1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
Peças da coleção Bronzes de Benim
Tropas colonialistas britânicas levaram bronzes do palácio real de Benim em 1897Foto: Daniel Bockwoldt/dpa/picture alliance
ArteNigéria

Alemanha restituirá arte saqueada à Nigéria

30 de abril de 2021

Contando até 500 anos e com caráter fortemente simbólico, cerca de mil Bronzes de Benim se encontram em museus alemães. Sua devolução deve marcar uma guinada no processamento do passado colonial europeu da África.

https://www.dw.com/pt-br/alemanha-restituir%C3%A1-arte-saqueada-%C3%A0-nig%C3%A9ria/a-57393395

Objetos de arte saqueados durante ocupação colonial devem ser devolvidos a seus países de origem? Durante décadas, as antigas potências colonialistas europeias sequer consideraram essa possibilidade. Também na Alemanha, que entre 1884 e 1915 manteve o Sudoeste Africano Alemão (atual Namíbia), costuma-se sustentar a tese de que as peças estariam mais bem salvaguardadas nos museus nacionais do que nos locais em que foram criadas.

Nesse ínterim, contudo, questiona-se essa tese com frequência e veemência cada vez maiores. E entre os símbolos mais eloquentes do conflito estão as magníficas estatuetas e placas de bronze do antigo reino de Benim, hoje parte da Nigéria.

Em 1897, tropas coloniais britânicas saquearam entre 3.500 e 4 mil peças do palácio real da cidade de Benim. Datando de até 500 anos, elas foram vendidas entre a Europa e os Estados Unidos, e cerca de 1.100 acabaram na Alemanha, sendo 440 só para Berlim, que assim passou a ostentar a segunda maior coleção de Bronzes de Benim.

Responsabilidade histórica e moral

Atualmente as peças estão expostas em diversos museus alemães: fruto de roubo e assassinato, sua posse é legal, mas não legítima. Contudo agora essa injustiça está finalmente prestes a ser corrigida: em reunião digital convocada pela ministra da Cultura Monika Grütters, decidiu-se, na noite desta quinta-feira (29/04) que a devolução dos Bronzes à Nigéria começará em 2022.

"Nós assumimos a responsabilidade histórica e moral de trazer à luz o passado colonialista da Alemanha e processá-lo", declarou Grütters após o encontro de que participaram museólogos e responsáveis políticos. "O destino do Bronzes de Benim é uma pedra de toque para isso."

Em 29 de junho, a Fundação do Patrimônio Prussiano ainda apresentará a resolução formal sobre a questão, mas o ministro do Interior alemão, Heiko Maas, comentou: "O fato de se ter conseguido estabelecer um cronograma para as restituições dos objetos, junto com os museus e seus patrocinadores, é uma virada de página em nossa abordagem da história colonial."

Mesmo que ainda haja alguns passos a serem dados, o governo federal, os estaduais e as instituições culturais trabalharam no mesmo sentido, "e vamos encontrar soluções juntamente com os parceiros nigerianos", assegurou o chefe de pasta.

Bronzes de Benim expostos no Museus Rautenstrauch-Joest de Colônia
Bronzes de Benim expostos no Museus Rautenstrauch-Joest de ColôniaFoto: Johan von Mirbach/DW

Questão de identidade nacional

O anúncio despertou contentamento na Nigéria. A devolução dos Bronzes de Benim é de significado decisivo para todo o país, afirmou à agência de notícias KNA o diretor da Comissão Nigeriana de Museus e Monumentos, Abba Isa Tijani. Afinal, "90% da população até agora nunca teve a chance de vê-los".

Ele considera esse retorno uma admissão de que os objetos de arte foram roubados da Nigéria. Na cidade de Benim já está sendo projetado um museu onde deverão ser expostos a partir de 2024. O embaixador nigeriano na Alemanha, Yusuf Tuggar, disse tratar-se de um dia histórico.

Os Bronzes concentram grande valor emocional e se tornaram símbolo da humilhação colonial, afirmou à DW a antropóloga Nanette Snoep, do museu de etnografia Rautenstrauch-Joest, de Colônia. Mais ainda: para alguns, eles são a prova da perpetuação de estruturas colonialistas.

Por isso é importante não esquecer que a luta pela restituição foi iniciada já na década de 1970 por intelectuais africanos. "Muita gente não está consciente dos mecanismos do neocolonialismo e do racismo estrutural e institucional", frisou Snoep. Assim como no movimento Black Lives Matter, também nesse debate a questão é, acima de tudo, identidade e pertencimento.

av (KNA,EPD,DPA,DW)