Alemanha faz aposta controversa em reator de fusão nuclear
7 de novembro de 2025
O governo da Alemanha aposta na construção de um reator de fusão nuclear como parte do seu plano de transição energética, com a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. O gabinete do chanceler federal alemão, Friedrich Merz, destina 1,7 bilhão de euros (R$ 10 bilhões) para financiar o projeto.
Cientistas especializados na fusão nuclear consideram esta uma aposta estratégica e inteligente no longo prazo. O investimento nela "mantém a Alemanha na vanguarda da corrida tecnológica global e, junto com as fontes renováveis, é crucial para assegurar a soberania energética", afirma Sarah Klein, pesquisadora do Instituto Fraunhofer de Tecnologia a Laser, em Aachen.
Enquanto os conservadores do partido de Merz, a União Democrata Cristã (CDU), são simpáticos à nova tecnologia, parte dos especialistas argumenta que mesmo um desenvolvimento bem-sucedido não seria veloz o bastante para que a Europa alcance suas metas para proteger o clima.
A Alemanha se comprometeu a zerar suas emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2045 e a eliminar o carvão até 2038. Críticos do plano de Merz, portanto, argumentam que os recursos públicos seriam mais bem empregados se destinados a ampliar projetos de energia renovável.
Como funciona a fusão nuclear?
Cientistas buscam há décadas dominar a fusão nuclear para gerar energia. O processo consiste em unir dois núcleos atômicos leves sob temperaturas e pressões extremamente altas para que se fundam e liberem energia.
É o mesmo processo básico que faz com que o hidrogênio do Sol se transforme em hélio, gerando luz solar e tornando a vida na Terra possível.
A fusão é o inverso do que ocorre nas usinas nucleares atuais – a fissão nuclear –, em que grandes átomos são divididos em uma reação em cadeia para liberar energia.
A Alemanha encerrou completamente o uso da energia obtida pela fissão nuclear em 2023, uma decisão impulsionada doze anos antes pelo acidente nuclear de Fukushima, no Japão.
"A fusão nuclear é uma tecnologia que pode nos ajudar a garantir nosso fornecimento de energia sem emissões de CO₂ a longo prazo e a permanecer competitivos como uma nação industrial", afirma Sibylle Günter, diretora científica do Instituto Max Planck de Física de Plasma.
Ao contrário da fissão nuclear, a fusão não deixa resíduos radioativos. Outro benefício da fusão seria a sua capacidade de fornecer energia de forma contínua, ao contrário das energias eólica e solar, e de produzir combustíveis sintéticos, como o hidrogênio.
Corrida não é rápida o bastante
Em 2022, cientistas conseguiram pela primeira vez obter um ganho líquido de energia – ou seja, a energia liberada pela reação de fusão foi maior do que a usada para fazer os núcleos atômicos se fundirem. O experimento utilizou lasers de alta potência para alcançar o feito e levantou as esperanças dos seus entusiastas.
Estados Unidos, China, Japão e Reino Unido têm investido bilhões para acelerar o desenvolvimento da mesma tecnologia. Dezenas de startups também já entraram na disputa. Mas o prazo da corrida tecnológica permanece incerto.
"Prevejo que protótipos de fusão estarão na fase piloto conectados à rede dentro de uma década – e possivelmente antes disso", disse Daniel Kammen, professor de energia da Universidade da Califórnia em Berkeley. Já Günter espera que as primeiras usinas de fusão sejam conectadas à rede em cerca de duas décadas.
Outros especialistas argumentam que levará mais tempo para que a fusão comercialmente viável se torne realidade.
"É verdade que a fusão comercial continua sendo uma perspectiva de longo prazo, com incertezas técnicas e econômicas significativas. Portanto, ela não pode substituir o rápido avanço das energias renováveis e do armazenamento de energia hoje," pondera Klein.
O percentual do consumo energético da Alemanha coberto por fontes renováveis caiu de 57% no primeiro semestre de 2024 para 54% no primeiro semestre deste ano.