Alheios ao CD, DJs e amantes do jazz mantiveram viva a mística do vinil | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 18.10.2011
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Cultura

Alheios ao CD, DJs e amantes do jazz mantiveram viva a mística do vinil

O velho long-play foi duas vezes morto e enterrado: primeiro pelos prateados CDs, depois pelos arquivos MP3. Mas dois grupos de entusiastas nunca acreditaram nessa história: os DJs analógicos e os fãs do jazz.

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Long-play: o preferido de muitos DJs até os dias de hoje

No final da década de 1980, o avanço do CD era irreversível. Porém um grupo de cabeças-duras se manteve fiel ao long-play: os DJs. Eles não trocavam por nada o som analógico e orgânico, sobretudo os baixos profundos e quentes, tão apreciados nos clubes e nas danceterias.

Patrick Ruppert é um desses DJs que se mantiveram fiéis ao vinil. Ele curte desde o funk da década de 1970, o soul e o hip hop até o jazz e a música clássica. Seu gosto musical é eclético, seu apartamento está abarrotado de discos, ele nem sabe ao certo quantos. Naturalmente também possui CDs e um monte de arquivos MP3 em seu computador, mas, para mixar ao vivo, não há nada como o vinil.

O peso da (alta) fidelidade

DJ Patrick Ruppert

DJ Patrick Ruppert

Um arquivo MP3 nada mais é do que música compactada, afirma Patrick. "Dá para perceber imediatamente quando se está numa discoteca ou bar onde os DJs não se deram o trabalho de digitalizar a música em alta qualidade, e sim comprimiram tudo em MP3 de baixa qualidade." Os agudos ficam imprecisos – "pastosos", como descreve Patrick –, nos vocais pode aparecer um efeito sibilante.

Para o DJ, é importante a forma de lidar com os toca-discos. "É um pouco como tocar um instrumento", comenta. "Quando se mixa duas canções, é preciso confiar totalmente no sentimento." O material digital permite que duas músicas sejam mixadas automaticamente, sincronizado as batidas: um sacrilégio para um DJ analógico, para quem tudo é questão de trabalho manual.

"É preciso fazer tudo usando a própria audição e, sobretudo, as mãos." Patrick não admite deixar de lado esse trabalho intensivo com a música, mesmo que isso signifique arrastar para cada discoteca que o contrata duas grandes malas cheias de long-plays.

Rare tracks

Daniel tem 21 anos de idade e cresceu com MP3 e CDs. Porém, um dia, aos 16 anos, encontrou e escutou os discos de vinil no porão de seu pai. Os LPs o fascinaram imediatamente, e desde essa descoberta ele coleciona discos por todo lugar aonde vai.

Faz pouco tempo, ele voltou de Gana com uma pilha de velhos discos, desencavados de um barraco cheio de mofo onde estavam se estragando há anos. Daniel os comprou, não por um punhado de cents, mais por bons 10 euros cada um.

Essas valiosas raridades são gravações antigas de highlife, um gênero musical exclusivamente ganense. E Daniel já antecipa a felicidade de rodar esses discos, pois acredita que sua tarefa como DJ é difundir entre as pessoas a música que descobre: "A música existe para ser partilhada".

Diversos DJs que trabalham com vinil se propõem, justamente, a divulgar música pouco conhecida. Assim, nos clubes especializados, podem-se escutar as assim chamadas rare tracks, gravações desencavadas após longa busca e pesquisa. Trata-se, em parte, de estilos musicais fora do comum – northern soul, funk, minimal house –, mas também punk, wave, ou remixagens especiais.

O credo desses DJs analógicos é "tudo, menos mainstream", produto musical de massa é tabu. Todo profissional fica feliz por apresentar obras que ninguém mais toca e de atrair seu público para a pista de dança com músicas fantásticas, porém raramente escutadas.

Schallplatten

Discos de vinil: para muitos, o melhor meio de reprodução musical

Fresco ou crocante

O Metronom é um local de jazz de Colônia, apertado e enfumaçado, com 40 anos de existência. Tudo está repleto de fotos de músicos de jazz famosos, entremeadas com velhos long-plays. Mike e Tom ficam atrás do balcão, às suas costas encontram-se inúmeras garrafas de álcool, com os whiskys mais caros bem em cima, e ao lado há uma estante longuíssima, cheia de discos.

Trata-se exclusivamente de gravações de jazz, organizadas não por artista, mas sim segundo os instrumentos principais. Numa das prateleiras bate o coração do Metronom: o toca-discos, sobre o qual está sempre girando uma gravação de jazz – quer popular, quer rara. Algumas ainda soam bem "frescas", outras já estão bastante "crocantes".

Segundo o dono, Mike, deve haver ali uns 2 mil long-plays – ele não sabe ao certo –, alguns estão também armazenados na cozinha. Discos são simplesmente uma tradição do Metronom, que nunca teve um tocador de CDs. Trata-se de um diferencial importante para os velhos amantes do jazz, que aqui reencontram suas versões favoritas. Como Walter, de 70 anos, que está sentado ao balcão, tomando uma cerveja e tendo ao lado o sobrinho-neto adolescente.

Disquinhos sem alma

Keith Jarrett The Köln Concert

'The Köln Concert', legendário álbum do pianista Keith Jarrett

O veterano conta, orgulhoso, como assistiu ao legendário concerto de Keith Jarrett em Colônia. Na verdade, o músico se recusara a tocar, pois o piano estava desafinado. E no fim das contas só voltou atrás depois que a organizadora praticamente se atirou diante do automóvel do pianista, quando ele já se preparava para partir. "Se soubesse que dali sairia o recital de piano mais vendido de todos os tempos, ele não teria feito toda aquela cena", especula Walter.

O senhor é uma verdadeira enciclopédia ambulante de jazz, capaz de dizer quando foram feitas quase todas as gravações ouvidas no bar, quem está tocando com quem, quem era a diva mais escandalosa dos estúdios de gravação, quem se atracou com quem antes do concerto. E, assim, as anedotas de jazz pulam de um lado para o outro do balcão.

Quanto ao proprietário, Mike, ele tampouco sabe o tamanho de seu acervo particular de vinil: "Discos, você não conta: você simplesmente os tem". No entanto, um número ele é capaz de citar: dois. Esta é a quantidade exata dos CDs que possui, presentes de incautos que não suspeitavam que ele sequer tem um tocador de CDs. "Uma coisa dessas não entra lá em casa", reforça: "CD não tem alma".

Autora: Silke Wünsch (av)
Revisão: Roselaine Wandscheer

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