Autora de ″Persépolis″ fala sobre emigração, revoluções e o Irã | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 20.10.2011
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Cultura

Autora de "Persépolis" fala sobre emigração, revoluções e o Irã

Com "Persépolis", a iraniana Marjane Satrapi foi muitíssimo celebrada. Ao apresentar na Alemanha a adaptação para o cinema de outra HQ de sua autoria, "Frango com ameixas", a quadrinhista discorreu sobre sua trajetória.

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Marjane Satrapi

Marjane Satrapi, com batom em forma de coração e sobrancelhas levantadas, diz sorrindo: "E meus cabelos negros são tingidos. Imagine você, eu, com essa cara, e ainda cabelos brancos? Iria ficar igual a um diabo!", brinca, fazendo uma careta e rindo com vontade.

A quadrinhista de 41 anos confessa que "gosta de viver". "Toda manhã acordo com um largo sorriso no rosto e é preciso muita coisa ruim e por muito tempo para conseguir tirar meu bom humor", diz. Satrapi parece estar ainda mais feliz por ter um cigarro na mão. Com uma piscadela, confessa que, como se pode perceber, o vício a faz feliz.

Scan aus Persepolis, Comic von Marjane Satrapi

'Persépolis' lançou Satrapi no cenário internacional

"Acho que fumar conserva. Você sabe, a carne não é defumada para ser conservada? Então, é por isso que não tenho rugas", dispara. Embora tenha uma trajetória de sucesso há anos, Satrapi não parece nem um pouco arrogante, destilando frequentes doses de autoironia. Ela apresentou em Hamburgo seu novo filme – Frango com ameixas, mesmo título da HQ já publicada no Brasil –, que se passa na Teerã dos anos 1950.

Nessa época, Satrapi não ainda havia nascido, mas "esse período me inspira muito", diz. Foi quando o então premiê Mossadegh estatizou os lucros obtidos com a venda do petróleo e uma espécie de vento democrático se espalhou pelo país. Pouco depois, contudo, norte-americanos e britânicos fizeram com que o adorado político fosse expulso do país e acabou-se a revolução.

Planta antiga em terra nova

"Esse fato significou uma perda para os iranianos", diz Satrapi, descrevendo o que considera uma parte da narrativa de seu novo filme. A outra trata do amor infeliz de um violinista por uma mulher de nome Irane. Assim Satrapi sublinha sua própria saudade do Irã.

Durante a Guerra do Iraque, seus pais a enviaram para a Áustria, e dali ela emigrou para a França, onde mora em caráter definitivo desde 1994. "É como tirar uma planta da terra e transpor para um vaso. Mesmo que você regue bem a flor, não vai adiantar muito, pois ela estava acostumada à sua terra de origem", compara a quadrinhista.

As lembranças que ela guarda de Teerã são aquelas de sua juventude: as montanhas de 5 a 6 mil metros de altitude, com seus cumes cobertos de neve; a poluição do meio ambiente, alguns ruídos e a comida. "Meu estômago precisou de três anos para conseguir digerir a comida francesa", relata.

Liberdade no exílio

Depois do sucesso estrondoso de Persépolis, no ano 2000, e do filme homônimo que veio a seguir, a desenhista de histórias em quadrinhos, cineasta e roteirista passou a ser requisitada como nunca. Embora tenha, hoje em dia, a cidadania francesa, ela diz que não se sente parte integrante da sociedade do país. E nem quer se sentir. "Nunca tive a sensação de fazer parte de qualquer sociedade. Estou aqui, com meus amigos em volta, e esta é a minha vida. Vivo como se estivesse sob uma redoma", compara.

Satrapi escolheu viver assim. Ela deixou o Irã ao perceber que o país não dava mais espaço para qualquer um que criticasse o sistema. Para ela, não havia alternativa: "Tenho grande respeito por todo aquele que continua morando no Irã. Eu não conseguiria. Preciso da minha liberdade. Sem ela, fico mal-humorada e me torno agressiva", confessa.

Flash-Galerie Eröffnung Filmfestspiele Venedig 2011

A autora em Veneza: discurso pela liberdade

"Primavera Iraniana"

Faz tempo que ela não tem mais coragem de visitar seu país de origem, "porque nunca se sabe se você sai de lá de novo", especula. Ao mesmo tempo, Satrapi acompanha detalhadamente o que acontece no Irã e acredita que os acontecimentos no país são ainda mais extraordinários que aqueles ocorridos nos países árabes.

"Todo o mundo fala da 'Primavera Árabe'. No entanto, sinceramente, não consigo reconhecer essa 'primavera' nas imagens que vejo na TV. Constantemente vejo só homens protestando nas ruas", analisa Satrapi, séria. A igualdade entre os gêneros, ressalta, é, contudo, um pré-requisito para o desenvolvimento da democracia.

Neste sentido, diz a quadrinhista, o Irã está muito mais avançado que os países árabes. No país, as mulheres vão às ruas protestar junto com os homens. Elas estudam, trabalham e não se deixam mais comandar pelos homens, afirma. "Ali acontece algo realmente elementar: a sociedade transforma-se de baixo para cima", descreve Satrapi com orgulho. A artista está certa de que um dia irá voltar para seu país. Mesmo que seja somente para ser enterrada em terras iranianas.

Autora: Kathrin Erdmann (sv)
Revisão: Augusto Valente

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