Bolsonaro copia campanha italiana que precedeu explosão de mortes | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 27.03.2020
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Coronavírus

Bolsonaro copia campanha italiana que precedeu explosão de mortes

Em meio à pandemia, governo lança campanha "O Brasil não pode parar". Prefeito italiano difundiu slogan "Milão não para" no fim de fevereiro. Um mês depois, região acumula mais de 5.400 mortes por coronavírus.

Trecho da campanha Milão não para

Trecho da campanha "Milão não para". Políticos da região da Lombardia inicialmente resistiram em apoiar medidas drásticas de confinamento

Em meio ao avanço do coronavírus no Brasil, o governo de Jair Bolsonaro lançou uma campanha publicitária com o slogan "O Brasil não pode parar", que segue o espírito de uma série de declarações recentes do presidente, contrário a medidas tomadas por vários estados para forçar o isolamento social como forma de combater a pandemia.

O slogan é praticamente idêntico ao de uma campanha que foi difundida pelo prefeito de Milão, Giuseppe "Beppe" Sala, no fim de fevereiro. No dia 27 daquele mês, quando ele reproduziu o primeiro vídeo da campanha "Milão não para" (Milano non si ferma, no original) nas redes sociais, a Itália toda só contava 17 mortes provocadas pelo coronavírus e 147 infectados.

O vídeo havia sido criado por uma associação de bares e restaurantes da cidade, e mostrava pessoas em situações descontraídas em restaurantes, passeando em parques e esperando em estações de trem. A última mensagem dizia "Nós não vamos parar". Dois dias depois, o prefeito Sala também divulgou no Instagram uma foto na qual aparecia usando uma camiseta com o slogan "Milão não para". O vídeo também foi difundido em fevereiro pelo ultradireitista Matteo Salvini, ex-vice-premiê da Itália.

Attilio Fontana, o governador da Lombardia, região onde fica Milão, seguiu a mesma linha. Ele afirmou no dia 25 de fevereiro que coronavírus "não era mais do que uma gripe". O político filiado ao partido de extrema direita Liga acabou ordenando o relaxamento de restrições a bares e restaurantes que haviam sido impostas inicialmente. Em Milão, pontos turísticos como a Catedral reabriram.

Mas a situação se deteriorou rapidamente nos dias que se passaram. Menos de duas semanas depois de o prefeito Sala ter divulgado o vídeo, a região da Lombardia inteira foi colocada em quarentena. Dias depois, as medidas para bloquear a circulação de pessoas foram estendidas para todo o país.

Um mês depois do vídeo ter ido ao ar, apenas a região da Lombardia acumula 5.402 mortes por coronavírus. A região metropolitana de Milão sozinha conta 7.469 casos oficiais de infecção.

A Itália ainda registrou nesta sexta-feira o seu recorde de mortes diárias: 969, que superaram a marca anterior de 793 do último sábado. Dessas novas mortes, 541 aconteceram na Lombardia, cujo centro econômico é Milão.

Ao todo, o país acumula 9.134 mortes e tem ainda 86.500 casos de infecção, segundo números desta sexta-feira.

Diante da evolução trágica da situação, o prefeito milanês Beppe Sala pediu desculpas nesta semana por ter endossado a campanha "Milão não para". 

"Muitos se referem àquele vídeo que circulava com o título 'Milão não Para'. Era 27 de fevereiro, o vídeo estava explodindo nas redes, e todos o divulgaram, inclusive eu. Certo ou errado? Provavelmente, errado", afirmou à TV RAI.

"Ninguém ainda havia entendido a virulência do vírus, e aquele era o espírito. Trabalho sete dias por semana para fazer minha parte, e aceito as críticas", completou.

A versão brasileira

Os primeiros materiais da campanha brasileira apareceram na quinta-feira (26/03) no Instagram do governo federal. "Vamos, com cuidado e consciência, voltar à normalidade. #oBrasilNãoPodeParar", diz um trecho do material.

Também foram produzidos vídeos com tom similar – um deles foi divulgado por um dos filhos de Bolsonaro, o senador Flávio. "Para quem defende a vida dos brasileiros e as condições para que todos vivam com qualidade, saúde e dignidade, o Brasil definitivamente não pode parar", diz a peça.

Toda a campanha contraria recomendações de médicos e da Organização Mundial da Saúde (OMS) e vai na contramão das medidas que vêm sendo adotadas por governos e líderes mundiais.

Só que na visão de Bolsonaro, as medidas que vêm sendo adotadas mundo afora têm potencial de prejudicar a economia, que já vinha registrando crescimento pífio antes mesmo da pandemia. O presidente defende que apenas os grupos de risco – idosos e doentes – sejam isolados. É o chamado "isolamento vertical" ou "parcial". Mas Bolsonaro também deixou claro que o governo não pretende se envolver ativamente nem mesmo nesse caso.

"O brasileiro tem que entender que quem vai salvar a vida dele é ele, pô! Não tem que ficar esperando vereador, deputado, senador ou presidente cuidar da vida dele. Se ele não tem capacidade ou não tem amor pelo avô ou pelo bisavô, paciência", disse Bolsonaro na quinta-feira.

Antes dessas declarações, ele já havia minimizado a pandemia classificando o coronavírus como uma "gripezinha" e "resfriadinho".

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, o governo federal reconheceu aos estados não ter estudos que embasem a iniciativa do isolamento parcial.

Nesta sexta-feira, Bolsonaro voltou a defender "a volta ao trabalho" e o relaxamento de medidas de isolamento social.

 "O maior remédio para a doença é o trabalho. Quem pode trabalhar, tem que voltar a trabalhar. Não pode se esconder, ficar de quarentena não sei quantos dias em casa e está tudo bem. Não é assim", disse, em entrevista à TV Bandeirantes.

"Alguns vão morrer, vão morrer, lamento, é a vida. Não pode parar uma fábrica de automóveis porque tem mortes no trânsito", completou.

Na internet, apoiadores do presidente também vêm difundido campanhas semelhantes. Alguns chegaram a organizar carreatas em cidades brasileiras, como Curitiba e Balneário Camboriú (SC), para exigir uma "volta ao trabalho" e protestar contra governos estaduais.

A campanha lançada pelo governo tem previsão de custo de 4,8 milhões de reais e foi contratada sem licitação.

Nesta sexta-feira, o Brasil já acumulava 92 mortes e mais de 3 mil casos de contaminação pelo coronavírus.

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