responsáveis pelo desmatamento. Ele disse ainda que análises vêm mostrando que as queimadas no Pará não estão ligadas à atividade madeireira, mas sim a abertura de pastos em áreas de proteção ambiental.

Barbalho falou que não concorda com a atitude do governo federal em recusar a oferta de ajuda do G7 e promover o desmonte do Fundo Amazônia. "Todos nós sabemos as dificuldades fiscais que nossos estados têm. Se há recurso disponível no Fundo Amazônia, devemos utilizá-lo. E nós devíamos pedir mais recursos."

Enquanto Barbalho falava, Bolsonaro mal olhou para o governador. Ao final, ainda o chamou pelo nome de seu pai, o senador Jader Barbalho, e voltou a reclamar da demarcação de reservas.

Flávio Dino, do Maranhão, também defendeu buscar cooperação com outras nações para preservar a floresta. "Nós não podemos dizer que as ONGs são inimigas do Brasil. Não é tacando fogo nelas que vamos salvar a Amazônia." Ele ainda defendeu o Fundo Amazônia, afirmando que o governo "não pode rasgar dinheiro".

Bolsonaro interrompeu a fala do governador em certo momento para reclamar do número de áreas quilombolas na Amazônia Legal e lançar acusações contra o Jornal Nacional, da TV Globo, que segundo ele tem agido contra o governo. Na maior parte das suas falas contra esses alvos, Bolsonaro preferiu olhar para a câmera, e não para os governadores.

Próximo ao final da reunião, o ex-general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), aproveitou uma das falas acusatórias de Bolsonaro para lançar novos ataques à França, afirmando que Macron tem uma "posição colonialista". "90% das colônias francesas vivem em situação lamentável. Então talvez fosse bom isso ser lembrado por algum jornalista que tenha algum sentido patriótico, que a França não pode dar lição a ninguém. Isso é molecagem."

A fala de Heleno provocou uma reação do governador Barbalho. Segundo ele, os brasileiros estão perdendo muito tempo com as controvérsias envolvendo Macron.

"Acho que temos que cuidar do nosso país e tocar a vida, estamos dando muita importância para esse tipo de comentário, não desprezando a importância econômica que a França possa ter", disse. "Precisamos sinalizar para o mundo a diplomacia ambiental, que é fundamental para o agronegócio. Senão, vamos ter um prejuízo severo de imagem."

Fundo Amazônia

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também presente na reunião, afirmou que não é contra o Fundo Amazônia, mas que deseja apenas mudanças na gestão. Isso motivou outra manifestação de Barbalho, que disse então que o ministro e o governo federal deveriam explicar melhor essa posição. Barbalho ainda afirmou considerar que os conflitos envolvendo o Fundo Amazônia foram o "nascedouro" da crise internacional de imagem do Brasil.

Ao final da reunião, após uma fala do amapaense Waldez Góes em defesa do Fundo Amazônia, Bolsonaro, já impaciente, lançou novos ataques ao programa.

"Em grande parte esse dinheiro vem de fora do Brasil, e isso tem um preço: demarcação de terras indígenas, áreas de proteção ambiental, quilombolas, parques nacionais etc. Isso leva a um destino que nós já sabemos: insolvência do Brasil. Nós vamos ter que enfrentar essa questão de qualquer maneira. É uma realidade."

O presidente ainda afirmou que a crise de imagem do país na área ambiental está ocorrendo por causa da TV Globo e porque ele não quis demarcar "dezenas de novas áreas indígenas", e não tem relação com qualquer queimada. "Se eu demarcar, o fogo acaba na Amazônia em alguns minutos."

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