Biontech e a história por trás da vacina para a covid-19 | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 02.12.2020

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Economia

Biontech e a história por trás da vacina para a covid-19

Empresa alemã teve sua vacina contra o novo coronavírus, produzida em parceria com a Pfizer, aprovada no Reino Unido. Por trás dessa história de sucesso está um casal de médicos, ambos filhos de imigrantes turcos.

Casal Ugur Sahin e Özlem Türeci, fundadores da Biontech

Casal Ugur Sahin e Özlem Türeci, fundadores da Biontech

Lightspeed (velocidade da luz) foi o nome do projeto lançado pela empresa alemã Biontech em meados de janeiro. A meta era nada menos que desenvolver uma vacina contra o coronavírus em tempo recorde. E, desde então, o empreendimento progrediu num ritmo que justifica o nome.

Se o desenvolvimento de uma vacina leva de oito a dez anos em tempos normais, os pesquisadores de Mainz contavam conseguir que seu imunizante fosse aprovado meses após o início das pesquisas.

Nesta quarta-feira (02/12) o governo do Reino Unido anunciou a aprovação da vacina da covid-19 produzida em parceria pela multinacional Pfizer e a empresa alemã Biontech, com eficácia anunciada de 95%.

Na véspera, ambas haviam solicitado às autoridades da União Europeia a autorização para uso condicional de seu produto. Com isso, tornaram-se as primeiras na corrida mundial pela vacina .

Imunoterapia contra câncer

Por trás da empresa de biotecnologia Biontech estão sobretudo duas pessoas: Ugur Sahin e Özlem Türeci. Já em janeiro de 2020, quando o Sars-Cov-2 grassava na China e quase ninguém na Europa estava seriamente preocupado com uma pandemia, o casal de médicos reagiu e concentrou sua pesquisa numa vacina contra o vírus. Três meses depois, já tinha em desenvolvimento clínico as primeiras substâncias candidatas a uma vacina.

Mão com luva de borracha azul segura ampola

Desenvolvido por Biontech e Pfizer, BNT162 é esperança para vencer pandemia

Até então, os dois se concentravam na luta contra o câncer, com uma abordagem que difere significativamente do tratamento convencional da doença. Os dois cientistas acreditam que, uma vez que não há dois doentes nos quais a mutação genética das células cancerosas seja exatamente a mesma, os pacientes com câncer não devem ser tratados uniformemente com cirurgia, quimioterapia ou radiação. Em vez disso, a tese é que todo paciente precisa de um tratamento especialmente feito para ele.

Sahin e Türeci querem aproveitar o fato de o corpo humano poder se autoajudar em caso de ataque de bactérias ou vírus. O objetivo é desenvolver uma imunoterapia que estimule os mecanismos de autocura e envie a própria força policial do corpo para tornar inofensivos os tumores malignos.

Vocação para a pesquisa

"Percebi muito cedo que me interessava por ciências", disse Sahin, por ocasião da cerimônia de entrega do Prêmio Mustafa em 2019. Nascido na Turquia, aos quatro anos ele se mudou com a mãe para Colônia, na Alemanha, onde seu pai trabalhava na fábrica da Ford. Depois de terminar o ensino médio, estudou medicina na Universidade de Colônia. "Eu me interessei por imunoterapia", conta o pesquisador, de 54 anos. No foco de seu interesse está o funcionamento do sistema imunológico e como ele pode ser direcionado para identificar e atacar células cancerosas.

Com apenas 20 anos, começou a trabalhar em laboratório. "Tínhamos aulas até as 16h e, enquanto meus colegas iam para casa, eu subia para o laboratório e trabalhava lá. Geralmente até 21h, 22h, às vezes até as 4h", lembra Sahin.

Em 1992, Sahin concluiu seu doutorado com nota máxima, depois trabalhou como especialista em hematologia e oncologia na Universidade de Colônia. Ele conheceu sua futura esposa mais tarde, quando trabalhava no Hospital da Universidade do Sarre.

Prédio da Biontech em Mainz, na Alemanha

Prédio da Biontech em Mainz, na Alemanha

Foco no paciente

Özlem Türeci é filha de um médico turco chegado à Alemanha de Istambul. Quando Sahin chegou ao Sarre, Türeci ainda estudava medicina naquele mesmo estado. Hoje, a professora da Universidade de Mainz é considerada uma pioneira na imunoterapia contra o câncer.

Ela diz que foi influenciada principalmente por sua família. "Meu pai era um médico muito dedicado aos pacientes, e desde criança já era impressionada por suas atitudes, em que o cuidado do paciente era o foco principal", afirma a especialista no site innovationsland-deutschland.de, um portal do Ministério de Educação e Pesquisa da Alemanha.

"O consultório do meu pai ficava na casa da família, quando crianças nós brincávamos entre os pacientes. Já naquela época, na casa dos meus pais não havia uma separação rígida entre trabalho e vida privada", lembra Türeci. Ela queria ajudar os outros, como seu pai. Inicialmente como freira, como disse à revista Impulse. Mais tarde se decidiu pela medicina.

Quando ambos se casaram, em 2002, Sahin já trabalhava na Clínica da Universidade de Mainz. Mesmo no dia do casamento, ele trabalhou no laboratório – antes da cerimônia no cartório e novamente depois.

Nascimento da Biontech

Em 2001, Sahin e Türeci fundaram a empresa biofarmacêutica Ganymed Pharmaceuticals, que desenvolve drogas imunoterápicas contra o câncer. Em 2016, ela foi vendida por cerca de 422 milhões de euros. Em 2008, seguiu-se a próxima fundação de Sahin, Türeci e outros: Biontech. A empresa desenvolve sobretudo tecnologias e medicamentos para imunoterapia individualizada de câncer. No entanto, nenhum deles ainda conseguiu aprovação.

Sahin é presidente da Biontech e continua a lecionar na Universidade de Mainz. Türeci é responsável pelo trabalho de pesquisa e desenvolvimento da empresa e continua a trabalhar como professora na Universidade de Mainz.

Mais de 1.300 funcionários de 60 países trabalham na Biontech, mais da metade são mulheres e com alto nível de escolaridade – cerca de um quarto tem um doutorado ou PhD. Em outubro, a empresa deu o salto para o cenário internacional ao ser listada na bolsa de tecnologia americana Nasdaq, e tem crescido continuamente por meio de aquisições.

"Para podermos fornecer imediatamente doses de vacinas para distribuição comercial, no caso de uma aprovação de nossa candidata a vacina, BNT162, já estamos investindo fortemente na expansão de nossa capacidade de produção. Em nossas duas unidades, em Idar-Oberstein e Mainz, as linhas de produção já funcionam 24 horas por dia", dizia o relatório anual da empresa.

Agora coroado pela aprovação da vacina anti-covid em colaboração com a Pfizer, o longo trabalho de pesquisa está valendo a pena para o casal de médicos, também materialmente: Ugur Sahin detém 18% das ações da Biontech e, com o sucesso da empresa, rapidamente se tornou um dos 100 alemães mais ricos – pelo menos no papel.

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Este texto havia sido publicado originalmente em 11 de novembro e foi atualizado.

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