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"Assad é único que pode parar EI na Síria"

Peter Hile (rc)22 de maio de 2015

Especialista refuta tese de que extremistas estão enfraquecidos e defende que ao Ocidente não resta alternativa, senão aproximar-se do ditador sírio e lhe oferecer apoio militar.

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IS Syrien Kämpfer Islamischer Staat Rakka
Foto: picture-alliance/AP Photo/Raqqa Media Center

A organização extremista "Estado Islâmico" (EI) obteve, na última semana, vitórias significativas com as conquistas de Ramadi, no Iraque, e de Palmira, na Síria.

Segundo Michael Lüders, cientista político e especialista em estudos islâmicos, os avanços derrubam a tese de que os extremistas estavam enfraquecidos.

Em entrevista à DW, ele diz que o Ocidente tem poucas opções para uma possível derrota do EI. Na Síria, restaria a alternativa de se aliar ao presidente Bashar al-Assad. Já no Iraque, o governo dominado pelos xiitas precisaria conquistar a confiança da população sunita.

Deutsche Welle: A ocupação de Palmira é uma vitória importante para os extremistas ou apenas mais um reforço para sua máquina de propaganda?

Michael Lüders: Esta é mesmo uma vitória importante para o EI, uma vez que Tadmor, próxima às ruínas de Palmira, é a primeira cidade conquistada pelos extremistas que estava sob controle do Exército de Bashar al-Assad. Em termos psicológicos, é um golpe duro para o regime sírio.

Palmira é famosa pelos templos antigos e tesouros culturais. Seria essa uma das razões da investida do EI?

Eles certamente estão cientes do papel desse local histórico como patrimônio cultural. Há motivos para suspeitar que o EI deva vender tudo o que conseguir. Além disso, há indicações de que sítios históricos que sobreviveram durante mais de 2 mil anos deverão ser explodidos.

22.11.2012 DW QUADRIGA Michael Lüders
Michael Lüders é cientista político e especialista em estudos islâmicos

Qual é a importância estratégica da cidade, que tem uma população de 70 mil?

Deve-se analisar a geografia local. Palmira está a apenas 150 quilômetros de Homs. Do ponto de vista geoestratégico, é uma das principais cidades do país, por onde passam todas as rotas norte-sul e leste-oeste da Síria.

No passado, Homs foi marcada por conflitos, e já viveu combates violentos. Além disso, existem incontáveis campos de petróleo e gás localizados entre Palmira e Homs. Isso leva a crer que a cidade deverá ser o próximo alvo do EI. Se isso acontecer, o regime de Assad terá sérios problemas.

No vizinho Iraque, o EI conseguiu, no último fim de semana, conquistar a capital provincial Ramadi. Durante semanas tivemos a impressão de que o EI estaria enfraquecido. Essa foi uma noção equivocada?

Sim, essa foi uma descrição totalmente exagerada, primeiramente inventada pelos serviços secretos ocidentais. Na esteira da reconquista de Tikrit pelo Exército iraquiano e milícias xiitas, a CIA, assim como a inteligência alemã, espalharam a informação de que o EI estaria acuado. Mas, em retrospecto, isso pode ter sido apenas um mero desejo.

Na verdade, o "Estado Islâmico" atravessa uma fase de grande autoconfiança. Eles aprenderam que podem evitar ataques aéreos americanos se avançarem em unidades bastante reduzidas, em vez de em comboios.

Se Palmira é um passo importante para o EI em seu caminho até a capital Damasco, pode-se dizer o mesmo sobre Ramadi e Bagdá no Iraque?

Ramadi está a apenas 100 quilômetros de Bagdá. Isso é quase como se alguém assumisse o controle de Potsdam, com o objetivo de conquistar Berlim. Do ponto de vista ocidental, Ramadi é a última das principais cidades iraquianas no caminho para Bagdá. O EI vai certamente tentar tomar a capital. Se conseguir avançar, estará apto a bombardear o aeroporto. Esta seria uma derrota psicológica ainda maior para o governo.

Entretanto, é impossível que os islamistas conquistem Bagdá. O EI é um grupo extremista essencialmente sunita, e consegue apenas se mover em regiões predominantemente habitadas por sunitas.

Qual alternativa se pode oferecer aos sunitas, que acreditam que o EI é o menor dos males, se comparado ao governo iraquiano?

Essa é uma questão fundamental. Essencialmente, não é possível derrotar militarmente o EI. Enquanto estiver profundamente arraigado na população sunita do Iraque, eles apenas podem ser forçados a retroceder.

A vitória sobre o "Estado Islâmico" apenas será possível se os sunitas moderados no Iraque se levantarem contra seus rivais dentro das esferas do EI. Mas isso somente será possível se o governo do Iraque, que costuma representar exclusivamente os interesses dos xiitas, abraçar também os sunitas.

Como seria possível deter novos avanços do EI? Será necessário que o Ocidente se aproxime de Assad?

Não há dúvidas de que o regime de Bashar al-Assad é criminoso. Entretanto, o presidente sírio é o único ainda capaz de deter o EI em seu país, através do poderio militar. O Ocidente deve decidir se ainda quer a queda de Assad, como no passado. Isso criaria um vácuo de poder em Damasco, que poderá ser preenchido pelo EI ou pelos insurgentes da frente al-Nusra, a ramificação da Al Qaeda na Síria.

Já que nenhuma capital ocidental é a favor dessa opção, resta uma única alternativa: aproximar-se de Assad e lhe oferecer apoio militar, o que significaria abandonar as políticas ocidentais dos últimos anos.