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A República brasileira deve aprender com a fome

Ynae Lopes dos Santos
Ynaê Lopes dos Santos
15 de novembro de 2022

Após 133 anos de luta por direitos dos "cidadãos de segunda classe", ainda há uma disputa sobre quem a República deve priorizar. Um Brasil onde 33 milhões passam fome precisa ser dirigido por alguém que já passou fome.

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Homem de máscara pintando cartaz na rua
"A República brasileira está longe de ser inclusiva", escreve a colunista Ynaê Lopes dos SantosFoto: Nelson Almeida/AFP/Getty Images

Um dos grandes desafios que tive como professora do ensino básico era fazer com que meus estudantes traçassem paralelos entre a História Antiga que lhes ensinava e o Brasil que eles viviam. Para além de um certo fascínio criado por Júlio César, Cleópatra e pelos gladiadores, o Império Romano parecia (e era) extremamente distante.

Lembro-me, com grande decepção, de que esses mesmos estudantes ficavam alarmados (revoltados, muitas vezes) quando descobriam que a imensa maioria dos escravizados desse império não era formada por africanos e seus descendentes, e sim homens e mulheres brancos, reafirmando que somos ensinados desde muito cedo que existe uma falaciosa relação entre a cor negra e escravidão.

Mas havia um ponto alto no bimestre: quando os estudantes faziam a conexão entre a construção da República romana e a República brasileira. Investíamos um bom tempo para compreender quais foram as transformações políticas construídas por parte da elite romana que fizeram da defesa da "coisa pública" um ponto fulcral na consolidação dessa forma de governo.

Bem público como finalidade máxima

Essa "coisa pública", tomando o significado da palavra latina "República" ao pé da letra, representava a construção de uma forma de governo que buscava atender aos interesses dos cidadãos romanos, por meio da escolha de representantes com funções e poderes distintos por tempo determinado. A existência do sistema bicameral também foi pensada para que o exercício do poder legislativo tivesse como finalidade máxima o "bem público", e não o interesse de grupos específicos.

Não há dúvida de que o nepotismo fez parte da história da República romana, haja vista as intensas disputas políticas que marcaram seus mais de 500 anos de existência. Uma ideia de exercício do bem público que conviveu muito bem com um sistema escravista em expansão. E ainda que haja um gérmen em comum, é também fundamental lembrar que existem inúmeras diferenças entre a república construída pelos irmãos Graco e a brasileira. Mesmo porque são milênios que as separam.

No entanto, me parece fundamental resgatar o sentido etimológico da palavra, para rememorar os 133 anos da República do Brasil neste 15 de novembro. Sobretudo neste momento em que ainda temos grupos que insistem em não reconhecer sua derrota em meio ao jogo democrático, exigindo que seus interesses privados e particulares estejam à frente do bem maior, ou da maioria da população.

Presidente não pode se emocionar ao falar sobre fome?

A República brasileira está longe de ser inclusiva. Se recuperarmos os anos iniciais da experiência republicana, veremos com muita clareza o que o historiador Marcos Napolitano chamou de "arquitetura da exclusão". Veremos que, por muito tempo, o bem público era muito delimitado e usufruído por poucos, os mesmos de sempre. E que tal limitação caminhava de mãos dadas com o racismo, fazendo da população negra, mestiça e indígena cidadãos de segunda classe, quando muito.

No entanto, também veremos que esses 133 anos foram marcados pela luta constante por garantia e ampliação de direitos desses mesmos "cidadãos de segunda classe". Uma luta que pode ser traduzida pelo alargamento do sentido e da extensão do "bem público". Uma luta tamanha que afronta a percepção que alguns grupos ainda têm sobre quem e o que deve ser contemplado no exercício da cidadania.

O horror que o choro do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva causou em alguns setores da elite política, econômica e intelectual do Brasil é um exemplo disso. Segundo eles, um presidente não deve se emocionar ao falar sobre fome. Sobretudo se esse choro e emoção não forem bem vistos pelo "mercado", que prefere ver milhares de famintos a ter um teto de gasto questionado.

E aí me pergunto: onde fica a coisa pública?

Há mais de 80 anos, o historiador Sérgio Buarque de Holanda chamou a atenção para o fato de que o brasileiro, em geral, e a elite brasileira, em particular, têm grande dificuldade em determinar o que é público e o que é privado. Essa dificuldade atravessou a experiência republicana brasileira desde o fatídico 15 de novembro de 1889, demonstrando sua cara mais feia nos momentos de ditadura militar, ou de tentativas de instauração da mesma.

No entanto, mesmo em momentos em que a política brasileira aparenta ser progressista, há uma disputa sobre o que é o "bem público", e a quem ele deve atender em primeiro lugar. E num país no qual 33 milhões de cidadãos passam fome, fico com a máxima da escritora Carolina Maria de Jesus: "O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora."

No Brasil, o bem público também tem que ser o bem de quem passa fome.

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Mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017) e Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.

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