Alemanha e França abandonam projeto de novo caça europeu
8 de junho de 2026
A França e a Alemanha decidiram abandonar um programa conjunto que visava desenvolver uma aeronave de combate europeia devido a divergências entre as empresas envolvidas, informaram nesta segunda-feira (08/06) autoridades dos dois países.
O programa Future Combat Air System (FCAS), lançado em 2017, era visto como um teste crucial dos esforços europeus para estreitar a cooperação em defesa e apresentar uma frente unida diante de uma Rússia hostil e em um momento de relações deterioradas com os Estados Unidos.
O chanceler federal alemão Friedrich Merz e o presidente francês, Emmanuel Macron, discutiram o projeto à margem da cúpula da União Europeia (UE) com as nações dos Balcãs Ocidentais, em Montenegro, na semana passada, e concluíram que não havia perspectiva de romper meses de impasse entre as empresas de envolvidas, segundo relataram fontes próximas às conversas.
Uma nota emitida pelo Palácio do Eliseu nesta segunda-feira afirma que os dois países não conseguiram dar continuidade ao projeto do caça, após as autoridades alemãs decidirem que não era possível para as empresas envolvidas prosseguirem.
"As autoridades alemãs consideraram que não era possível pressionar ainda mais as empresas", disse o governo francês. "As autoridades francesas continuarão a incentivar nossas empresas e Forças Armadas a explorar maneiras de levar adiante projetos europeus ambiciosos que sejam consistentes com nossos interesses de segurança nacional", acrescentou.
Desafios geopolíticos
A decisão de encerrar o pilar central do maior projeto de defesa da Europa ocorre em um momento em que autoridades militares ocidentais alertam para uma crescente ameaça da Rússia e os Estados Unidos intensificam a pressão para que a Europa se rearme.
A falta de um acordo sobre o projeto de 100 bilhões de euros (R$ 597 bilhões), que também inclui a Espanha, ressalta as dificuldades que a Europa tem enfrentado na reconstrução de sua capacidade militar após décadas de subinvestimento.
As novas aeronaves iriam substituir os caças Rafale da França e os aviões Eurofighter usados por Alemanha e Espanha. No entanto, o programa multibilionário foi assolado por divergências entre as empresas envolvidas, a francesa Dassault Aviation e a Airbus, que representa as partes alemã e espanhola no projeto.
Um funcionário do governo alemão citado pela agência de notícias AFP disse que Merz e Macron "chegaram à conclusão de que as empresas não conseguirão atingir um acordo para construir uma aeronave de combate conjuntamente". O funcionário, no entanto, afirmou que outras partes do projeto serão mantidas.
"O núcleo do FCAS continuará como um sistema europeu", disse o funcionário, que descreveu o projeto como um "sistema nervoso que interliga aeronaves, drones e outros componentes de forma integrada".
Os ministérios da Defesa francês e alemão devem elaborar um plano de trabalho conjunto "focado em alguns projetos realistas e relevantes" em uma reunião futura, acrescentou.
Divergências de longa data
A decisão veio em meio aos apelos para que a Europa integre mais estreitamente suas fragmentadas Forças Armadas, à medida que se agravam as turbulências geopolíticas, como a guerra da Rússia contra a Ucrânia, que já dura mais de quatro anos, e a fragilidade cada vez maior dos compromissos de segurança dos EUA com o continente sob a presidência de Donald Trump.
O projeto, que se concentrava em um caça principal apoiado por drones e conectado por uma "nuvem de combate" secreta, estava em dúvida há meses, enquanto os dois lados discutiam sobre especificações e controle.
Uma fonte europeia afirmou à agência de notícias Reuters que as duas partes buscavam uma solução que preservasse as aparências, na qual os sistemas fora do núcleo do caça, como a "nuvem de combate" de links altamente seguros, continuariam a ser desenvolvidos sob o mesmo nome.
O compromisso é principalmente simbólico, já que FCAS é um nome genérico para tais sistemas e não exclusivo deste projeto. As autoridades, no entanto, vinham buscado uma fórmula que permitisse a Macron abrir mão do núcleo do caça sem ter que declarar o projeto inteiro como morto.
Macron e Merz tentaram por meses salvar o FCAS e superar as diferenças entre os principais parceiros da indústria. Além das disputas sobre o controle da próxima fase de desenvolvimento e o acesso à propriedade intelectual, as duas partes tinham requisitos muito diferentes para a aeronave.
O impasse em relação ao projeto principal do caça ecoa a decisão da França de se retirar do Eurofighter na década de 1980 e sucede anos de crescentes desavenças públicas entre a Dassault e a Airbus.
rc (AFP, Reuters)