As ruas de Paris testam Macron | Notícias internacionais e análises | DW | 03.12.2018
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Mundo

As ruas de Paris testam Macron

O que começou como um protesto contra o aumento no preço dos combustíveis virou um movimento amplo de contestação ao governo, que vive sua maior crise, e contra a deterioração da qualidade de vida na França.

O presidente francês, Emmanuel Macron, enfrenta sua maior crise desde que assumiu o cargo há 18 meses, depois de mais um fim de semana de confusão e após semanas de protestos de rua iniciados em manifestações contra aumento de impostos sobre combustíveis e que se transformaram num movimento generalizado contra o governo.

Nesta segunda-feira (03/12), o primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, cancelou sua ida à Polônia – onde participaria da abertura da Conferência para o Clima da ONU – para se reunir com líderes dos principais partidos políticos num esforço para tentar contornar a situação.

Representantes do movimento, porém, afirmaram que não comparecerão à reunião com Philippe. Eles alegaram motivos de segurança para não participar das negociações. Segundo Jacline Mouraud e Benjamin Cauchy, dois dos líderes do grupo moderado, eles foram ameaçados de represálias por manifestantes radicais se iniciassem o diálogo com o governo.

Este foi o terceiro fim de semana consecutivo de confrontos em Paris. Os protestos começaram no mês passado com motoristas irritados com um aumento de impostos sobre combustíveis e cresceram, incorporando uma série de queixas de que o governo Macron não se importa pelos problemas das pessoas comuns.

Trabalhadores removem pichações no Arco do Triunfo. Entre as frases está: Os coletes amarelos triunfarão

Trabalhadores removem pichações no Arco do Triunfo. "Os coletes amarelos triunfarão", diz uma das frases

A tropa de choque da polícia francesa e grupos dos manifestantes conhecidos como "coletes amarelos" voltaram a entrar em confronto em Paris no sábado. Segundo o Ministério do Interior, ocorreram 412 prisões a nível nacional e 262 pessoas ficaram feridas, durante os piores tumultos urbanos da França em uma décadas, em que dezenas de carros foram incendiados. O Ministério do Interior francês contabilizou cerca de 190 focos de incêndio e seis imóveis incendiados.

A polícia usou bombas de gás lacrimogêneo e jatos d'água contra os manifestantes, que responderam jogando pedras e tinta amarela nos policiais. Imagens de TV e vídeos na internet mostram encapuzados invadirem o Arco do Triunfo e atacarem o monumento pichando frases como "os coletes amarelos triunfarão" e "Macron renuncie”. O pequeno museu localizado no Arco do Triunfo foi saqueado.

Os protestos já deixaram quatro mortos. A vítima mais recente foi uma idosa de 80 anos que morreu no sábado após ser atingida por uma bomba de gás lacrimogêneo enquanto fechava a janela de seu apartamento em Marselha. Ela chegou a ser levada ao hospital, mas não resistiu.  

"Senhor presidente, precisamos de uma resposta", cobrou em primeira página o jornal Le Parisien nesta segunda-feira. "Submerso" estampou na manchete o diário de centro-esquerda Libération, afirmando que o governo parece "paralisado pelo movimento dos 'coletes amarelos', que não consegue parar e que ameaça transbordar”.

Com o Arco do Triunfo ao fundo, manifestantes vestidos de coletes amarelos são atingidos por jatos de água

Forças de segurança usaram canhões de jatos d'água nos protestos perto do Arco do Triunfo

O ministro francês da Economia, Bruno Le Maire, disse que a solução para atender os ativistas e resolver o problema do baixo poder de compra das famílias francesas está em reduzir a carga tributária do país, que é uma "das mais altas da Europa", mas assegurou que o governo manterá seu curso de redução das despesas estatais. "Temos que acelerar a redução de impostos. Mas para isso temos que acelerar a redução dos gastos públicos”, ressaltou.

Centenas de pessoas com coletes amarelos na rua de Paris. No meio, manifestante levanta cartaz pedindo destituição de Macron

Protesto dos "coletes amarelos": inicialmente contra aumento de impostos movimento pede saída de Macron

Macron, de 40 anos, parece determinado a não voltar atrás sobre o impopular aumento de impostos sobre combustíveis, que foi o estopim dos protestos. Ele foi eleito em maio de 2017 com uma plataforma liberal prometendo medidas para incentivar companhias a investirem na criação de empregos. Imediatamente após chegar ao poder, implementou cortes de impostos para empresários e para os mais ricos, medidas que são um dos principais pontos de revolta entre os "coletes amarelos".

A tarefa de Macron agora também é complicada por seu próprio desejo de não ceder aos protestos de rua, que no passado repetidamente forçaram seus antecessores a mudar de rumo.

Enquanto o premiê francês, Édouard Philippe promove nesta segunda-feira uma rodada de reuniões com líderes de diversos partidos políticos, os "coletes amarelos" continuaram seus protestos e piquetes em diferentes pontos do país, com bloqueios de rodovias, estradas e acessos a complexos petrolíferos. Outra grande manifestação já foi convocada para o próximo fim de semana.

Manifestantes com coletes amarelos segurando bandeiras francesas em meio a uma nuvem de gás lacrimogêneo

Polícia usou bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes, que responderam com pedras e tinta amarela

A primeira a comparecer ao Palácio de Matignon, a residência oficial do primeiro-ministro, foi a prefeita de Paris, a socialista Anne Hidalgo. Também foram agendadas reuniões com a líder do partido de extrema direita Agrupamento Nacional (antiga Frente Nacional), Marine Le Pen; o primeiro-secretário do Partido Socialista, Olivier Faure; o presidente do conservador Os Republicanos, Laurent Wauquiez, e Stanislas Guerini, o novo delegado-geral do República em Marcha, o partido do presidente Macron.

O "número 1" do partido de esquerda França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, que, assim como Le Pen, pediu a dissolução da Assembleia Nacional para a convocação de eleições legislativas, não pôde comparecer e foi substituído por membros de sua equipe.

As conversas do primeiro-ministro devem continuar nesta terça-feira, com representantes do movimento dos "coletes amarelos". Mas Philippe afirmou que ainda vai iria avaliar se isto será possível e em que formato, depois do fracasso de um encontro similar na última sexta-feira.

O porta-voz do governo francês, Benjamin Griveaux, não quis antecipar se a administração atenderá à principal reivindicação dos "coletes amarelos" desde o início do movimento, a de suspender o aumento dos impostos sobre os combustíveis (à gasolina e, sobretudo, ao diesel), que entrará em vigor a partir de 1º de janeiro. "Não tomamos as decisões antes", afirmou Griveaux, em entrevista à emissora France Inter, frisando que as reuniões com os representantes do movimento e dos partidos é uma tentativa de diálogo.

O movimento dos "coletes amarelos" surgiu há aproximadamente um mês de forma espontânea, sem filiação a nenhum grupo político, e se organizou através das redes sociais para protestar contra um novo aumento dos impostos sobre os combustíveis. As reivindicações, no entanto, se ampliaram posteriormente, e passaram a incluir o aumento do salário mínimo e também a renúncia de Macron.

MD/CN/afp/efe/lusa/ap

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